domingo, 13 de setembro de 2015

Estudos Bíblicos na Carta aos Hebreus (5) - Uma compreensão correta do Sumo Sacerdócio de Jesus Cristo

Hebreus 5

Em nosso estudo anterior sobre O perigo da apostasia e o repouso (descanso) prometido, vimos:

ð Que o autor reconhece que os seus leitores originais são crentes verdadeiros;
ð Que privilégio de ser chamado por Deus, pelo seu Evangelho, traz consigo responsabilidades: considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão. (v.1d)
ð Que a apostasia começa no coração, ou seja, nos afetos e pensamentos, no interior da pessoa; e apostatar é não ficar firme em Cristo e seu evangelho até o final (vv.6, 14). É afastar-se do Deus vivo (v.12). Como resultado, a pessoa não é mais reconhecida como pertencendo a Cristo e deixa de entrar no descanso prometido a todos que lhe pertencem (v.6b, 14; 4.1).
ð Que se evita a apostasia primeiramente pelo reconhecimento de que nenhuma pessoa que professa ser crente entrará no céu se não perseverar na fé até o fim.
ð Que é necessário crer nas boas novas para desfrutar da promessa de entrar no descanso de Deus, pois o que levou muitos dos israelitas a não desfrutarem da terra prometida foi não crer na Palavra Deus.
ð Terminamos com três lições sobre o repouso (descanso) prometido: 1ª) Para entrar no repouso prometido por Deus é preciso crer na Palavra de Deus – vv.3-11. 2ª) A Palavra de Deus é que fortalece a nossa fé para permanecermos no repouso de Deus – vv.12-13. 3ª) O repouso de Deus é garantido para aqueles que tem o grande sumo sacerdote, Jesus Cristo, o Filho de Deus, como seu Salvador e Senhor – vv.14-16.

Hoje, vamos estudar Hebreus 5 com o tema: Uma compreensão correta do Sumo Sacerdócio de Jesus Cristo. Faremos isso em dois pontos: 1º) Qualificações do Sumo Sacerdócio de Jesus Cristo – vv.1-10; e 2º) Uma advertência sobre a caminhada da fé com o Sumo Sacerdote – vv.11-14.

O ministério de Cristo como sumo sacerdote é o tema mais proeminente na Carta aos Hebreus e certamente teve um impacto profundo sobre os seus primeiros leitores. No judaísmo, o sumo sacerdócio era o ofício religioso mais importante de todos[1], pois ele tinha como tarefa representar o homem perante Deus[2].

I. Qualificações do Sumo Sacerdócio de Jesus Cristo – vv.1-10

Antes um esclarecimento: a diferença entre o sacerdote e o sumo sacerdote era de liderança, pois o sumo sacerdote era o líder dos sacerdotes. Essa liderança estava associada à sua idade, pois o mais velho entre eles exercia esse ofício que era de regime vitalício e começou com o chamado de Arão. Assim, o sumo sacerdote era substituído após a sua morte pelo seu parente mais próximo e mais velho, o seu primogênito (Cf. Êx 28, 29; Lv 8-10).

O autor começa sua argumentação apresentando as quatro qualificações para um homem ser um sumo sacerdote dentre os homens nos vv.1, 2: 1ª) Ser um homem escolhido e nomeado diretamente por Deusv.1a (cf. Êx 28.29; Lv 8-10; Nm 16.18); 2ª) Estar apto a representar o seu povo perante Deusv.1b; 3ª) Ser capaz de condoer-se dos pecadoresv.2; 4ª) Reconhecer sua condição de pecador diante de Deus e dos homens que representav.3. “O fato de ser humano e pecador faz do sumo sacerdote uma pessoa uma pessoa solidaria e misericordiosa com as pessoas que ele representa”.[3] Era uma honra dada por Deus ser chamado para o sacerdócio – v.4.

Agora, nos vv.5-10, o autor explica a relação entre o sacerdócio de Arão e o de Cristo, apresentando o de Cristo como superior. Ele apresenta cinco argumentos para o sumo sacerdócio de Jesus Cristo ser superior: 1º) Jesus Cristo é o Filho de Deus que se fez homemv.5 (cf. Sl 110; Gl 4.4, 5); 2º) Jesus Cristo foi escolhido diretamente por Deus na eternidadev.6, 10; 3º) Jesus Cristo recebeu um sacerdócio eternov.6b (cf. Gn 14.18; Sl 110.1, 4; Zc 6.13); 4º) Jesus Cristo é compassivo e misericordioso com os pecadores mesmo ser ter pecado vv.7, 8; cf. 4.14-16; 5º) Jesus Cristo oferece um sacrifício perfeito que não precisa ser repetidov.9; cf. 7.22-28.

Nosso Senhor Jesus Cristo é maravilhosamente grande tanto em sua pessoa (quem ele é) quanto em sua obra (o que ele fez e está fazendo). Tudo a seu respeito, tudo ligado a ele, é vastamente grandioso, glorioso e impressionante.
Stuart Olyott[4]

II. Uma advertência sobre a caminhada da fé com o Sumo Sacerdote – vv.11-14

Continuando, o autor, que não poupou palavras ao falar da apostasia e insistiu que aqueles irmãos, judeus convertidos, se expusessem à Palavra de Deus e continuassem olhando para o Senhor Jesus Cristo, buscando-o como sumo sacerdote, agora faz uma séria advertência sobre a caminhada de fé daqueles irmãos, ou seja, ele os exorta sobre a situação do crescimento espiritual deles.

Para ele os irmãos não haviam crescido espiritualmente, estavam ainda nos primeiros passos da vida cristã, quando já deveriam serem até mestres pelo tempo de convertidos, e isso por pura indolência com a Palavra de Deus (v.12). Assim, ele, apresenta as causas da imaturidade daqueles irmãos:

1ª) Negligência em relação à Palavra de Deus – v.11 – Aqueles irmãos não estavam compreendendo que, o que o Senhor Jesus fez por eles era superior a qualquer outra coisa, simplesmente, pelo fato deles estarem sendo lentos em aprenderem a Palavra de Deus. Essa negligência foi gerada pelo fato estarem dando mais importância à sua antiga maneira de viver do que à nova vida em Cristo Jesus. (Hb 6.12; 2Co 5.17; Tg 1.25; 1Tm 4.13-16)

2ª) A pouca importância dada à prática vida cristã – v.12 – Os irmãos, pelo tempo de vida cristã, já deveriam ser mestres da vida cristã e estarem aptos para ensinarem os mais novos na fé, mas por conta do descaso com os princípios da nova vida, estavam com a necessidade de que alguém os ensinassem, de novo, quais são os princípios elementares das Escrituras, ou seja, as coisas mais básicas da fé cristã. (Cl 2.6, 7)

3ª) A falta de interesse pelo crescimento espiritual – v.12b, 13a – Isto é demonstrado pelo autor, metaforicamente, quando diz e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento. Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino, ou seja, eles tinham um tempo de vida e de ensino cristão que, normalmente, lhes dariam condições de entenderem os ensinos bíblicos cristãos mais profundos, mas, por falta de maturidade, não conseguiam nem entender que nosso Senhor Jesus Cristo é chamado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque (v.10). (2Tm 3.14-17)

4ª) A falta de discernimento espiritual – v.14 – Por conta da negligência com a Palavra de Deus, a pouca importância dada à prática vida cristã e a falta de interesse pelo crescimento espiritual não estava sendo desenvolvido naqueles irmãos, o que seria normal pelo tempo de vida cristã que tinham, os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal. Esses cristãos estavam desprovidos de discernimento bíblico e teológico, ou seja, não tinha a capacidade de discernir entre o mal e o bem por falta do conhecimento, da sabedoria, da obediência e da prática da Palavra de Deus. (1Co 2.14; Jd v.22; Cl 2.8, 18-23)

Concluindo

Esses últimos quatro versículos do capítulo 5 são muito importantes para nós porque destacam a importância de perseverar, de continuar firmes e nos mostram como saber quando estamos fazendo isso. Nos mostram, também, como medir se estamos progredindo espiritualmente ou não.[5]

Que o Senhor nos ajude a combater o bom combate, acabar a carreira e guardar a fé!

Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira 10/09/15




[1] Olyott, Stuart. A Carta aos Hebreus bem explicadinha, Editora Cultura Cristã, 2012, p. 43.
[2] Ibid., p. 44.
[3] Casimiro, Arival Dias. Revista Exposição Bíblica – Estudos Expositivos na Carta aos Hebreus, Z3 Editora, 2013, 6ª Lição, p. 28.
[4] Olyott, p. 46.
[5] Olyott, p. 48.

domingo, 6 de setembro de 2015

Estudos Bíblicos na Carta aos Hebreus (4 - continuação) - O perigo da apostasia e o descanso prometido

continuação...
II. O repouso (descanso) prometido – 4.1-16

Continuando a exortação sobre a possibilidade da apostasia aos seus leitores originais, o autor, chama a atenção para o fato de que, embora deixada a promessa de entrar no seu repouso, pareça que algum de vós fica para trás. (v.1) Ele quer dizer, também, creio: cuidado pois a promessa de Deus não vai cair por terra se você nunca creu ou se deixou de crer nela.

Ele insiste em que é necessário crer nas boas novas para desfrutar da promessa de entrar no descanso de Deus, pois o que levou muitos dos israelitas a não desfrutarem da terra prometida foi não crer na Palavra Deus – v.2 (Rm 10.17).

Aprendemos três lições aqui no v.2: 1ª) A Palavra de Deus é pregada para que nos beneficiemos dela (2Tm 3.16, 17; 1Ts 2.13; 1Pe 1.23); 2ª) Muitos dos que ouvem a Palavra de Deus não aproveitam o que ouvem (Tg 1.22; Mt 7.24-27; 2Tm 3.1-9); 3ª) A incredulidade na Palavra de Deus é a causa do não aproveitamento da promessa (v.2b; Rm 11.20-24).

Nos vv.3-16 temos três lições sobre o repouso (descanso) prometido:

1ª) Para entrar no repouso prometido por Deus é preciso crer na Palavra de Deus – vv.3-11.

Na Palavra de Deus temos o que chamamos de “tipos, ou seja, modelos ou figuras das realidades espirituais. Um tipo representa uma realidade espiritual, mas não é essa realidade”[1]. O autor para falar do repouso eterno – o céu, na presença de Deus, que gozarão aqueles que se convertem a Cristo, usa desse artificio.

Ele usa o sétimo dia após a criação (v.4), o dia de descanso (shabbat) (v.4), a terra prometida – Canãa (v.6-9), a paz de Deus no coração e na consciência que todo crente experimenta quando se converte a Cristo (v.3a; Rm 5.1; Fp 4.7; Cl 3.15), para falar do céu – o repouso seguro daqueles que são salvos por Jesus (vv.9-11; 1Pe 5.10; Ap 14.12, 13).

Esse é o repouso que Deus dá, por isso é chamado de meu repouso no Sl 95.11, usado pelo autor aqui. “Para os cristãos, o repouso de Deus inclui a sua paz, a certeza da salvação, a confiança no seu poder e a garantia de um lar celestial no futuro”[2] (cf. Mt 11.28-30).

Creio que “é hora de pensarmos mais no céu. Às vezes conseguimos vislumbres da Cidade Celestial enquanto caminhamos em nossa jornada até lá. Ainda não chegamos lá. Mas se continuarmos andando, se continuarmos em frente, chegaremos lá! Nada nos deixará de fora exceto a descrença, isto é, a resistência à Palavra de Deus que pode nos levar a desistir de Cristo em algum momento”[3] (v.11).

2ª) A Palavra de Deus é que fortalece a nossa fé para permanecermos no repouso de Deus – vv.12-13.

Para o autor é necessário ao cristão expor-se à Palavra de Deus, pois ela mostra como realmente somos em nosso interior mais profundo. Ela trata de nossos pensamentos e até mesmo de nossas intenções – v.12, 13. Temos aqui cinco qualidades da Palavra: 1ª) Ela é divina – sua origem é o próprio Deus; 2ª) Ela é fonte de vidapossui vida em si mesma e produz vida onde é lida, pregada e ensinada; 3ª) Ela é eficazprodutiva e eficiente naquilo a que se propõe; 4ª) Ela é penetrante e cortante – nada resiste ao seu poder de penetração, pois consegue atingir o mais profundo do ser humano. Até aquilo que parece ser inseparável, coisas parecidas e aparentemente confusas – alma e espirito, juntas e medulas; 5ª) Ela é discernente e reveladora – tem o poder de chegar nos aspectos mais profundos e íntimos da personalidade humana e distinguir e julgar seus pensamentos e convicções mais secretos. Ela expõe o interior revelando ao homem tudo aquilo que está em seu coração. (cf. 1Co 10.4, 5)

Essa é a particular Palavra de Deus que o autor de Hebreus quer que os seus leitores ouçam. O que está dito nos vv.12, 13 pode se aplicar tanto à Palavra de Deus pregada como à Palavra de Deus escrita. Por isso, quando confrontados pela Palavra de Deus somos confrontados pelo próprio Deus[4], porque não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas.

3ª) O repouso de Deus é garantido para aqueles que tem o grande sumo sacerdote, Jesus Cristo, o Filho de Deus, como seu Salvador e Senhor – vv.14-16.

A exaltação de Jesus e sua entrada no céu são a base para o chamado à que retenhamos firmemente a nossa confissão (v.14b). A sua experiência humana o qualifica para ser compassivo e misericordioso para com aqueles que se achegam com confiança ao trono da graça (v.15, 16a).[5]

O ensino sobre o sumo sacerdócio de Jesus Cristo que começa aqui, tem como objetivo fundamental “encorajar a perseverança contra o pecado e a incredulidade. Somos encorajados a nos apegar a todos os recursos espirituais disponíveis a nós em Cristo”[6].

Aqui, também, temos três lições importantes para aprender: 1ª) Jesus, o Filho de Deus, está no céu diante de Deus como nosso sumo sacerdote v.14. Ele está lá por nós e nos levará para lá também, por isso apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos v.14c (NVI); Hb 7.24-26; Jo 14.3; 17.24; 2ª) Jesus é o nosso sumo sacerdote compassivo e misericordioso – v.15. Ele está acessível. Ele é poderoso e perfeitamente qualificado para nos ajudar, pois já esteve exatamente onde estamos, contudo, jamais se contaminou por nenhuma espécie de pecado[7]; 3ª) Jesus tornou acessível nosso acesso ao trona da graça – v.16. No seu trono há graça e força sobrenatural na hora da necessidade. Em Cristo há perdão, acolhimento, compaixão e ajuda. A misericórdia e a graça estão disponíveis para nós no Seu trono. Assim, o nosso repouso eterno está garantido pelo grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus. (v.14b)

Concluindo – Nesse estudo vimos o segredo da perseverança: “O velho caminho de amar a Bíblia e vir ao Senhor Jesus em oração. Não há necessidade de procurar segredos ou coisas espetaculares, pois isso não existe. Temos que continuar sempre vindo a Cristo por meio de sua Palavra e em oração, publicamente, em particular, como casais, como família, como irmãos. Ninguém que está próximo de Cristo pode falhar em ir ao lugar onde ele está – no céu!”[8]



[1] Olyott, p. 40.
[2] MacArthur, John. Bíblia de Estudo MacArthur, SBB, 2010, p. 1693.
[3] Olyott, p. 40.
[4] Carson, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, SP, 2009, p. 1997.
[5] Ibid., p. 1997.
[6] Ibid., p. 1998.
[7] Olyott, p. 41.
[8] Olyott, p. 42.

domingo, 30 de agosto de 2015

Estudos Bíblicos na Carta aos Hebreus (4) - O perigo da apostasia e o descanso prometido

Hebreus 3-4

Em nosso estudo anterior sobre a humanidade perfeita de Jesus Cristo, fizemos a seguinte pergunta: Por que Jesus Cristo precisou se tornar homem? Respondemos:

ð 1º) Para cumprir o mandato que Deus entregou a Adãovv.5-8; 2º) Para ser o autor da salvaçãovv.10-13; 3º) Para destruir o poder do Diabo a da mortevv.14, 15; e 4º) Para socorrer os filhos de Deusvv.16-18.

ð Terminamos afirmando que a humanidade de Jesus é uma das verdades centrais da nossa fé e do cristianismo. Sem ela, a expiação de Cristo seria ineficaz em todos os seus aspectos. O sacerdócio de Jesus seria uma farsa e a sua obra de intercessão uma mentira. Jesus Cristo homem é o fundamento da obra de mediação, 1Tm 2.5 diz: Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.

Hamilton Smith diz que “os dois primeiros capítulos nos revelam as glórias da pessoa de Cristo, preparando-nos dessa maneira para compreendermos a imensurável bênção que resulta do Seu Ministério como o grande Sumo Sacerdote.”[1]

Já temos visto que os irmãos “hebreus estavam considerando seriamente desistir de seu compromisso com o Evangelho de Cristo para voltar ao judaísmo praticado anteriormente.”[2] Essa carta é, justamente, para persuadi-los a pensar diferente. O autor já fez isso nos dois primeiros capítulos onde provou a superioridade da revelação e da pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo. Agora, ele passa a mostrar-lhes o perigo da apostasia e a bênção da perseverança.

Hoje, vamos estudar Hb 3-4 com o tema: O perigo da apostasia e o descanso prometido.

I. O Perigo da Apostasia – 3.1-19

Inicialmente o autor reconhece que os seus leitores originais são crentes verdadeiros e revela três detalhes sobre eles (v.1): 1º) Eles são irmãosv.1apessoas que integram a família de Deus (Hb 10.19); 2º) Eles são santosv.1bpessoas que foram santificadas por Cristo (Hb 2.11); 3º) Eles são participantes da vocação celestialv.1cpessoas que receberam o chamado do Evangelho e o receberam pela fé (2Tm 1.9, 10).

Esse privilégio de ser chamado por Deus, pelo seu Evangelho, traz consigo responsabilidades: considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão. (v.1d)

Stuart Olyott parafraseando essa passagem (v.1) escreve: “À luz do que acabo de dizer, considerem a Cristo Jesus. Fixem nele os seus pensamentos – poderem, estudem, meditem em Jesus.”[3] Aqueles irmãos deveriam prestar mais atenção, observar mais, fixar os olhos espirituais em Jesus Cristo. Eles deveriam olhar para Jesus de dois modos: 1º) como Apóstolo da nossa confissão – ele foi enviado por Deus para ser a revelação definitiva do seu caráter e da sua vontade (Jo 3.17; 8.42; 17.3; 1Jo 4.10); e 2º) como Sumo Sacerdote da nossa confissão – ele foi constituído por Deus como nosso intercessor diante dele, isto é, ele tornou possível um relacionamento com Deus (Hb 2.17; Rm 8.34; 1Co 12.3). Por isso, “ele é o centro e o conteúdo da nossa confissão”.[4] O objetivo desse ensino era encorajar os cansados, desafiar os preguiçosos e desobedientes e reanimar os que estão duvidando e se afastando da fé do evangelho (Fp 1.27).

Creio que, para o autor, um crente genuíno vê e segue Jesus como o Apóstolo e Sumo Sacerdote da sua confissão, por outro lado, se alguém afirma ser um crente verdadeiro e não vê Jesus dessa forma, está correndo o perigo de se tornar um apostata, ou seja, voltar para sua religião anterior, no caso o judaísmo.

Assim sendo, ele, apresenta três contrastes entre Moisés e Jesus, para mostra que Jesus é quem deve ser seguido e é ele que está diante de Deus por nós – vv.2-6: 1º) Moisés fazia parte da casa, era um membro da família, Jesus é o Criador da casav.3 (Hb 11.2, 25); 2º) Moisés era homem e Jesus é Deusv.4; 3º) Moisés foi um servo na casa de Deus, Jesus é o Filho de Deus em sua própria casav.5, 6.

Muito pouco se tem dito sobre a apostasia atualmente, talvez por que esse assunto assusta alguns crentes, ou por conta do discurso liberal de que não podemos fazer julgamentos, ou mesmo porque a apostasia tem se tornado comum no meio cristão contemporâneo e muitos não querem admitir o fato. Uma coisa é certa, sempre que o assunto é mencionado, muitos entendimentos equivocados surgem.

Para o texto que estamos estudando, apostar é não ficar firme em Cristo e seu evangelho até o final (vv.6, 14). É afastar-se do Deus vivo (v.12). Como resultado, a pessoa não é mais reconhecida como pertencendo a Cristo e deixa de entrar no descanso prometido a todos que lhe pertencem (v.6b, 14; 4.1).[5]

A apostasia começa no coração, ou seja, nos afetos e pensamentos, no interior da pessoa (v.8, 10b, 12, 15). Os passos que levam a apostasia são: 1º) O coração se torna endurecido diante da Palavra de Deus; recusa-se a acatá-la (v.8, 13, 15), porque, com toda franqueza, o pecado parece ser mais atraente (v.13b); 2º) Em seguida, vem a provocação – murmuração, insatisfação, reclamação e rebeldia (v.8, 16). Isso conduz ao pecado, ou seja, fazer aquilo que é proibido, não sem querer, mas com desejo ativo (v.7); 3º) Isso leva a incredulidade (v.12, 18). A palavra usada no grego dá a ideia de rebeldia obstinada e desobediência causada pela descrença. Quando isso acontece, o afastamento final do Senhor já ocorreu. Tudo o que resta são as admoestações da Palavra de Deus que, como nós sabemos, não são ameaças vazias (v.10, 11, 18, 19; 4.1).[6]

Arival Dias Casimiro vê no texto seis estratégias para combater a dureza de coração que leva a apostasia:[7] 1ª) Ouvir e submeter-se a autoridade das Escriturasv.7, 8, 13, 15; 1Pe 1.21; Sl 95.7, 8; 2ª) Aprender com os erros dos outrosv.7-11; Sl 95.8-11; Êx 17; 1Co 10.11; 3ª) Guardar o coração contra o pecadov.8, 10, 12, 15; Mc 7.21, 22; Pv 4.23; Sl 51.10. A incredulidade é uma doença do coração, pois todo pecado brota do coração. A incredulidade é o pior e mais perverso dos pecados, pois todo pecado vem dela (v.12); 4ª) Procurar conhecer os caminhos de Deus, ou seja, a sua vontade em sua Palavra – v.10; Is 55.8, 9; Rm 12.1, 2; 5ª) Praticar o encorajamento (exortação) mutuo na comunidade onde estamos inseridosv.13. Sobre o encorajamento, três observações: (1) é para todos os crentes, (2) é uma necessidade diária e (3) é necessário por causa do engano do pecado; 6ª) Guardar a nossa fé com firmeza e confiançav.14; Fp 1.6. A evidência de que estamos unidos a Cristo é a nossa perseverança em confiar em Deus, apesar das circunstancias (Hb 11.1).

Para Olyott, evita-se a apostasia primeiramente pelo reconhecimento de que nenhuma pessoa que professa ser crente entrará no céu se não perseverar na fé até o fim. Talvez isso não se ajuste ao entendimento teológico de alguns, mas é uma verdade bíblica – v.6, 14. Todos os que professam seguir a Cristo devem reconhecer que não estão isentos de apostatar, pois o uso das palavras qualquer e nenhum nos vv.12, 13 ressalta justamente isso (4.1).[8]

Deus não tornou difícil para nós a perseverança. Se mantivermos em vista o líder da nossa fé, seguindo-o de perto, chegaremos com segurança ao céu e gozaremos o descanso eterno que nos prometeu.
Stuart Olyott

II. O descanso prometido – 4.1-16

(continua na próxima semana)


[1] Smith, Hamilton. Estudos sobre a Epístola aso Hebreus, Deposito de Literatura Cristã, 2008, p. 31.
[2] Olyott, Stuart. A Carta aos Hebreus bem explicadinha, Editora Cultura Cristã, 2012, p. 31.
[3] Olyott, p. 31.
[4] Casimiro, Arival Dias. Revista Exposição Bíblica – Estudos Expositivos na Carta aos Hebreus, Z3 Editora, 2013, 5ª Lição, p. 21.
[5] Olyott, p. 35, 36.
[6] Ibid., p. 36.
[7] Casimiro, p. 23, 24.
[8] Olyott, p. 36.

domingo, 16 de agosto de 2015

Estudos Bíblicos na Carta aos Hebreus (3) - A humanidade perfeita de Jesus Cristo

Hebreus 2.5-18

Em nosso estudo anterior:

ð Vimos que Jesus é melhor e superior aos anjos pelas seguintes razões: 1) Os anjos são apenas anjos – Jesus Cristo é o Filho de Deus – v.5; 2) Os anjos são apenas adoradores – Jesus Cristo é o adorado – v.6; 3) Os anjos são apenas criaturas – Jesus Cristo é o Criador – vv.7-12; 4) Os anjos são apenas servos – Jesus Cristo é Rei – vv.13, 14.

ð Vimos, também, a exortação do autor para: (1) apegarmo-nos ao conteúdo da Palavra – v.1; (2) apegarmo-nos a autoridade da Palavra – vv.2, 3; e (3) apegarmo-nos ao poder da Palavra – vv.3, 4.

Hoje, vamos estudar Hb 2.5-18 com o tema: A humanidade perfeita de Jesus Cristo.

Stuart Olyott falando sobre esse texto diz: “Que passagem tremenda! Ela mostra que o Senhor Jesus Cristo tornou-se Filho do Homem para que pudéssemos ser filhos de Deus. Ele veio à terra para que pudéssemos ser participantes de sua justiça. Tomou a nossa natureza para que pudéssemos ter a sua. Tornou-se homem a fim de restaurar-nos tudo o que havíamos perdido na queda de Adão.”[1]

Na mentalidade judaica, influenciada pelo gnosticismo, quando Jesus se tornou homem, tornou-se menor que os anjos e não poderia ser perfeito como Deus nem como homem. Sabendo disso, o escritor, passa a demonstrar que Jesus Cristo é perfeito como Deus, pelo fato de ser Deus, e perfeito como homem.

Assim ele faz duas argumentações teológicas e práticas: 1ª) nos vv.5-13 ele mostra que a superioridade de Jesus Cristo não é cancelada por ele ter vindo entre nós como homem; e 2ª) nos vv.14-18 mostra que a superioridade de Jesus Cristo não é cancelada por ele ter sofrido por nós como homem.[2]

Nosso foco, hoje, é sobre a humanidade de Jesus Cristo. Por isso, quero trabalhar o texto respondendo uma pergunta que, creio, é muito importante e deveria estar na mente dos irmãos a quem a carta aos hebreus foi escrita e na nossa também: Por que Jesus Cristo precisou se tornar homem?

Vamos responder em quatro pontos: 1º) Para cumprir o mandato que Deus entregou a Adão – vv.5-8; 2º) Para ser o autor da salvação – vv.10-13; 3º) Para destruir o poder do Diabo a da morte – vv.14, 15; e 4º) Para socorrer os filhos de Deus – vv.16-18.[3]

I. Para cumprir o mandato que Deus entregou a Adão – vv.5-8

A argumentação começa com a citação do Salmo 8 deixando claro que o homem foi criado por Deus com o mandato de dominar a terra (Gn 1.26-28). Mas por conta do pecado de Adão, toda a raça humana se tornou pecadora e o homem perdeu a sua capacidade de domínio e possessão, e tornou-se um escravo do pecado (Gn 3.17-19).

Mas, Jesus, ao assumir a natureza humana, cumpriu o ideal do homem perfeito estabelecido por Deus – v.9. Aqui podemos aprender quatro lições da humanidade de Jesus: 1ª) O período de sua humanidade ou encarnação foi limitado ao prazo suficiente para a realização da sua obrav.9a; 2ª) A intenção da sua humanidade foi morrer e salvar a humanidadev.9b; 3ª) Por que se humanizou todas as coisas, nos céus e na terra, estão sob a sua autoridadevv.8, 9a (Mt 28.18; Ef 1.22; At 2.36; Fp 2.9-11); 4ª) A graça de Deus é a causa da sua humanidadev.9c (2Co 8.9; Ef 2.5-8).

A causa da redenção era o amor infinito de Deus para conosco,
pelo qual ele não poupou seu próprio Filho.
Arival Dias Casimiro

II. Para ser o autor da salvação – vv.10-13

“Convinha de forma soberana a Deus, como aquele que criou todas as coisas para os seus próprios propósitos, conduzir muitos filhos à gloria”[4], isto é, salvar todos aqueles alcançados por sua graça, mediante a fé – ... trazendo muitos filhos à glória... (v.10a; Ef 2.8).

Aqui no v.10 Jesus é apresentado como o Príncipe (autor na ARA) da salvação deles. A palavra usada aqui para príncipe ou autor significa pioneiro, originador, fundador (Hb 5.9; 12.2; At 3.15; 5.31). Jesus realizou algo singular a favor da humanidade (v.9) e de maneira justa é chamado de autor da salvação eterna (5.9). Para o autor, “Jesus é em alguns aspectos o líder qua agiu como alguém que desbravou a trilha, abrindo assim o caminho para que outros o seguissem”[5] (Cf. 6.20; 12.1-3). Assim, ele não somente abriu o caminho, mas lidera os salvos por meio do seu exemplo (Hb 12.2). Jesus é o alicerce sobre a qual a salvação é garantida.

A obra de Jesus realizada para a salvação é descrita de duas maneiras: 1ª) v.10bconsagração (aperfeiçoasse na ARA) – isto é, “os sofrimentos de Jesus o qualificaram para ser a causa da salvação eterna”[6] (5.9; 10.14). “Não há aspecto algum em que ele fosse moralmente imperfeito, mas pelo seu sofrimento e tentação, sua morte e exaltação celestial, foi qualificado ou tornado completamente adequado como o salvador do seu povo”[7]; 2ª) v.11 santificação – assim, como o Salvador Perfeito, Jesus, santifica um povo para Deus (10.10, 14, 29; 13.12). Ele é quem os separa para a salvação. A igreja é a comunidade dos santificados (separados) em Cristo, que são chamados para serem santos (1Co 1.2).

Hebreus usa três citações do Antigo Testamento para provar isso: 1ª) Salmo 22 – um salmo messiânico onde está claro que o Messias vê a todos do povo de Deus como sendo irmãos; 2ª) Isaías 8.17 – vê o Messias (Cristo) vindouro como colocando sua confiança em Deus, provando assim tanto a sua humanidade quanto a sua identificação com seus irmãos; e 3ª) Isaías 8.18 – uma citação muito adequada para descrever o que o Senhor Jesus Cristo diz a respeito de seu povo no céu.[8]

Aqui os crentes aperfeiçoados e santificados são identificados de três maneiras: 1ª) como irmãosv.11; 2ª) como adoradoresv.12; e 3ª) como filhosv.13.

III. Para destruir o poder do Diabo a da morte – vv.14, 15

Aqui temos definido o supremo propósito de Jesus Cristo assumir a forma humana - ... para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabov.14.

O autor afirma que o propósito da humanidade perfeita de Jesus foi libertar o seu povo dos seus inimigos – a morte e o diabo. Em outras palavras, no Evangelho está escrito: E dará à luz um filho e chamarás o seu nome Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. (Mt 1.21). João, em sua primeira carta, afirma: Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo. (1Jo 3.8)

Portanto, Jesus, por sua humanidade perfeita, trouxe libertação completa para todos os que creem – v.15 (cf. Ef 1.3; Cl 1.13; Ef 2.1-4; Jo 8.32, 36).

Temos três lições importantes aqui: 1ª) A identificação perfeita de Jesus Cristo com a humanidade (Fp 2.5-11); 2ª) A escravidão em que vive a humanidade perdida – do diabo e do pavor da morte; e 3ª) A libertação completa realizada por meio do sacrifício de Jesus destruiu o poder do Diabo que detinha o poder da morte (cf. Rm 5.12; Cl 2.15; 1Co 15.54).

IV. Para socorrer os seres humanos – vv.16-18

Finalizando sua argumentação, o autor, afirma, categoricamente, que Jesus veio para salvar os seres humanos, pois ele assumiu a natureza humana para, por ela, salvá-la – v.16 (cf. Jo 1.10-14; Rm 8.1-4). Os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que vivem espiritualmente em Cristo (cf. Rm 4.16, 17; Gl 3.18, 19).

Stuart Olyott parafraseando o v.16 esclarece essa verdade: Para obter tal vitória, Jesus não se tornou anjo e, sim, descendente de Abração – judeu. Foi assim que ele realizou a obra. O ponto evidente é que ele não socorre a anjos, mas aos seres humanos.[9] João Calvino disse sobre isso: “Ele nos preferiu aos anjos, não devido a nossa excelência, mas a nossa miséria”.[10]

Temos aqui, nos vv.17, 18, três lições de Jesus como o sumo sacerdote:

1ª) Seu caráter – Ele é misericordioso e fiel – “Ao participar da natureza humana, Cristo demonstrou sua misericórdia para com a humanidade e sua fidelidade a Deus para satisfazer a exigência divina por causa do pecado e obter assim, o perdão total para o seu povo” (Cf. 1Jo 2.2; 4.10)[11]. Jesus é fiel ao cumprir as suas obrigações sacerdotais e é confiável naquilo que diz e promete – Hb 10.23.

2ª) Suas funções – sacrificar e interceder – Como sumo sacerdote que faz expiação por seu povo, Jesus fez expiação por nós sacrificando-se e derramando o seu próprio sangue. Assim, os nossos pecados foram imputados a Jesus e ele morreu em nosso lugar (Is 53.6, 12; 2Co 5.21). Como sumo sacerdote que intercede pelo seu povo, Jesus é o nosso intercessor junto ao Pai – Rm 8.34.

3ª) Sua empatia e disposição – Na sua humanidade, Jesus conheceu o sofrimento humano e a tentação, mas não foi abatido nem pelo sofrimento nem derrotado pela tentação – ... ele nunca cedeu a elas nem pecou. (4.15 BV)

Concluindo

A humanidade de Jesus é uma das verdades centrais da nossa fé e do cristianismo. Sem ela, a expiação de Cristo seria ineficaz em todos os seus aspectos. O sacerdócio de Jesus seria uma farsa e a sua obra de intercessão uma mentira. Jesus Cristo homem é o fundamento da obra de mediação, 1Tm 2.5 diz: Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. E o apostolo João declara que aqueles que negam a humanidade de Jesus são enganadores e anticristos (1Jo 4.2; 2Jo v.7).[12]

Quero concluir com a leitura de Hebreus 4.14-16:

Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão. Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno.


Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira 15/08/2015



[1] Olyott, Stuart. A Carta aos Hebreus bem explicadinha, Editora Cultura Cristã, 2012, p. 25.
[2] Ibid., p. 26.
[3] Casimiro, Arival Dias. Revista Exposição Bíblica – Estudos Expositivos na Carta aos Hebreus, Z3 Editora, 2013, 4ª Lição, p. 16-20. (O estudo segue a Lição 4 – Jesus Cristo é o Homem Perfeito, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas).
[4] Carson, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, SP, 2009, p. 1992.
[5] Ibid., p. 1992.
[6] Ryrie, Charles C. Bíblia de Estudo Anotada Expandida, Mundo Cristão e SBB, SP, 2007, p. 1200.
[7] Carson, p. 1992.
[8] Olyott, p. 28.
[9] Olyott, p. 29.
[10] Casimiro, p. 19.
[11] MacArthur, John. Bíblia de Estudo MacArthur, SBB, 2010, p. 1691.
[12] Casimiro, p. 20.