sábado, 30 de abril de 2016

Estudos Bíblico na Carta aos Gálatas (6) - A justificação pela fé é suficiente para a salvação (3)

Gálatas 3.1-29 (vv.15-29)

III. O argumento da Promessa (Aliança) e da Lei – vv.15-29

Os falsos mestres que estavam pervertendo o Evangelho em Gálatas, aos quais Paulo estava combatendo, não aceitavam o princípio de sola fides (justificação somente pela fé). Insistiam em que o homem precisava contribuir com sua salvação. Consequentemente, acrescentavam à fé as obras da lei como outro fundamento essencial para o indivíduo ser aceito por Deus.[1]

Mas, como diz John Stott, não podemos colocar Abraão e Moisés um contra o outro, nem a promessa e a lei, uma contra a outra, como se tivéssemos de rejeitar uma para aceitar a outra. Se Deus é o autor de ambas, deve ter tido algum propósito para elas. Qual é, então, a relação entre a promessa e a lei? Nos versículos 15 a 18 Paulo diz que a lei não anulou a promessa e nos versículos 19 a 22 diz que a lei iluminou a promessa. Nos versículos 23 e 24 Paulo descreve o que éramos sob a lei, e nos versículos 25 a 29, o que somos em Cristo. A lei não nos salva, mas nos toma pela mão e nos leva a Cristo, o Salvador.[2]

Na verdade, não há questão mais prática do que essa do relacionamento do cristão com a lei de Deus.[3] Portanto, o terceiro argumento paulino para convencer os irmãos da Galácia a não abandonar o evangelho da graça de Deus, envolve a promessa e a lei.

Temos aqui quatro verdades essências nos argumentos de Paulo:[4]

1º) A lei não anula a promessa – Isso por pelo menos quatro razões:

() Qualquer aliança feita é irrevogável legalmentev.15. Calvino diz: “Se os contratos humanos são tidos como obrigatórios, quanto mais obrigatória é a aliança que Deus estabeleceu”. Ora, se o testamento de um homem não pode ser alterado nem modificado, muito menos as promessas de Deus, que são imutáveis[5].

() Deus fez a promessa a Abração e a seu descendentev.16. Convém observar que não foi Abraão quem fez uma aliança com Deus; antes, foi Deus quem fez uma aliança com Abraão, uma aliança de graça. A aliança repousa exclusivamente em Cristo. Se Cristo é o fundamento da aliança, segue-se que esta é gratuita. A lei tomava em consideração os homens e as suas obras; enquanto a promessa leva em conta a graça de Deus e a fé[6] (cf. Rm 4.13, 14).

() Deus fez a aliança da fé antes de dar a leiv.17. A promessa de fé precede o pacto da lei. Abraão foi justificado pela fé mais de quatro séculos antes de a lei ser dada. A aliança da fé tem suas raízes na eternidade, uma vez que antes de ela ter sido dada a Abraão no tempo, foi dada a Cristo na eternidade. Porque a promessa da justificação pela fé veio antes da lei, ela não pode ser ab-rogada pela lei. Warren Wiersbe ressalta que, em virtude de Deus ter feito sua promessa pactuai com Abraão por meio de Cristo, nem mesmo Moisés pode mudar essa aliança. Não se pode acrescentar coisa alguma a ela nem tirar coisa alguma dela[7].

() Deus concedeu a herança, gratuitamente, pela promessa e não pela leiv.18. A herança concedida a Abraão foi a justificação, e ele não foi justificado pela lei, mas pela fé, e isso, gratuitamente. Abraão não mereceu nem conquistou essa herança; ele a recebeu gratuitamente pela fé. William Hendriksen está absolutamente correto quando diz que a salvação é um dom gratuito de Deus, e não uma conquista do homem[8] (cf. Rm 6.23; Ef 2.8-10).

2º) A lei não é maior que a promessaela simplesmente revela o pecadovv.19-21.

A lei mostra ao pecador o seu pecado e o motiva a buscar a graça de Deus que está em Jesus Cristo. Temos aqui, duas lições importantes: () A lei foi temporária até que Jesus Cristo viesse; e () A lei exigiu um mediador (cf. At 7.53 – os anjos e Moisés). Na aliança feita com Abraão o próprio Deus, em Cristo, entrou na aliança como mediador (cf. 2Tm 2.15; Hb 8.6; 9.15; 12.24).

William Barclay diz que vemos aqui, ao mesmo tempo, a força e a debilidade da lei. Sua força está em que ela define o pecado; sua debilidade em que ela nada pode fazer para remediá-lo. A lei é como um espelho que mostra a sujeira do nosso rosto, mas não a remove. A lei é como um prumo que mostra a sinuosidade da nossa vida, mas não a endireita. A lei é como uma luz que mostra o obstáculo do caminho, mas não o remove. A lei é como uma tomografia computadorizada que mostra os tumores escondidos em nossas entranhas, mas não é o bisturi que os cirurgia. A lei torna o homem consciente do seu pecado e de sua condenação. Como diz John Stott, a função da lei não é conceder a salvação, mas convencer os homens de sua necessidade.[9]

3º) A lei serviu como prisão (sob custódia) e como aio (pedagogo, guia, auxiliar) para levar a Jesus Cristovv.23-25.

Antes de a fé vir, ou seja, antes de Cristo morrer pelos nossos pecados, os homens eram prisioneiros sob a lei. O termo grego phroureo, sob tutela, significa sob custódia, guardado em prisão. Essa palavra significa proteger com guardas militares. Quando aplicada a uma cidade, era usada tanto no sentido de manter o inimigo fora como de guardar os habitantes dentro, para não fugirem ou desertarem. A lei nos mantinha na prisão, confinados e prisioneiros. A lei mostra o homem exatamente onde ele caiu. Acusa-o e condena-o. A lei não tem nenhum poder para tirar esse homem da prisão nem para lhe dar vida. A única esperança do pecador é surgir alguém para libertá-lo da prisão. Foi isso que Cristo fez![10]

A palavra grega paidagogos significa literalmente tutor, guia, guardião de crianças. O paidagogos era um disciplinador severo, contratado para realizar um serviço, com o menino tendo de lhe obedecer. William Barclay esclarece que o paidagogos também tinha a obrigação de cuidar para que o menino não caísse nas tentações ou nos perigos da vida e adquirisse as qualidades essenciais de um homem.[11]

Vale ressaltar que o aio não era o pai da criança. Seu trabalho era preparar essa criança para a maturidade. Quando a criança a atingisse, a função do aio deixaria de ser necessária. Da mesma forma, a lei foi uma preparação para a chegada de Cristo. O papel da lei é levar o homem a Cristo, o verdadeiro Mestre, o único que pode libertar, perdoar e salvar. O papel da lei é levar os homens a Cristo, a fim de que sejam justificados por fé; mas, tendo vindo a fé, já não permanecem mais subordinados ao aio. A lei é o aio, o pedagogo ou o guardião que prepara o homem para ver sua necessidade de Cristo e o conduz a Cristo. Em outras palavras, a lei era uma preparação para Cristo, e a lei era temporária.[12]

4º) A lei não pode fazer o que a promessa fazo cumprimento da promessa nos uniu a Cristovv.26-29. Paulo conclui sua argumentação da superioridade da promessa sobre a lei, mostrando quatro coisas que a promessa nos dá e que a lei não nos pode dar: () Ser filho de Deus pela fé em Cristov.26; () Ser revestido por Cristo, isto é, receber o caráter, a mente e o poder dele para testemunharv.27 (cf. Lc 24.49; 1Co 2.16; Ef 4.22-31); () Ser um em Cristo com todos os crentes, isto, a fé em Cristo elimina todas as distinções e preconceitosv.28 (cf. At 10.34; Rm 2.11; Ef 6.9; Cl 3.25; Tg 2.1, 9; 1Pe 1.17); () Ser herdeiro da promessa – v.29. Essa promessa fala da herança da justificação, da salvação e da bem-aventurança eterna[13] (cf. Rm 8.15-17).

Concluindo

Três aplicações práticas:

Aprendemos que: 1ª) As promessas e alianças incondicionais feitas por Deus são irrevogáveis; 2º) A lei nunca teve o poder de justificar o pecador, mas apenas de mostrar o seu pecado e apontar para Cristo o único justificador capaz; e 3º) Em Cristo somos todos herdeiros da promessa de Deus.

Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira – 30/04/16


[1] Lopes, p. 147.
[2] Lopes, p. 148.
[3] Keller, p. 80.
[4] Casimiro, p. 15, 16. Aqui uso os pontos principais do comentário da 3ª lição nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos julgados necessários.
[5] Lopes, p. 149.
[6] Lopes, p. 150.
[7] Lopes, p. 151.
[8] Lopes, p. 151.
[9] Lopes, p. 151, 152.
[10] Lopes, p. 157.
[11] Lopes, p. 158, 159.
[12] Lopes, p. 159.
[13] Lopes, p. 161.


Estudos Bíblico na Carta aos Gálatas (6) - A justificação pela fé é suficiente para a salvação (2)

... continuação...

II. O argumento do Antigo Testamento – vv.6-14

O apóstolo Paulo faz uma transição da experiência dos crentes da Galácia para as Escrituras. Ele tira os olhos do presente e volta-os para o passado. Equilibra a experiência subjetiva dos cristãos da Galácia com o ensinamento objetivo da Palavra inalterável de Deus. Vale ressaltar que não julgamos as Escrituras pela nossa experiência, mas testamos nossas experiências pelas Escrituras. Paulo passa a citar várias passagens do Antigo Testamento para provar que a salvação é pela fé em Cristo, não pelas obras da lei.[1]

Portanto, após argumentar sobre a experiência espiritual dos gálatas, Paulo utiliza argumentos do Antigo Testamento para fundamentar que a justificação pela fé, é a única maneira de Deus abençoar o homem.[2] Seus argumentos são:

1. Abração foi abençoado com a salvação pela fé – v.6.

Warren Wiersbe argumenta que Paulo começa citando Moisés para mostrar que a justiça de Deus foi “depositada na conta” de Abraão somente por sua crença na promessa de Deus (Gn 15.6). O termo “imputado”, em Gálatas 3.6 e Gênesis 15.6, tem o mesmo significado de Romanos 4.11, 22-24. A palavra grega significa “creditar na conta de alguém”. Quando um pecador crê em Cristo, a justiça de Deus é creditada em sua conta. Mais do que isso, os pecados dessa pessoa deixam de ser registrados nessa conta (Rm 4.1-8; 2Co 5.21). Assim, diante de Deus o histórico está sempre limpo e, portanto, o que creu não pode jamais ser julgado por seus pecados.[3] Assim, quem salvou Abraão foi Cristo que veio da linhagem de Abraão (Gl 3.15, 16).

2. Qualquer pessoa só pode ser salva pela fé em Cristo – v.7-9.[4]

Abraão é o pai da nação judaica e também o pai dos crentes. Ele foi justificado muito antes de a lei ser dada. Ele foi justificado pela fé, e não pelas obras da lei. Se o pai dos crentes foi justificado pela fé, por que seus filhos seriam justificados pelas obras da lei?

Aqui Paulo está citando Gênesis 12.3; Gn 22.17,18; At 3.25. Convém examinarmos que bênção era essa e como todas as nações viriam a herdá-la. A bênção é a justificação, a maior de todas as bênçãos, pois os verbos justificar e abençoar são usados como equivalentes no v.8. E o meio pelo qual a bênção seria herdada é a fé. Sendo assim, os gálatas já eram filhos de Abraão, não pela circuncisão, mas pela fé.

A salvação do começo ao fim se manteve sempre do mesmo jeito. Sempre foi pela fé e jamais pelas obras. Tanto os judeus como os gentios são salvos da mesma maneira. Ambos são salvos pela fé. Por isso, Deus preanunciou o evangelho a Abraão e nele abençoou todos os povos, de tal modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão. Os filhos de Abraão não são aqueles que têm o sangue judeu correndo em suas veias, mas os que têm a fé de Abraão habitando em seu coração.

3. Pela lei ou pelas obras ninguém será justificado (salvo) – vv.10-12.[5]

A lógica de Paulo é irresistível: Quem transgride o menor dos mandamentos da lei é maldito. Todos são culpados dessa transgressão. Logo, todos são malditos. Calvino é claro em afirmar que a lei justifica aquele que cumpre todos os seus mandamentos, enquanto a fé justifica aqueles que são destituídos do mérito das obras e confiam exclusivamente em Cristo.
Hernandes Dias Lopes, destaca três pontos importantes aqui:

1º) A lei impõe maldição (v.10). Aqueles que buscam a justificação pelas obras da lei estão debaixo de maldição, pois é essa a sentença que a lei impõe para aqueles que não permanecem em perfeita obediência aos seus preceitos. Paulo diz que só há dois caminhos pelos quais o homem pode ser salvo: o caminho da lei e o caminho da fé. O caminho da lei está baseado nas obras do homem e exige perfeição; como o homem não é perfeito, a lei o coloca debaixo de maldição. O caminho da fé descansa nas obras de Cristo e, porque ele é perfeito e realizou obras perfeitas, podemos ser salvos pela fé.

2º) A lei produz frustração (v.11). A lógica de Paulo é irrefutável: “E evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (ARA). Aqueles que buscam a salvação pelas obras da lei não têm esperança. Já entram nessa corrida derrotados. Ninguém, jamais, conseguiu alcançar o padrão exigido pela lei. Por isso, ninguém é justificado diante de Deus pela lei. Ela só pode gerar frustração. Concordo com William Barclay, quando ele diz que o caminho da lei e o da fé são totalmente antitéticos; não se pode dirigir a vida por ambos ao mesmo tempo; uma escolha é imperativa e necessária. A única escolha lógica e sensata é abandonar a vida do legalismo e entrar pelo caminho da fé. O v.11 é uma citação de Habacuque 2.4, repetida por Paulo em Romanos 1.17. William Hendriksen explica que depender da lei significa depender de si mesmo. Exercer a fé significa depender de Cristo.

3º) A lei exige perfeição (v.12). A lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom (Rm 7.12). Aquele que observar os preceitos da lei, por eles viverá (v.12). O problema é que somos pecadores e não conseguimos cumprir as demandas da lei. Warren Wiersbe diz que a lei não é um “bufê religioso” do qual as pessoas escolhem o que lhes agrada. Tiago escreveu: “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Paulo, citando Deuteronômio 27.26, diz que maldito é todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las (3.10). Paulo declara que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado (Rm 3.20). O papel da lei não é salvar o pecador, mas mostrar o seu pecado, tomá-lo pela mão e levá-lo ao Salvador (3.24).

4. A justificação é através de Jesus Cristo que se fez maldito por nós – vv.13, 14.[6]

Tendo afirmado que a justificação é pela fé, Paulo agora diz que é por intermédio de Cristo. Somos justificados por causa do sacrifício de Cristo e recebemos essa justificação pela fé.

John Stott tem razão quando diz que a maldição foi transferida de nós para Cristo. Ele a colocou voluntariamente sobre si mesmo, a fim de nos libertar dela. E essa transferência da maldição que explica o horrível grito de abandono e solidão que ele enunciou na cruz. Estou de pleno acordo com a declaração de Adolf Pohl de que Cristo não se fez maldição porque transgrediu a lei. Ao contrário, foi obediente até a morte e morte de cruz. Ele “...se ofereceu sem mácula a Deus” (Hb 9.14), “...sem defeito e sem mácula” (1Pe 1.19). Porém, se não suportou a maldição por si, ele a suportou por nós, “...o justo pelos injustos” (1Pe 3.18).

Hernandes aponta quatros pontos importantes aqui: 1º) A justificação tem como causa meritória o sacrifício expiatório de Cristo (v.13); 2º) A justificação implica a plena satisfação das demandas da lei (v.13); 3º) A justificação redunda em resgate da maldição da lei (v.13). 4ª) A justificação pela fé é a bênção de Abraão destinada a todos os que creem (v.14).

Portanto, Deus não tem duas formas de salvar o pecador. Abraão foi justificado pela fé, e assim todos os gentios recebem essa bênção de Abraão, a justificação, pela fé. A justificação é em Cristo, e não à parte de Cristo. O Espírito prometido, que nos convence do pecado, da justiça e do juízo, nos é dado pela fé, e não pelas obras da lei.

Warren Wiersbe diz que esses dois versículos são um excelente resumo de tudo o que Paulo vem dizendo ao longo de sua argumentação. A lei coloca os pecadores sob maldição? Cristo nos redime dessa maldição! Desejamos a bênção de Abraão? Ela é recebida por meio de Cristo! Desejamos o dom do Espírito, mas somos gentios? Por meio de Cristo, esse dom é concedido aos gentios! Tudo aquilo de que precisamos encontra-se em Cristo! Não há motivo algum para voltar a Moisés.

Três aplicações práticas:

Aprendemos que: 1º) Abraão foi justificado pela fé e não pelas suas obras; 2º) Qualquer pessoa pode ser salva, mas somente pela graça mediante a fé em Cristo; e 3º) A fé salvadora é aquela que aceita a salvação que Cristo realizou na cruz.



[1] Lopes, p. 136.
[2] Casimiro, Arival Dias. Estudos Bíblicos Gálatas & Tiago – Liberdade, Fé e Prática, Z3 Editora, 2011, p. 13, 14. Esse ponto segue os pontos do comentário da 3ª lição nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[3] Lopes, p. 137.
[4] Lopes, p. 138,139. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[5] Lopes, p. 139-141. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[6] Lopes, p. 142-144. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.

domingo, 10 de abril de 2016

Estudos Bíblico na Carta aos Gálatas (6) - A justificação pela fé é suficiente para a salvação (1)

Gálatas 3.1-29

No estudo anterior em Gálatas 2.11-21 com o tema: Vivendo conforme a verdade do Evangelho, vimos que viver assim significa viver: 1º) Sem hipocrisia e sem medovv.11-14; 2º) Justificado pela fé em Cristovv.15-19; 3º) Sem anular a graça de Deusvv.20, 21.

Terminamos dizendo que: A graça diz: “Não há distinção! Todos são pecadores, e todos podem ser salvos pela fé em Cristo”. A lei diz: “Há distinção. A graça de Deus não é suficiente; também precisamos da lei”. O argumento de Paulo é que a volta à lei anula a cruz. Enquanto a lei diz: “Faça!”, a graça diz: “Já foi feito!”

Temos visto em nossos estudos que, Paulo apresentou aos gálatas o evangelho da graça soberana levando a eles a verdade de que a salvação é recebida por meio da fé na obra expiatória de Cristo na cruz e nada mais. Entretanto, esses crentes estavam sendo levados pela correnteza e aceitavam um substituto inferior e impotente baseado nos antigos padrões rituais e cerimoniais mosaicos, os quais a nova Aliança em Cristo tornara inválidos, e que, mesmo sob a antiga Aliança, não tinham poder para salvar. Por terem permitido ser enganados, esses crentes lançavam aos incrédulos iludidos ao seu redor o pensamento de que o cristianismo era uma questão de lei em vez de fé. Eles roubaram de si mesmos a plenitude das bênçãos de Deus e corriam o risco de roubar ao mundo o conhecimento do único caminho de salvação.[1]

Hoje, vamos estudar Gálatas 3.1-29 com o seguinte tema: A justificação pela fé é suficiente para a salvação.

Nessa passagem, Paulo relembra aos gálatas que a experiência do crente com o Senhor Jesus Cristo, o Espírito Santo e Deus Pai é a evidência inquestionável de ser graciosamente aceito por Deus mediante a fé pessoal na perfeita e completa obra de Cristo, independentemente de qualquer complementação humana. Paulo usa Abraão como prova de que a salvação nunca vem por qualquer outro caminho que não o da graça mediante a fé. Até mesmo o Antigo Testamento ensina a justificação pela fé.[2]

A falta de firmeza da igreja gerou um profundo desgosto no apóstolo, e ele, de forma contundente, exorta a igreja e faz uma robusta defesa da doutrina da justificação pela fé. John Stott diz que o afastamento dos gálatas do evangelho era não apenas uma espécie de traição espiritual (1.6), mas também um ato de loucura (3.1). Isso porque o conteúdo do evangelho é Cristo, e este crucificado. O evangelho oferece a justificação (3.8) e o dom do Espírito (3.2-5). O evangelho exige não obras, mas fé. Recebemos o Espírito pela fé (3.2-5) e somos justificados pela fé (3.8). Assim é o verdadeiro evangelho do Antigo e do Novo Testamento, o evangelho que o próprio Deus começou a pregar a Abraão (3.8) e que o apóstolo Paulo continuou pregando em seu tempo. E a apresentação de Jesus Cristo crucificado diante dos olhos dos homens. Nessa base tanto a justificação como o dom do Espírito são oferecidos. E se exige apenas a fé.[3]

Assim, Paulo apresenta, aqui, três argumentos para provar a suficiência da justificação pela fé: 1º) O argumento da experiência pessoal dos gálatasvv.1-5; 2º) O argumento do Antigo Testamento vv.6-14; e 3º) O argumento da Aliança e da Leivv.15-29.

I. O argumento da experiência pessoal dos gálatas – vv.1-5

Esses cinco primeiros versículos fazem uma afirmação extraordinária, muito negligenciada pelos cristãos, mas absolutamente crítica para eles. Não somos apenas salvos pelo evangelho, mas também crescemos pelo evangelho. Paulo está dizendo que não começamos pela fé para depois prosseguir em nosso crescimento por meio das obras. Não apenas somos justificados pela fé em Cristo, somos também santificados por ela. Nunca deixamos o evangelho para trás.[4]

No v.1, Paulo faz duas solenes advertências: 1ª) abandonar o evangelho da graça é consumada insensatezÓ gálatas insensatos!... (3.1). As igrejas da Galácia estavam perdendo o juízo, agindo sem discernimento, desprovidas de capacidade de racionar com clareza. A palavra grega anoetos, “insensatos”, significa tolo, espiritualmente néscio e descreve uma ação sem sabedoria. Donald Guthrie diz que essa palavra sugere não só incapacidade de pensar quanto falha em fazer uso dos poderes mentais.[5] MacArthur diz que a palavra se refere não à falta de inteligência, mas à falta de obediência (cf. Lc 24.25; 2Tm 6.9)[6]; 2ª) dar ouvidos aos falsos mestres é ser desencaminhado pela mentira...quem vos fascinou... (3.1). A palavra grega usada aqui, abaskanen, carrega a ideia de procurar prejudicar alguém mediante palavras malignas[7]; desencaminhar mediante bajulação e falsas promessas; o termo sugere um apelo às emoções[8]. Adolf Pohl diz que a conversa fiada dos falsos mestres praticamente hipnotizou os crentes da Galácia de tal forma que eles não ofereceram nenhuma resistência a essa falsa doutrina (cf. 2.4, 14; 2Co 11.19, 20).[9]

Paulo começa sua argumentação apelando para a experiência dos crentes da Galácia. Faz a eles cinco perguntas retóricas para mostrar que, desde o início até o fim da vida cristã, eles haviam sido salvos pela fé, e não pelas obras da lei.[10] Então, para despertar os irmãos da demência espiritual, ele argumenta sobre a própria experiência deles apontando quatro experiências espirituais deles:

1ª) Experiência Eles contemplaram a Jesus crucificado pela pregação (v.1).[11] Paulo expôs o evangelho da cruz aos gálatas de maneira tão clara e compreensiva, como se estivesse utilizando o método audiovisual. A ênfase dele é que a sua pregação não foi obscura, mas uma imagem nítida e vivida de Jesus. É como se eles tivessem visto a Cristo face a face.

Aqui nos vv.1-3, Paulo lembra aos cristãos da Galácia como foi que eles se entregaram a Cristo, provenientes do paganismo. Um cristão não é alguém que sabe sobre Jesus, mas alguém que o viu na cruz. A ênfase da mensagem não é como viver, mas o que Jesus fez na cruz por nós. Nosso coração se emociona quando vemos não só que ele morreu, mas que morreu por nós. Entendemos o sentido de sua obra em nosso favor. Somos salvos por uma apresentação racionalmente clara e comovente da obra de Cristo em nosso favor.[12]

Matthew Henry diz que os gálatas tiveram a mensagem da cruz pregada a eles e a Ceia do Senhor ministrada entre eles e, em ambas, Cristo crucificado foi manifestado a eles. Warren Wiersbe afirma que Paulo apresentou Cristo abertamente aos gálatas, com grande ênfase em sua morte na cruz pelos pecadores. Eles ouviram essa verdade, creram nela e obedeceram; como resultado, nasceram de novo e passaram a fazer parte da família de Deus. John Stott tem razão quando diz que o evangelho não é uma instrução generalizada acerca do Jesus da história, mas uma proclamação específica do Cristo crucificado. O evangelho não é um bom conselho aos homens, mas as boas-novas acerca de Cristo; não é um convite para se fazer alguma coisa, mas uma declaração do que Deus já fez; não é uma exigência, mas uma oferta.[13]

2ª) Experiência – Eles receberam a pessoa do Espírito Santo, após crerem no Evangelho (vv.2, 3). Paulo destaca aqui dois aspectos da obra do Espírito Santo na vida do crente: () A conversão do crente é obra do Espírito Santo. O batismo como Espírito Santo ou o recebimento da pessoa do Espírito Santo pelo crente acontece no momento da sua conversão (cf. 1Co 12.13; Ef 1.13, 14). O ato de receber o Espírito Santo não está condicionado à prática da lei, mas à fé na Palavra de Deus que lhe foi pregada (cf. At 2.37, 38); e () A santificação do crente ou o seu aperfeiçoamento espiritual é obra do Espírito Santo. É uma insensatez tremenda achar que o crente pode se santificar pela obediência a princípios cerimoniais da lei. Só o Espírito pode completar a obra que Ele mesmo começou (cf. Fp 1.6; Rm 8.9).

Lutero diz que a própria experiência dos gálatas estava contra eles, a saber, eles receberam o Espírito Santo, não por meio da observância da lei, mas pela fé no evangelho. Nenhuma pessoa pode tornar-se crista sem o Espírito Santo, pois se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele (Rm 8.9). O crente é nascido do Espírito (Jo 3.5), regenerado pelo Espírito (Tt 3.5), selado pelo Espírito (Ef 1.13, 14), habitado pelo Espírito (1Co 3.17) e batizado no corpo de Cristo pelo Espírito (1Co 12.13). Deve andar no Espírito (5.16) e ser cheio do Espírito (Ef 5.18).[14]

3º) Experiência – Eles sofreram por causa da fé em Jesus Cristo (v.4). Os crentes da Galácia sofreram no começo da vida cristã nas mãos dos pagãos e também nas mãos dos judeus radicais (cf. At 13.45, 50; 14.2-6, 19-22). Sofrer por causa da justiça é bem-aventurança. Porém, se eles estavam afastando-se do evangelho que no começo abraçaram, esse sofrimento havia sido em vão. Quando sofremos pelo evangelho, devemos alegrar-nos. Isso porque a nossa leve e momentânea tribulação produzirá para nós eterno peso de glória (2Co 4.14-16). Os sofrimentos do tempo presente não se comparam às glórias a serem reveladas em nós (Rm 8.18).[15] Por isso Paulo pergunta: Será que as coisas pelas quais vocês passaram não serviram para nada? Não é possível! (v.4 NTLH).

4ª) Experiência – Eles receberam as intervenções milagrosas de Deus (v.5). O evangelho chegou aos crentes da Galácia com manifestação de poder e prodígios (At 14.3). Mesmo diante das provas mais amargas, os discípulos transbordavam de alegria e do Espírito Santo (At 13.52). Tanto a dádiva do Espírito como a operação de milagres chegaram à igreja da Galácia pela pregação da fé, e não pelas obras da lei. O Pai continua a suprir o Espírito em poder e em bênção, e isso é feito pela fé, não pelas obras da lei. Esses milagres incluem transformações extraordinárias na vida dos crentes, bem como maravilhas no meio da igreja.[16]

O Espírito Santo opera quando os cristãos não confiam nas próprias obras, mas antes, consciente e continuamente, descansam só em Cristo para serem aceitos e alcançar a plenitude. Paulo vincula o Espírito e o Evangelho nos termos mais inseparáveis. O Espírito opera à medida que você aplica e usa o evangelho.[17] A maneira como o Espírito Santo entra deveria ser a mesma como ele avança em nossa vida – pela graça, mediante a fé. (v.5; Ef 2.8)

Três lições e aplicações: 1ª) Ter fé no evangelho não é simplesmente concordar com as afirmações sobre o Cristo crucificado, mas parar de tentar obter a salvação por outro meio, no caso aqui – a observância da lei; 2ª) O Espírito Santo não opera separado do evangelho. O evangelho é o canal e a forma do poder do Espírito operar na vida do cristão; e 3ª) O caminho para o progresso como cristão é o arrependimento constante e a erradicação do sistema baseado na justiça pelas obras.




[1] MacArthur, John. Gálatas – A maravilhosa Graça de Deus, Editora Cultura Cristã, 2011, p. 33.
[2] MacArthur, p. 34.
[3] Lopes, Hernandes Dias. Gálatas – A carta da Liberdade Cristã, Editora Hagnos, 2011, p. 129, 130.
[4] Keller, Timothy. Gálatas para você, Vida Nova, 2015, p. 67.
[5] Lopes, p. 130.
[6] MacArthur, p. 34.
[7] Lopes, p. 131.
[8] MacArthur, p. 34.
[9] Lopes, p. 131.
[10] Lopes, p. 131.
[11] Casimiro, Arival Dias. Estudos Bíblicos Gálatas & Tiago – Liberdade, Fé e Prática, Z3 Editora, 2011, p. 12-16. Esse ponto segue literalmente o comentário da 3ª lição nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[12] Keller, p. 68.
[13] Lopes, p. 132, 133.
[14] Lopes, p. 133, 134.
[15] Lopes, p. 135.
[16] Lopes, p. 135, 136.
[17] Keller, p. 71.

domingo, 3 de abril de 2016

Estudos Bíblico na Carta aos Gálatas (5) - Vivendo conforme a verdade do Evangelho

Gálatas 2.11-21

No estudo anterior em Gálatas 2.1-10 com o tema: Somente um evangelho. Estudamos o tema em três pontos: 1º) Somente um evangelho apostólicovv.1-3; 2º) Somente um evangelho para a salvaçãovv.4-8; 3º) Somente um evangelho da comunhãovv.9, 10. Terminamos refletindo nas palavras de Paulo aos Efésios 4.1-6.

Hoje, vamos estudar Gálatas 2.11-21.

Hernandes Dias Lopes diz que essa é uma das passagens mais constrangedoras da Bíblia e uma das mais polêmicas dessa carta.[1] John MacArthur afirma que essa é uma descrição dos dias mais sombrios na história do evangelho.[2]

É verdade que tinha surgido uma séria crise. Mas Deus não havia abandonado a sua igreja. A Paulo tinham sido reveladas as totais implicações do evangelho; para ele, a liberdade dos gentios era uma questão de princípios, e quando um princípio estava em jogo, ele nunca se calava. Na verdade, Pedro e Paulo não estavam tendo uma discordância doutrinária, o que estava acontecendo era que a conduta de Pedro era discordante dos seus princípios, como Paulo mostra nessa passagem.[3]

Paulo evidencia que o evangelho é maior do que o apóstolo, e demonstra que a verdade está acima da personalidade. Obviamente o foco dessa passagem não é destacar uma disputa das vaidades pessoais. Não se trata de um jogo de interesse pessoal. O que está em jogo nesse texto não é uma luta pessoal por prestígio, mas a defesa da verdade, a integridade e a credibilidade do próprio evangelho da graça.[4]

O nosso tema de hoje é: Vivendo conforme a verdade do Evangelho1º) Sem hipocrisia e sem medovv.11-14; 2º) Justificado pela fé em Cristovv.15-19; 3º) Sem anular a graça de Deusvv.20, 21.

I. Vivendo conforme a verdade do Evangelho – Sem hipocrisia e sem medo – vv.11-14

Esta é a terceira ocasião na qual Paulo entrou em contato com Pedro.
A primeira vez ele simplesmente ficou conhecendo Pedro; na outra ele descobriu
a unidade e igualdade que havia entre eles; desta vez ele foi levado a discordar
dele e a repreendê-lo.[5]

Antioquia é a terceira maior cidade do Império Romano e o lugar onde primeiramente os discípulos de Cristo foram chamados cristãos (cf. At 11.26). Nessa grande metrópole do mundo antigo florescia uma igreja multirracial e multicultural, como uma das provas mais eloquentes da unidade gerada pelo evangelho. Nessa cidade o evangelho prosperou e a partir daí alcançou o mundo.[6]

Pedro vai a essa cidade e à essa igreja – primeira igreja gentílica, e nessa visita tropeça em seu testemunho, tornando-se inconsistente, como diz Paulo: porque era repreensível (v.11). Em outras versões: (ARA) se tornara repreensível; (NVI) por sua atitude condenável; (NTLH) porque ele estava completamente errado; (VIVA) porque estava muito errado.

Mas, em que Pedro estava errado? Paulo explica a situação de maneira simples. Pedro mudara seus hábitos alimentares: ele comia com os gentios; mas, depois... se foi retirando, e se apartou deles (v.12). Para os cristãos do primeiro século, muito mais surpreendente do que Pedro parar de comer com os gentios seria o fato de ter começado a comer com eles.[7]

[8]William Hendriksen é da opinião que Paulo se referia à refeição de comunhão (festa da ágape) da igreja primitiva, ao final da qual a Ceia do Senhor era celebrada (cf. 1Co 11.17-34). Essa refeição era uma demonstração do amor fraternal, especialmente quando os mais abastados repartiam com os crentes pobres, pelo menos uma vez por semana, uma refeição mais substanciosa. William Barclay informa que, para muitos crentes oriundos do escravagismo, essa era a única refeição decente da semana. No entanto, não tardou para que o propósito dessas refeições se desviasse. Em Corinto, por exemplo, houve uma segregação social, quando os irmãos ricos se apartaram dos irmãos pobres (cf. 1Co 11.17-22), enquanto em Antioquia houve uma segregação racial, quando os cristãos judeus se apartaram dos cristãos gentios (2.12).

Pedro tinha plena convicção de que os gentios convertidos faziam parte da igreja de Cristo. Ele aprendeu sobre a universalidade do evangelho com o próprio Jesus (cf. Jo 3.16; 4.42; 10.16; 12.32; 17.19, 20). Depois do Pentecostes, ele mesmo abriu a porta do evangelho aos gentios, indo à casa de Cornélio, um gentio piedoso, por orientação do Espírito, para pregar-lhes o evangelho e recebê-los à comunhão da igreja pelo batismo (At 10.9-16, 28). O próprio Pedro defendeu sua conduta diante da igreja de Jerusalém, mostrando que a porta do evangelho estava aberta aos gentios tanto quanto aos judeus (At 11.1-18). De forma consistente ao evangelho e de acordo com suas próprias convicções e prática, ao chegar em Antioquia, Pedro uniu-se aos gentios, comendo com eles e, tendo comunhão irrestrita com eles, como irmãos em Cristo.

A teologia de Pedro continuava intacta, crendo ele que os gentios faziam parte da igreja, mas sua atitude estava em desacordo com sua teologia. Havia uma esquizofrenia entre sua doutrina e sua conduta; entre sua fé e sua prática. Pedro cavou um abismo entre sua convicção e sua ação. Pedro, temendo desagradar um grupo de judeus radicais, conhecidos como os da circuncisão (cf. At 15.1, 5), a quem Paulo chamou de falsos irmãos, acabou ferindo a comunhão fraternal e afastando-se dos crentes gentios. Por causa dos falsos irmãos, Pedro virou as costas para os verdadeiros irmãos.

Jonh Stott diz: Não que Pedro negasse o evangelho em sua doutrina, pois Paulo se esmera em demonstrar que ele e os apóstolos de Jerusalém estavam unidos quanto ao evangelho (2.1-10), e ele repete este fato nos vv.15, 16. A ofensa de Pedro contra o evangelho foi na sua conduta.

A atitude de Pedro e dos demais judeus é chamada por Paulo de dissimulação (v.13). O termo grego sunupekrithesan significa hipocrisia. Fritz Rienecker e Cleon Rogers explicam que o significado básico da palavra é responder de baixo, em referência aos atores que falavam por detrás de máscaras. A palavra indica o ocultamento do caráter sob pretensos sentimentos. Um indivíduo hipócrita é aquele que age como um ator, representando um papel diferente da sua vida real. Segundo Donald Guthrie, a palavra grega usada aqui é a mesma para os atores que escondiam suas verdadeiras personalidades por trás dos papéis desempenhados. A implicação é que nem Pedro nem os demais judeus estavam agindo sinceramente quando se apartaram. Agiram, na realidade, contra a própria consciência e deram uma impressão totalmente falsa.

Pedro, por ser um líder, acabou por exercer uma péssima influência sobre os demais judeus, inclusive sobre o próprio Barnabé (v.13). Um líder nunca é neutro. Liderança é sobretudo influência. Um líder influencia sempre, para o bem ou para o mal. Pedro, em vez de trabalhar em prol da unidade e da edificação da igreja, laborou para a sua divisão e enfraquecimento.

Precisamos estar atentos para o fato de que, se a vida do líder é a vida da sua liderança, os pecados do líder são os mestres do pecado. Os pecados do líder são mais graves, mais hipócritas e mais danosos do que o pecado das demais pessoas. São mais graves porque o líder peca com maior conhecimento; são mais hipócritas porque o líder condena o pecado dos outros, mas pratica os mesmos pecados que condena; são mais danosos porque, quando o líder tropeça, mais pessoas são influenciadas por seu fracasso.

Paulo agiu de forma firme em defesa da verdade do evangelho (v.14). O que estava em jogo não era uma disputa pessoal de honra ao mérito, mas a integridade do evangelho da graça. Com sua atitude firme e leal, Paulo não perdeu a amizade de Pedro e ainda salvou a integridade do evangelho.

A verdade do evangelho foi o eixo central da discussão tanto em Jerusalém (2.5) como em Antioquia (2.14). E que verdade era essa tão importante pela qual Paulo lutou? O contexto nos mostra que é a doutrina da justificação pela graça, por intermédio da fé (2.15-17). Distorcer essa verdade do evangelho é colocar-se sob maldição (1.8, 9).

Esse episódio nos ensina três lições: 1ª) Líderes importantes podem cometer grandes deslizes; 2ª) Manter a verdade na igreja é mais importante do que manter a paz; e 3ª) Problemas entre irmãos devem ser tratados de forma direta e pessoal.[9]

Hernandes Dias diz que o texto nos alerta para algumas atitudes preventivas, que devem estar presentes na vida da igreja: Em primeiro lugar, doutrina e prática precisam caminhar de mãos dadas; em segundo lugar, comunhão e repreensão não são excludentes, mas complementares; em terceiro lugar, o confronto honesto é melhor do que a lisonja hipócrita; e em quarto lugar, autoridade e humildade não são coisas incompatíveis.

II. Vivendo conforme a verdade do Evangelho Justificado pela fé em Cristo vv.15-19

Paulo enxergou o princípio por traz da atitude hipócrita de Pedro. E, ao lhe falar a esse respeito, aponta para o princípio, em vez de se limitar a querer alterar seu comportamento. O raciocínio básico de Paulo é: Deus não estabeleceu comunhão com você com base em sua etnia e cultura (v.15). Por melhor e mais devoto que você fosse, sua etnia e seus costumes não tiveram nada a ver com isso (v.16).[10]

Warren Wiersbe diz que esta é a primeira vez que o termo justificação aparece na epístola (v.16) e, provavelmente, nos textos de Paulo, uma vez que Gálatas deve ter sido a primeira carta escrita de Paulo. A grande pergunta é: Como pode o homem ser justo para com Deus? (Jó 9.2). A resposta é clara: “O justo viverá pela sua fé” (Hc 2.4). Este conceito é tão vital que três livros do Novo Testamento o explicam para nós: Romanos (1.17), Gálatas (3.11) e Hebreus (10.38). Romanos explica o significado de “o justo”; Gálatas explica “viverá”; e Hebreus explica “pela fé”.[11]

John Stott tem razão ao dizer que a doutrina da justificação pela fé é central na mensagem da epístola, fundamental no evangelho pregado por Paulo e realmente essencial no próprio cristianismo. Martinho Lutero referiu-se à doutrina da justificação como o principal, o mais importante, e o mais especial artigo da doutrina cristã.[12]

Justificação que dizer que, em Cristo, apesar de na verdade sermos pecadores, não estamos debaixo de condenação. Deus nos aceita apesar do nosso pecado. Não somos aceitáveis a ele porque nos tornamos justos de fato – tornamo-nos justos de fato por que somos aceitáveis a Deus.[13]

Agora, Paulo deixa claro que, se uma pessoa depois de ter recebido a salvação pela graça mediante a fé em Cristo, voltar a traz e começar a praticar as obras da lei para sua salvação, ela nunca entendeu de fato o evangelho e estava só procurando uma desculpa para viver em desobediência a Deus (vv.17, 18).

Portanto, se somos justificados pela fé no que Cristo fez, não somos justificados pelo que fazemos. A observância da lei não é o que salva (v.16). Foi ao que Paulo se referiu quando disse: Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus (v.19).[14]

III. Vivendo conforme a verdade do Evangelho Sem anular a graça de Deus vv.19-21

Em vez de viver no pecado e para o pecado, uma pessoa justificada vive para Deus. A justificação abre ao homem o caminho da intimidade com Deus. Essa vida para Deus é marcada por quatro realidades.[15]

1º) O crente vive para Deus morrendo para leiv.19. João Calvino diz que essa morte não é o fim de tudo, e sim a origem de uma vida melhor, porque Deus nos resgata do naufrágio da lei e, mediante sua graça, nos restaura para outra vida.

2º) O crente vive para Deus sendo crucificado com Cristov.20a. Estar crucificado com Cristo arranca do isolamento toda a nossa existência espiritual com todas as suas circunstâncias, como podemos encontrar repetidamente em Paulo: sofrer com, morrer com, ser crucificado com, ser sepultado com, ser ressuscitado com, tornar-se vivo com, ser glorificado com, ser coerdeiro com e reinar com. Essa crucificação com Deus encontra-se sob a marca da comunhão.

3º) O crente vive para Deus quando Cristo vive nelev.20b. Somos salvos pela fé em Cristo (ele morreu por nós) e vivemos pela fé em Cristo (ele vive em nós).

João Calvino diz que Cristo vive em nós de duas maneiras: uma consiste em governar-nos por meio de seu Espírito e dirigir todas as nossas ações; a outra, em tornar-nos participantes de sua justiça, de modo que, embora nada possamos fazer por nós mesmos, somos aceitos aos olhos de Deus.

4º) O crente vive para Deus confiando na graçav.21.

John Stott diz que os dois alicerces da religião cristã são a graça de Deus e a morte de Cristo. O evangelho cristão é o evangelho da graça de Deus. A fé cristã é a fé do Cristo crucificado. Assim, se alguém insiste que a justificação é pelas obras e que se pode alcançar a salvação por esforço próprio, está solapando os fundamentos da religião cristã. Está anulando a graça de Deus e tornando supérflua a morte de Cristo.

Joao Calvino diz que se a morte de Cristo é a nossa redenção, então, éramos cativos; se ela é o pagamento, então, éramos devedores; se é a expiação, então, éramos culpados; se é a purificação, então, éramos imundos. No sentido contrário, aquele que atribui às obras a sua purificação, o seu perdão, a sua expiação, a sua justiça ou o seu livramento, torna inútil a morte de Cristo.

Concluindo

A graça diz: “Não há distinção! Todos são pecadores, e todos podem ser salvos pela fé em Cristo”. A lei diz: “Há distinção. A graça de Deus não é suficiente; também precisamos da lei”. O argumento de Paulo é que a volta à lei anula a cruz. Enquanto a lei diz: “Faça!”, a graça diz: “Já foi feito!”




[1] Lopes, Hernandes Dias. Gálatas – A carta da Liberdade Cristã, Editora Hagnos, 2011, p. 94.
[2] MacArthur, John. Bíblia de Estudo MacArthur, SBB, 2010, p. 1588.
[3] Carson, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, SP, 2009, p. 1823.
[4] Lopes, p. 97.
[5] Comentário Bíblico Moody, Gálatas, p. 16.
[6] Lopes, p. 97.
[7] Keller, Timothy. Gálatas para você, Vida Nova, 2015, p. 53.
[8] Lopes, p.94-110. Este comentário segue literalmente a exposição do livro, nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[9] Casimiro, Arival Dias. Estudos Bíblicos Gálatas & Tiago – Liberdade, Fé e Prática, Z3 Editora, 2011, p. 10.
[10] Keller, p. 58.
[11] Lopes, p. 114.
[12] Lopes, p. 114.
[13] Keller, p. 62.
[14] Keller, p. 62.
[15] Lopes, p. 124-127. Este comentário segue literalmente a exposição do livro, nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.