domingo, 19 de janeiro de 2014

Introdução ao Estudo dos Dez Mandamentos

Êxodo 20.1-21
A Lei de Deus no Pentateuco é composta da Lei Moral (Êx 20.1-17; Dt 5), da Lei Cerimonial (Êx 20.22-26; Levíticos) e da Lei Civil (Êx 21.1-23.9). Não são três Leis, mas uma Lei em três partes. É também chamada de Lei de Moisés, Lei de Deus, Decálogo, a Lei e os Dez Mandamentos. “Para o nosso estudo focaremos apenas na Lei Moral, pois entendemos a luz das Escrituras, que as Leis cerimonias se cumpriram em Cristo e que as Leis civis tinha sua aplicabilidade destinada somente à nação teocrática de Israel”[1].

Os Dez Mandamentos registrados em Êxodo 20.1-17, “revelam um padrão divino de perfeição espiritual e moral”[2]. A Confissão de Fé de Westminster, Capítulo XIX, Seção V, afirma: A lei moral obriga para sempre a todos a prestar-lhe obediência, tanto as pessoas justificadas como as outras, e isto não somente quanto à matéria nela contida, mas também pelo respeito à autoridade de Deus, o Criador, que a deu. Cristo, no Evangelho, não desfaz de modo algum esta obrigação, antes a confirma.

Segundo Gaspar de Sousa, “é um axioma, isto é, uma premissa considerada necessariamente evidente e verdadeira, que toda a moralidade é fundamentada na religião, principalmente cristã. A moral é fundamentada num sistema teológico, pois deriva de um Legislador Absoluto. Não sendo assim, tem-se a relativização da moral, fazendo com que certo e errado sejam conceitos particulares, pessoais ou de uma cultura em particular. Isto implica que a moral é necessária, pois senão se instalará a desordem”[3].

Antes de começarmos nosso estudo de cada mandamento do Decálogo, “precisamos entender como o cristão deve se relacionar com a Lei e em que contexto os dez mandamentos foram dados”[4].

Assim, ao estudarmos os Dez Mandamentos, precisamos também, compreender os seus propósitos para ter uma vida cristã equilibrada, pois dois erros sempre ameaçaram a relação do cristão com a lei: o legalismo e o antinomismo. No primeiro, há um apego a lei em detrimento da graça. Esse erro permeou a “teologia” dos fariseus, os quais eram apegados às minúcias das regras, acrescidas das tradições. Jesus condenou veementemente esse comportamento (Mt 23). O segundo erro, o antinomismo, consiste em viver como se não devêssemos obedecer a nenhuma lei. Tanto Pedro quanto Judas combateram o antinomismo dos seus dias através das suas epístolas (Jd 4-19; 2Pe 2).[5]

Nós, cristãos de linha reformada, entendemos que a Lei é corretamente compreendida quando identificamos corretamente os seus propósitos, que podem ser classificados em três: apontar para Cristo, refrear o mal e ser instrumento de santificação.[6]

1º) Apontar para CristoA lei tem como principal função apontar para Cristo. Ela exerce essa função ao apresentar para nós princípios morais perfeitos que o homem, enquanto pecador, não consegue cumprir na sua totalidade, conduzindo necessariamente a olharmos para Cristo como o cumpridor destes preceitos. Nesse sentido, Cristo é o fim da Lei, pois ele cumpriu toda a Lei tornando-nos aptos a entrar no céu mediante os méritos conquistado por Ele – Gl 3.24, 25; Rm 3.19, 20; 10.4.

2º) Refrear o malEste segundo uso da Lei, também chamado de “uso de contenção”, consiste na atuação da Lei refreando o pecado no mundo e promovendo a justiça. A Lei atua inspirando a formação de leis gerais que valorizam a vida e puna o mal, além de influenciar internamente cada ser humano, através da consciência (Rm 2.15), levando-o a valorizar o que é certo e repudiar o erro. É importante ressaltar que a graça geral de Deus age no mundo inclusive sobre o ímpio preservando este mundo, tornando um lugar habitável.

3º) Ser instrumento de santificação – O terceiro uso da Lei consiste em ser um instrumento de santificação, pois uma vez que ela revela qual é a vontade de Deus para o homem, nada melhor que, uma vez salvos, retornemos o nosso olhar para a Lei Moral com intuito de compreender como Deus deseja que o seu povo viva. É importante frisar que somos salvos pela graça e não pelo cumprimento da Lei – Ef 2.8-10; Rm 6.1, 2; Ef 5.8; 1Jo 3.4-6.[7]

Martinho Lutero dizia que “qualquer pessoa que conhece os Dez Mandamentos conhece perfeitamente as Escrituras”. Por eles aprendemos quem é Deus, o que ele exige de nós e, também, quem somos.[8]

Os Dez Mandamentos foram dados por Deus ao povo de Israel em um momento crucial da história da nação. Após mais de 400 anos vivendo como escravos no Egito, o povo de Israel foi libertado por Deus através de uma série de intervenções sobrenaturais – as dez pragas sobre o Egito e a abertura do Mar Vermelho. Este fato é tão importante que Deus fez questão de ressaltar antes de promulgar os dez mandamentos, a fim de ressaltar a autoridade de quem dava as leis – Êx 20.1.

Com isso em mente, podemos fazer algumas considerações introdutórias aos Dez Mandamentos no texto de Êxodo 20.1-17:

1. Que Deus é pessoal e libertadorv.2 – A passagem apresenta um Deus pessoal e libertador. O Deus que nos livra deseja interagir conosco de tal modo que o consideremos como nosso. Os Mandamentos têm a ver com liberdade, felicidade e amor. A motivação divina por detrás de cada mandamento é o amor.[9]

2. Sobre amor, dever, liberdade e proibições – Nos Dez Mandamentos há deveres para com Deus (vv.3-11) e para com os homens (vv.12-17). Isso nos ensina que não podemos ser livres sem assumir responsabilidades e que não há contradição entre amor e dever, pelo contrario, deveres são assumidos por quem ama. Liberdade é a capacidade de dizer não ao mal e de obedecer de coração ao Deus que nos ama. Sendo assim, não nos envergonhamos de falar que não fazemos certas coisas porque o Senhor não permite. Ao dizermos não àquilo que é errado, dizemos sim a Deus.[10] (Jo 8.34; Sl 1.1)

3. Sobre verdade absoluta e vida organizada – Os Mandamentos demonstram que há coisas que agradam a Deus e nos fazem livres e outras que o desagradam e nos tornam cada vez mais escravizados. Isso indica que existe o certo e o errado, o verdadeiro e o falso. E, o modo com o os Dez Mandamentos são estruturados nos ajudam a organizar nossa vida em torno daquilo que é verdadeiramente importante: Deus é o próximo. A felicidade consiste em alinhar-se à verdade tal qual é descrita por Deus.[11] (Sl 19.9; Mt 22.34-40; Mc 12.28-31)

4. Sobre pilares permanentes – Por expressarem a moralidade de Deus, os Mandamentos têm valor permanente. Eles são pilares existências válidos para os crentes de todos os tempos.[12] (Mt 5.18)

Concluindo – Vimos hoje que:

ð O cristão precisa se relacionar de modo correto com a Lei de Deus, sem cair nos extremos do legalismo ou do antinomismo;

ð O cristão precisa entender quais as funções da Lei, que consiste em apontar para Cristo, refrear o mal no mundo e ser instrumento de santificação;

ð O cristão observa a Lei não para ser salvo, mas porque ele já foi salvo e, portanto, é dever dele buscar conhecer cada vez mais como viver de modo a agradar a Deus;

ð Os Dez Mandamentos tem deveres para com Deus e para com os homens;

ð A felicidade consiste em alinhar-se à verdade tal qual é descrita por Deus; e

ð Os Dez Mandamentos são pilares existenciais, válidos para nós hoje.

Será que em nossa profissão de fé diante da Igreja e em nosso testemunho de vida diariamente estamos resolvidos a seguir os preceitos da Lei de Deus, deixando de fazer o que Ele nos proíbe em sua Palavra, e fazendo toda a sua vontade auxiliados por sua graça?
Pr. Walter Almeida Jr.
CBL Limeira – 19/01/14




[1] Dias, Thiago de S. Uma análise introdutória dos dez mandamentos como referencias de santidade, p. 1.
[2] Nascimento, Misael Batista do. Os primeiros passos do discípulo, Editora Cultura Cristã, 2011, p. 9.
[3] http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=208.
[4] Dias, p. 1.
[5] Ibid., p. 2.
[6] Ibid., p. 2.
[7] Ibid., p. 3.
[8] Nascimento, p. 9.
[9] Ibid., p. 10.
[10] Ibid., p. 10.
[11] Ibid., p. 10.
[12] Ibid., p. 11.

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