sábado, 8 de março de 2014

Sexto Mandamento

Êxodo 20.13

Em nosso estudo anterior, sobre o quinto mandamento:

ð  Citamos ações práticas, que creio, estão inclusas nessa exigência: honrar aos pais ouvindo; honrar aos pais considerando; e honrar aos pais obedecendo em submissão.

ð  Vimos, pela Palavra de Deus que, se por um lado, filhos devem honrar seus pais, devotando-lhes a obediência devida, por outro, os pais, investidos de autoridade, devem exercê-la de modo responsável e respeitoso, cuidando para não abusarem dela, provocando os filhos a ira.

ð  Observamos que, embora as primeiras implicações do quinto mandamento digam respeito à vida familiar, ele expressa, também, a necessidade, o valor e a importância da autoridade de um modo geral e exige daqueles que estão investidos ou sujeitos à autoridade, que se portem como pais e filhos.

ð  Terminamos afirmando que, a correta relação entre pais e filhos é fundamental para o bem estar da alma. Por meio de Cristo, pais e filhos, podem  reaproximar-se uns dos outros. O poder de Deus, pela sua Palavra, é suficiente para encher de amor a ambos, para perdão e restauração.

Nosso estudo de hoje é sobre o sexto mandamento – Êxodo 20.13 – Não matarás.

Esse mandamento proíbe o homicídio doloso e culposo e “demonstra a elevada prioridade que Deus dá à vida humana”.[1] Ele se revela como o autor da vida desde Gênesis e é o único que possui autoridade para tirá-la – Gn 1.1-2.1, 17; Dt 32.39.

Para uma compreensão correta do sexto mandamento precisamos de uma base teísta para a valorização da vida. O reducionismo biológico, embora reafirme que o homem é um ser racional, trata o ser humano como um simples animal conduzido unicamente pela lei da sobrevivência do mais apto, onde matar o fraco deixa de ser amoral e se torna encaminhamento natural e até necessário. A cosmologia mística, por sua vez, assenta-se sobre a ideia, ainda que não articulada conscientemente, de que tudo o que existe é divino, ou seja, o panteísmo. Ainda que propondo algo diferente do reducionismo biológico, a cosmologia mística nos conduz a resultados semelhantes.[2] Assim, não há um alicerce adequado para a dignidade humana por esses caminhos.

A Bíblia ensina que a vida humana é preciosa porque é criação singular de Deus. “Pela estrutura do relato de Gênesis, que parte do simples para o complexo, da preparação do arcabouço pertinente à vida, até o clímax da criação no sexto dia, quando surge o homem”[3] (Gn 1.1-31 (cf. 1.26, 27), o relato é cuidadoso e destaca a criação das coisas conforme ou segundo a sua espécie – Gn 1.11, 12, 21, 24, 24, 25. Mas, em Gn 1.26 fica claro que o ser humano é uma criatura distinta das demais.

Assim, a dignidade humana não pode ser constatada a partir de um paradigma meramente biológico (materialismo), nem muito menos místico (panteísmo), mas, sim a partir da aceitação de um Deus criador e pessoal, que fez o ser humano à sua imagem e semelhança (Gn 1.26, 27). Esse é o único lastro consistente para a articulação de qualquer conceito da dignidade da vida humana. Esse ponto de vista é chamado de Teísmo Cristão.

Mas, o sexto mandamento, também, revela e coíbe o ímpeto homicidada existente no coração humano por causa da queda. Vemos que nos primeiros capítulos da Bíblia, a morte é mencionada quatro vezes: Em Gn 2.17apresentada como possibilidade; em Gn 3.19apontada com resultado imediato da queda, ou como destino; e em Gn 4, a morte é um fato por duas vezes – 4.8, 23 – isso demonstra a existência de um ímpeto homicida no coração humano decaído.

O Senhor Jesus ensinou em Mc 7.21 que o coração humano depravado pelo pecado é a fonte do homicídio. Assim, esse mandamento é dado a fim de revelar e estancar essa fonte.

O sexto mandamento da Lei de Deus é desafiador para as relações humanas. O ensino do Senhor Jesus sobre a dignidade humana, como imagem de Deus, traz uma advertência séria sobre isso – Mt 5.21, 22; cf. Hb 12.14-17. Para ele, a ira abrigada na alma já é um homicídio em potencial.  Jesus afirma, ainda, que a falta de acerto na relação com próximo impede o culto – Mt 5.23-26; cf. Is 58.3, 4.

O mandamento confronta o ódio que leva ao desejo de vingança, ambição desenfreada, banalização da vida humana e autocomiseração. O ódio ou a raiva pode manifestar-se de três modos: 1º) Em fúria – claramente publicado; 2º) em indiferença ou trato polido – percebido por alguns; e 3º) disfarçado sob um verniz de amabilidade – sutilmente oculto. Em todos os casos há violência, que pode ser: agressão física, moral, psíquica e espiritual. O ódio produz obsessão (onde se dedica todas as energias à destruição ou apagamento do outro), distanciamento (quando se considera o outro morto), doença mental (quando obcecado pelo mal do outro, se adoece) e doença espiritual (falta de comunhão com Deus).[4]

Mesmo sabendo que no mundo em que vivemos teremos inimigos, pela defesa de nossa fé e dos princípios morais absolutos da Palavra de Deus, a Bíblia nos constrange a buscarmos a paz com todos os homens e depositar nossas causas nas mãos de Deus – Mt 5.9; Rm 12.9-21.

O sexto mandamento implica, também, em nosso cuidado pessoal e na função social das autoridades constituídas, isto é, em que não devemos fazer mal a nós mesmos e isso coíbe tanto o ato extremo do suicídio quanto o descuido com nosso equilíbrio pessoal, e que as autoridades constituídas receberam a incumbência de manter a ordem social e, para isso, podem e somente elas podem, usar a força para coibir o mal e motivar o bem.[5] (cf. Ef 5.29; 1Tm 4.16; At 20.2, 3; Rm 13.4)

No controverso tema do uso da violência em legitima defesa, o Senhor Jesus recomenda a vigilância – Mt 24.43; Lc 22.35-38.

Concluindo

No Catecismo de Heidelberg, pergunta 105, temos: O que Deus exige no sexto mandamento?

Que eu não devo desonrar, odiar, ferir ou matar meu próximo, seja eu pessoalmente, ou por meio de outros, mas que devo abandonar todo desejo de vingança; e também que eu não fira a mim mesmo, e nem deliberadamente me exponha a qualquer perigo. Para isso, as autoridades dispõem de armas para evitar homicídios.

No Catecismo Maior de Westminster, pergunta 135, temos: Quais são os deveres exigidos no sexto mandamento?

... a justa defesa (da vida) contra a violência; a paciência em suportar a mão de Deus; o sossego de espírito, a alegria de coração e o uso sóbrio da comida, da bebida, de remédios, do sono, do trabalhos e dos recreios; pensamentos caridosos, amor, compaixão, mansidão, benignidade, bondade, comportamento e palavras pacíficos, brandos e corteses; a longanimidade; a prontidão para se reconciliar, suportando pacientemente e perdoando as injúrias, pagando o mal com o bem; confortar e socorre os aflitos; e proteger e defender os inocentes.

Creio que, por último, o mandamento sugere sentimentos, atitudes, hábitos e comportamentos construtivos.[6]

Pr. Walter Almeida Jr.
CBL Limeira, 08/03/14



[1] Carson, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, 2009, p. 172.
[2] Lição “Os Dez Mandamentos – Os Preceitos do Deus da Aliança”, Editora Cultura Cristã, 1º Trimestre de 2014, Lição 7, p. 35.
[3] Ibid., p. 36.
[4] Nascimento, Misael Batista do. Os primeiros passos do discípulo, Editora Cultura Cristã, 2011, p. 16.
[5] Ibid., p. 16.
[6] Ibid., p. 17.

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