domingo, 12 de abril de 2015

Estudos Bíblicos da Fé Batista Livre (6) - O que cremos sobre o Espírito Santo

João 16.1-14

Em nosso estudo anterior: O que cremos sobre a Obra Redentora Cristo, vimos o assunto em três pontos:

ü  1º) Cremos na expiação – o significado correto; 2º) Cremos na expiação ilimitada; 3º) Cremos na exaltação de Cristo – ressureição, ascensão e intercessão:

Terminamos afirmando que a nossa doutrina da Obra Redentora de Cristo serve, também, para distinguir os Batistas Livres de vários outros grupos, como: os cristãos liberais, de alguns arminianos e dos calvinistas que creem que Jesus morreu unicamente pelos eleitos e que não há provisão para os outros.

Hoje, dando continuidade ao nosso estudo da Fé Batista Livre, vamos ver a doutrina do Espírito Santo, não exaustivamente, mas os pontos do Capítulo VII – O Espírito Santo, 2ª Parte – A Fé dos Batistas Livres do Brasil, do Manual de Fé dos Batistas Livres do Brasil.[1]

Creio que precisamos estudar sobre o Espírito Santo, a sua pessoa e a sua obra, por três razões: 1ª) porque esse ensino se encontra na Bíblia e deve ser conhecido e praticado; 2ª) porque é por intermédio do conhecimento, iluminação, enchimento e ação do Espírito Santo que somos transformados; e 3ª) porque precisamos da obra e do poder do Espírito Santo em nossas vidas para realizarmos a obra de Deus.[2]

Assim sendo, o nosso tema de hoje é: O que cremos sobre o Espirito Santo. Veremos esse assunto em três pontos: 1º) Cremos que o Espírito Santo é uma pessoa; 2º) Cremos que o Espírito Santo é Deus; e 3º) Cremos na obra do Espirito Santo na salvação.

I. Cremos que o Espírito Santo é uma pessoa

É importante entender que o Espírito Santo é uma pessoa, não uma força impessoal. Isto é o que a primeira parte deste capítulo, no Manual, enfatiza ao demonstrar que o Espírito age e possui os mesmos atributos de um ser inteligente (e pessoal).[3]

Portanto, “o Espírito Santo não é uma força ou uma energia cósmica e impessoal, mas, uma personalidade que expressa ideias, sentimentos e comportamentos”.[4]

O Espírito Santo como ser pessoal é demonstrado pelo fato de que a Bíblia o apresenta como desenvolvendo atividades pessoais e manifestando vontade, pensamentos e sentimentos.[5] A Bíblia demostra isso de várias maneiras:

1. Com argumentos gramaticais – A expressão “outro consolador” em João 14.6; indica que o Espírito Santo é alguém como Jesus, uma personalidade distinta do Pai e do Filho. (Cf. Jo 15.26; 16.7, 8; 13, 14)

2. Com argumentos pessoais – O Manual afirma: As Escrituras designam ao Espírito Santo os atos e atributos de um ser inteligente. Ele guia, sabe, conhece, age, presta informações, ordena, proíbe, envia, reprova, e podemos pecar contra ele.[6] A Bíblia sempre apresenta o Espírito Santo como uma pessoa, atribuindo-lhe traços de personalidade: inteligência, vontade e emoções ou sentimentos (Cf. 1Co 2.10, 11; Rm 8.27; 1Co 12.11; At 13.1-3; Ef 4.30; Rm 15.30). Ele age como uma pessoa: fala, intercede, testemunha, ensina, chama e envia pessoas, convence, guia e orienta (Cf. Ap 2.7; Rm 8.26; Jo 15.26; Jo 16.12-14; At 20.28; Jo 16.8; At 16.6, 7). O Espírito Santo é uma pessoa, a qual você pode blasfemar, mentir, tentar, resistir e obedecer (Cf. Mt 12.31; At 5.3, 9; 7.51; 13.2, 3).[7]

É importante observar, também, que no ensino de Jesus sobre o Espírito Santo nos capítulos 14 à 16 do Evangelho de João, ele usa três nomes diferentes para o Espírito Santo:

1º) Consolador – do grego Parakletos, significa encorajador ou auxiliador – Jo 14.16, 25; 15.26; 16.7. Essa palavra é usa na linguagem jurídica para um advogado de defesa, mas, aqui ganha amplitude, pois o Espírito, assim como Jesus, não apenas foi um advogado, mas uma pessoa que provê encorajamento, conselho, força, entusiasmo, motivação e poder (Cf. 1Jo 2.1). É, portanto, comparável ao apoio e o carinho de um pai.[8] Por isso Jesus disse: Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós. (Cf. Jo 14.18; Tg 1.27)

2º) O Espírito da verdadeJo 14.17; 16.13 – Temos aqui um duplo significado: Primeiro – o Espírito Santo é a essência da verdade e o revelador do que é verdadeiro (Cf. 1Jo 5.6; 2Pe 1.20, 21; Jo 17.17); Segundo – Ele dá conhecimento da verdade salvadora que é Jesus CristoJo 8.32, 36. Não existe a possibilidade humana de conhecer as verdades de Deus senão pelo Espírito Santo. Uma mentira contra o Espírito Santo foi instantaneamente punida com a morte no NT – At 5.1-11.[9]

3º) O Espírito Santo – Jesus disse: Mas aquele Consolador, o Espírito Santo... (Jo 14.26a). Ele é chamado de Espírito Santo por causa de sua natureza santa e perfeita e do seu ministério que é produzir santidade – 1Jo 2.20; 1Pe 1.16; Sl 51.11; Rm 1.14.[10]

II. Cremos que o Espírito Santo é Deus

A segunda parte do capítulo VII do Manual, sobre o Espírito Santo, é dedicada à afirmação e prova da divindade do Espírito Santo. Veja comigo o que diz:

(2)Os atributos de Deus são imputados ao Espírito Santo. (3)As obras de Deus são atribuídas ao Espírito Santo: criação, inspiração, doação da vida e santificação. (4)Os apóstolos afirmaram que o Espírito Santo é Senhor e Deus.

Por divindade do Espírito Santo entendemos que ele é um com Deus, isto é, faz parte da Divindade, coigual, coeterno e consubstancial com o Pai e com o Filho.[11] O Breve catecismo de Westminster resume: O Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade, procedente do Pai e do Filho, da mesma substância e igual em poder e glória, e deve-se crer nele, amá-lo, obedecê-lo e adorá-lo, juntamente com o Pai e o Filho, por todos os séculos (Mt 3.16, 17; Mt 28.19; 2Co 13.13; Jo 15.26; 16.13, 14; 17.24).[12]

Na Bíblia, a divindade do Espírito Santo é demonstrada de várias maneiras:

1. Pelos atributos divinos que lhe são atribuídos: eternidade, onipotência, onipresença, onisciência, soberania, santidade e vida – Hb 9.14; Gn 1.1, 2; Sl 139.7, 8; 1Co 2.20; Jo 3.8; Mt 28.19; Rm 8.2.

2. Pelas obras divinas que lhe são atribuídas: criação, inspiração das Escrituras, encarnação de Cristo, ressurreição de Cristo, santificação – Jó 33.4; 2Pe 1.21; Mt 1.18; Rm 8.11; 1Pe 3.18; 1Co 6.11.

No que se refere as obras divinas, devemos entendê-las, didaticamente, da seguinte maneira: O Pai é a origem da qual elas começam; o Filho é o meio pelo qual elas acontecem; e o Espírito Santo é o executivo pelo qual elas são realizadas ou aplicadas.[13]

O Manual encerra esse assunto sobre a divindade do Espírito Santo do seguinte modo:

Pelo exposto, a conclusão é que o Espírito Santo é realmente Deus, idêntico ao Pai em todas as divinas perfeições. Já foi demonstrado também que Jesus Cristo é Deus, um com o Pai. Portanto, esses três, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, são um só Deus.

A veracidade dessa doutrina também é provada pelo fato de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo estão unidos na autoridade pela qual os crentes são batizados e nas bênçãos pronunciadas pelos apóstolos[14], que são atos da mais elevada adoração religiosa.

III. Cremos na obra do Espirito Santo na salvação

Este ponto não é tratado diretamente no Manual, mas é necessário mencioná-lo para que a exposição doutrinária fique completa. O Manual presume que o leitor entenda que as obras que são tratadas nas doutrinas da salvação são aplicadas aos que creem pelo Espírito Santo.[15]

Entendemos que a obra do Espírito Santo, na salvação, tem como marco divisor o cumprimento da promessa do derramar do Espírito (Cf. At 2). Cremos que todos os que foram salvos e viveram pela fé antes do Pentecostes, foram assistidos pelo Espírito Santo. Paulo declara que Abraão e Davi foram justificados pela fé (Rm 4). Seria possível alguém ser justificado pela fé sem a ação do Espírito Santo?[16]

No Antigo Testamento, o Espirito Santo convencia (Gn 6.3), vivificava (Sl 119.25); iluminava (Sl 119.27), conduzia a alma a Deus (Sl 65.3, 4), instruía (Ne 9.20) e sustentava os criam (Sl 37.24). Ele inspirou os profetas (Ez 2.1, 2), inspirou as Escrituras (2Pe 1.21), concedeu dons aos que criam (Gn 41.38; Êx 31.2-5; Nm 11.25; 27.18; Jz 6.34) e os capacitou para o serviço (Zc 4.6).[17]

No ensino de Jesus sobre o Espirito Santo, ele lhe atribuiu tarefas especiais: 1) Ensinar e relembrar Jo 14.26; 1Pe 1.20, 21; 2) Dar testemunhoJo 15.26; Rm 8.9, 16; 1Jo 5.10; 3) Convencer o mundoJo 16.8. Essa obra de convencimento é tríplice: do pecado – pois somos pecadores por natureza (Rm 3.23); da justiça – justiça salvadora que nos é oferecida em Cristo Jesus (Rm 5.1); e do juízo – que será o julgamento daqueles que rejeitam a salvação em Jesus (Jo 3.18, 19); 4) Guiar a toda verdadeJo 16.13; 5) Glorificar a CristoJo 16.14.[18]

O Novo testamento ainda fala muito mais sobre a ação do Espírito Santo na salvação: regeneração ou novo nascimentoTt 3.5; habitação e confirmação de filiaçãoRm 8.9-14; batismo no Espírito SantoAt 1.5-8; 2.38; 3.19; 1Co 12.13; iluminação na compreensão das Escrituras1Co 2.9-14; intercessão pelos que pertencem a CristoRm 8.26; aplicação do fruto do EspíritoGl 5.22-25; distribuição dos dons espirituais1Co 12.7-11.

Em relação ao falar em línguas estranhas ou a dos anjos como obra do Espírito Santo, seguimos o ensino das Escrituras conforme exposto no Capítulo VII do Manual, sobre o Espírito Santo.

Concluindo

Para concluir quero citar três princípios bíblicos sobre a doutrina do Espírito Santo:[19]

1º) O Espírito Santo é Deusele é igual, coexistente e coeterno com o Pai e o Filho. Ele possui todos os atributos da divindade;

2º) O Espírito Santo é quem convence o pecador do pecado, da justiça e do juízo – e assim, ele habita, santifica, capacita e guia os crentes, mantendo-os firmes e perseverantes na fé;

3º) A ordem de Deus é para todos os crentes sejam cheios do Espírito Santo. (Ef 5.18)

Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira – 09/04/15



[1] Manual de Fé e Prática dos Batistas Livres do Brasil, 4ª Edição, 2014, Capítulo VII – O Espírito Santo, pg. 17-19.
[2] Casimiro, Arival Dias. Rede de Discipulado 2, 1ª Edição, 2015, Z3 Editora, p. 51.
[3] Picirilli, Robert E. Estudo da Doutrina Batista Livre, Lição 6 – O que cremos sobre o Espírito Santo e Sua Obra, p. 2.
[4] Casimiro, p. 52.
[5] Picirilli, p. 3.
[6] Manual, p. 17.
[7] Casimiro, p. 52.
[8] Ibid., 52.
[9] Ibid., 52.
[10] Ibid., 52.
[11] Casimiro, p. 53.
[12] Casimiro, p. 52.
[13] Casimiro, p. 53.
[14] Mateus 28.19; 2Coríntios 13.13; 1Pedro 1.2
[15] Picirilli, p. 4.
[16] Casimiro, p. 53.
[17] Ibid., p. 53.
[18] Ibid., p.53.
[19] Ibid., p.51.

terça-feira, 31 de março de 2015

Estudos Bíblicos da Fé Batista Livre (5) - O que cremos sobre a Obra Redentora de Cristo

Colossenses 1.12-14

Em nosso estudo anterior: O que cremos sobre a pessoa de Jesus Cristo, vimos:

ü  1º) Cremos que Jesus Cristo é verdadeiramente Deus; 2º) Cremos que Jesus Cristo é verdadeiramente homem; 3º) Cremos que em Jesus Cristo as duas naturezas, divina e humana, estão em perfeita harmonia.

Terminamos afirmando que a nossa doutrina da divindade de Cristo nos distingue () de todas as formas de naturalismo; () do deísmo; () dos cristãos liberais; e () dos Unitários e outros grupos cristãos que professam a tal doutrina da unidade e desta forma negam que há três personalidades em um único Deus (Trindade).

Hoje, dando continuidade ao estudo da Doutrina de Cristo, na sua segunda parte, vamos ver a obra de CristoSua provisão da redenção ou o que Ele fez para providenciar salvação. Nosso ensino está baseado no capítulo VI do Manual. Quando chegamos a este ponto, nos encontramos no âmago da teologia da redenção, porque nossa redenção é baseada na obra de expiação e reconciliação de Cristo.[1]

Por isso, nosso tema é: O que cremos sobre a Obra Redentora de Cristo. Veremos esse assunto em três pontos: 1º) Cremos na expiação – o significado correto; 2º) Cremos na expiação ilimitada; 3º) Cremos na exaltação de Cristo – ressureição, ascensão e intercessão.

I. Cremos na Expiação – o significado correto

[2]A questão mais importante, quando se trata da morte expiatória de Cristo, é conhecer o seu significado. O que Jesus realizou com Sua crucificação?

1. Pontos de vista inadequados com relação ao significado da morte de Cristo na cruz. Estes incluem:

a. A morte de Jesus foi um martírioEle morreu principalmente porque outras pessoas rejeitaram seus ensinamentos e o crucificaram para destruir Sua pessoa e influência.

b. A morte de Jesus serviu de influência moral sobre os outros, inspirando-os pelo seu exemplo de auto sacrifício a fazer o que é certo, a qualquer preço.

c. Jesus morreu para demonstrar o amor de DeusSua morte mostrou o quanto Deus se importa com o mundo.

d. Jesus morreu como exemplo de devoção a Deus ou a uma causa justaAo dar Sua vida por uma causa nobre, Ele serviu de exemplo a outros para que estes façam o mesmo.

e. A morte de Jesus foi principalmente uma vitória contra as forças do mal, demonstrado pela Sua ressurreiçãoDurante Sua vida e enquanto ensinava, estava em luta contra a influência de Satanás, porém, no final, foi vitorioso.

f. A morte de Jesus serviu para proteger e preservar o governo divino – Isto é conhecido como o ponto de vista governamental da expiação e precisa ser vista com mais atenção, pois alguns teólogos arminianos aceitam esta posição como sendo o sentido correto da expiação de Cristo.

2. Termos bíblicos usados para indicar o entendimento correto do significado da morte de Cristo:

Através do Novo Testamento a expiação é representada de várias formas. Três delas parecem ser as mais importantes e úteis para entender o que foi realizado com a morte e ressurreição de Cristo.

a. A morte de Jesus foi um resgate ou uma redenção. Estas duas palavras usadas frequentemente no Novo Testamento refletem a mesma ideia básica, isso é, o pagamento de um preço para conseguir liberdade. A ideia é de que a humanidade estava em escravidão ao pecado e o preço da liberdade desta escravidão e da penalidade requerida era que a penalidade fosse paga. Jesus, como o homem-Deus com humanidade perfeita, pagou a penalidade em nosso lugar. (Cf. Mt 20.28; 1Tm 2.6; Rm 3.24; Ap 5.9). Nota: As referências neotestamentárias ao sangue de Jesus indicam o derramamento de Seu sangue, portanto, a Sua morte como sacrifício a Deus como expiação pelos nossos pecados.

b. A morte de Jesus como propiciação. A ideia principal é o apaziguamento da justiça de Deus contra a humanidade devido ao seu pecado. A única maneira em que a ira santa de Deus poderia ser satisfeita seria a execução da punição. Jesus levou sobre si a ira de Deus pelos nossos pecados, no que muitas vezes é conhecido como o “clamor de abandono” na cruz (Cf. Marcos 15.34; Is 53.4-6).

c. A morte de Jesus trouxe reconciliação. O relacionamento entre Deus e a humanidade estava quebrado devido ao pecado do homem e Jesus os reconciliou. A palavra reconciliação significa que passamos a “ser um”. Em Romanos 5.1-11 temos o ensino claro sobre a reconciliação. Jesus resolveu o problema da separação entre Deus e os homens – Cf. 2Co 5.18-21; Cl 1.18-23.

3. Algumas verdades chaves sobre a natureza da morte de Cristo:

a. Sua morte foi sacrificial e isto envolve todo o Antigo Testamento – Observe a frase do Manual: “Cristo deu-se como sacrifício”. Isto é porque sua morte era uma expiação oferecida a Deus pelo pecado. Devido ao sentido da palavra expiação no Antigo Testamento que significa ser de uma cobertura pelo pecado. Com todo o pano de fundo bíblico do derramamento de sangue de um animal sacrificial, o sangue de Jesus não representa apenas a sua morte, mas uma morte sacrificial expiatória. (Cf. Hb 9.14)

b. Sua morte foi substitutiva. Ele morreu em nosso lugar. Ele não morreu pelos Seus próprios pecados, mas pelos nossos. Ele morreu em nosso lugar. Como diz o Manual: “Ele morreu por nós, sofrendo em nosso lugar”. O termo doutrinário tradicional para isto é morte vicária. Um vigário é alguém que toma o lugar de outro. (Cf. Rm 5.8)

c. Sua morte serviu de satisfação. Isto significa que ao morrer por nós, Jesus satisfez a ira de Deus por ter pagado por completo a dívida pelos nossos pecados ou satisfeito a violação de Sua lei. É por isto que Romanos 3.21-31 afirma que Deus é justo e também justificador daquele que tem fé em Jesus. Se Ele tivesse perdoado as pessoas sem a Sua justiça ser satisfeita, Ele não seria justo. Porém, como a penalidade foi paga pelo substituto, Ele pode justificar o pecador e ainda satisfazer Suas exigências justas.

Nota: Aqui temos uma das diferenças entre os arminianos. Alguns sustentam, equivocadamente, como vimos acima, o ponto de vista governamental do significado da expiação, isto é, creem que Deus poderia perdoar pecados sem pagar a penalidade e que Jesus morreu para mostrar que o governo de Deus não estava sendo ab-rogado ao fazê-lo. Para aqueles que sustentam esta posição, Jesus morreu devido ao nosso pecado para sustentar o governo de Deus; porém não tomou realmente sobre si a culpa e a punição de nossos pecados como substituto por nós. Os Batistas Livres creem, no entanto, no ponto de vista da expiação que é conhecido como satisfação penal. Isto significa que Jesus tomou o nosso lugar e suportou a plena ira de um Deus santo como penalidade pelos nossos pecados. Para aqueles que colocam sua fé na obra salvífica de Cristo, Deus não somente permitiu que seus pecados fossem “dispensados”, mas Ele mesmo, na pessoa de Seu próprio Filho, pagou a penalidade por eles. (Cf. 2Co 5.21; Gl 3.13)

II. Cremos na Expiação Ilimitada ou Geral[3]

Esse assunto, a extensão da expiação, é uma das diferenças chaves entre calvinistas e arminianos. O calvinismo defende a expiação limitada, isto é, que Jesus morreu para providenciar a redenção apenas para os que Deus escolheu salvar antes da criação do mundo. O arminianismo, e aqui se incluem os Batistas Livres, defende a expiação ilimitada, também chamada de expiação geral, isto é, que Jesus morreu para providenciar salvação para todos.

O Manual diz que “Cristo deu-se como sacrifício pelos pecados do mundo e, assim, tornou a salvação possível para todos os homens”. Isto é parte do que significa crer em livre arbítrio: como a morte redentora de Jesus providenciou a salvação de todos, todos podem livremente escolher aceitar ou rejeitar a Cristo e a salvação.

Esta é uma parte importante de nossa doutrina que nos distingue de outros grupos de cristãos. Vejamos algumas das razões pelas quais cremos que Cristo morreu por todos.

1. Razões bíblicas por que cremos na expiação ilimitada:

a. A Bíblia afirma que Deus deseja que todos sejam salvos – 2Pe 3.9; 1Tm 2.4.

b. A Bíblia afirma que Jesus morreu por todos – 1Jo 2.2; 1Tm 2.6; Hb 2.9; Jo 3.16-18; 2Co 5.14.

c. A Bíblia indica que Cristo morreu por alguns que irão perecer – 1Co 8.11; Rm 14; 2Pe 2.1.

d. A Bíblia oferece salvação a todos e ordena que o evangelho seja pregado a todos – Ap 22.17; Mc 16.15; Rm 10.13.

e. A Bíblia culpa o próprio homem pela sua condição de perdido por ter rejeitado a Cristo. Isto seria ilógico se Cristo não tivesse providenciado a expiação por eles – Rm 10.3; 2Ts 1.8; João 3.18.

f. A Bíblia indica que a provisão da expiação é tão ampla quanto à necessidade por ela, isto é, a extensão do pecado. O pecado é universal, portanto, a necessidade de expiação também o é. Analisando cuidadosamente Romanos 3.22-25, sua lógica é precisa: 1º) não há distinção; 2º) pois todos pecaram; 3º) sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé. O significado parece muito claro: o fato de não existir “distinção” se baseia no fato universal de que todos pecaram e baseado nisto, Deus providenciou a justificação.

Já mencionei três conceitos chaves para se entender o significado da morte de Cristo como redentora. É interessante notar que todos os três aparecem em contextos universais: 1º) Em 1Tm 2.6 lemos que Jesus se deu como resgate por todos; 2º) Em 1Jo 2.2 se diz que Jesus é a propiciação pelos nossos pecados, porém não somente pelos nossos, mas pelos pecados do mundo inteiro; e 3º) Em 2Co 5.19 Paulo diz que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo.

2.    Expiação ilimitada não significa salvação ilimitada ou universal

A salvação foi providenciada para todos na morte expiatória de Cristo, mas é aplicada somente aos que creem (Cf. Tt 2.11-14; Ef 1.1-13). Jesus não morreu com o propósito ou a intenção de salvar todos, senão, todos seriam salvos, já que os propósitos finais de Deus são sempre cumpridos. Porém ele morreu para providenciar uma expiação que é suficiente para e disponível a todos.

Os calvinistas gostam de dizer que há passagens no Novo Testamento que falam da obra redentora de Cristo como tendo realmente realizado a salvação daqueles para quem Ele morreu e não simplesmente “providenciado” por esta salvação. É verdade que algumas passagens parecem ensinar isto. Por exemplo:

ü Em 2 Coríntios 5.19 o significado parece ser de que Jesus realmente reconciliou aqueles por quem ele morreu, não apenas que tenha tornado a reconciliação possível. A resposta para todos os textos como este é que falam com antecipação do que é realizado somente depois que as condições são preenchidas. Se eu disser que o diagnóstico do médico salvou a minha vida, eu estaria falando desta forma. Na realidade, foi o remédio que tomei que salvou minha vida. Da mesma forma, a morte de Jesus verdadeiramente salva somente aqueles cujos benefícios foram aplicados pela fé. Portanto, o intuito da expiação foi providenciar para todos e salvar todos que pela fé creem.

III. Cremos na exaltação de Cristo – ressurreição, ascensão e intercessão.[4]

O segundo parágrafo do capítulo VI do Manual menciona brevemente a obra de Cristo que seguiu Sua morte na cruz. A exaltação começa neste ponto, iniciando-se com a ressurreição seguida pela Sua ascensão em glória onde se assenta como mediador para interceder a favor daqueles que se achegam a Ele em fé. Cremos que a exaltação faz parte da obra de mediação de Cristo. Veremos apenas três aspectos.

1. A ressurreição

A ressurreição, nesse ponto do manual, é mencionada apenas em uma frase curta: “ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4.25). Porém, a ressurreição é tão importante à obra redentora de Cristo quanto Sua morte na cruz.
Não se deve separar os dois acontecimentos.

a. Existem pontos de vista equivocados sobre o que aconteceu: Alguns dizem que a ideia de uma ressurreição é simplesmente uma maneira de afirmar a Sua contínua influência e presença espiritual. Outros dizem que Ele não morreu de verdade, mas desmaiou e recobrou consciência no frescor da tumba. Outros ainda dizem que a estória é uma lenda que simboliza uma verdade.

b. Porém, para nós, que levamos a Bíblia a sério, a ressurreição é um fato. Há confirmação disto nas Escrituras em todos os quatro relatos dos evangelhos. Ela é a base de toda a fé cristã. Coríntios 15.17 afirma que se Cristo não ressuscitou dos mortos, nossa fé é vã.

c. Há muitas consequências maravilhosas da ressurreição. As principais são:

ð É evidência da divindade de Cristo – Rm 1.4; At 2.32-36.

ð É a garantia de nossa própria ressurreição – 1Co 15.20; At 2.24.

ð É prova do julgamento vindouro – At 10.42; 17.31.

ð É a garantia de nossa justificação (Rm 4.25), com indica o Manual. Ela assegura a aceitação do propósito de justificação do sacrifício de Cristo.

2. A ascensão – A ascensão, também, é mencionada apenas brevemente nesta parte do Manual.

a. É importante afirmar que Jesus subiu corporalmente, como foi testemunhado pelos que observavam – Atos 1.9. Enquanto eles olhavam, Jesus subiu e desapareceu nas nuvens, e eles foram informados, pelo anjo, que Ele voltará da mesma forma em que o viram subir. Sendo assim, a ascensão é real e corporal, como o será o Seu retorno. Ambas, ressurreição e ascensão, fazem parte de Sua glorificação.

b. A ascensão de Cristo aos céus tem pelo menos dois significados: 1º) Ele foi glorificado ao assento que tem de direito à destra de Deus – Ef 1.20, 21; e 2º) A ascensão marcou o início de sua função de sacerdote como intercessor à destra de Deus – Hb 4.14. Isto nos leva ao próximo aspecto de sua obra mediadora.

3. A intercessão

A função sacerdotal de Cristo como mediador-intercessor é baseada na ressurreição e ascensão.  A obra desta função sacerdotal é apresentada de diferentes maneiras no Novo Testamento:

a. Ele adentrou o santo dos santos com Seu próprio sangue – Hb 9.24. Foi uma obra única, realizada uma vez por todas.

b. Ele está judicialmente respondendo as acusações de Satanás contra aqueles que pertencem a Deus – Rm 8.33, 34.

c. Ele santifica o que oferecemos a Deus – 1Pe 2.5.

d. Ele nos sustenta e ajuda na tentação – Hb 4.15.

e. Ele nos representa como advogado a favor do perdão de nossos pecados – 1Jo 2.1.

Nota: O terceiro parágrafo deste capítulo trata sobre a salvação dos que morrem na infância, antes de atingir a idade de responsabilidade ou de quaisquer outros que talvez nunca atinjam um entendimento mental ou moral suficiente para serem pessoalmente responsabilizados tanto pelo pecado como pela resposta ao evangelho. Cremos, como está no Manual, que a salvação dos que morrem na infância é resultado da morte redentora de Cristo, isto é, são salvos pelo cancelamento da culpa pelo pecado original da raça humana em virtude da morte de Cristo. (Cf. 1Co 15.22; Mt 18.2-5; Mc 9.36, 37; Mt 19.14)

Concluindo[5]A nossa doutrina da obra de Cristo serve, também, para distinguir os Batistas Livres de vários outros grupos.

ü Ela nos distingue dos cristãos liberais que creem que a morte de Cristo foi a de um mártir, manifestando principalmente o amor de Deus. Estes não ensinam que a morte de Cristo foi sacrificial, substitutivo, necessário para satisfazer a ira de Deus e para pagar a penalidade pelo pecado.

ü Ela nos distingue de alguns arminianos que creem na visão governamental da expiação. O arminiano original, o próprio Armínio, ensinou a visão da satisfação penal da expiação, como nós o fazemos.

ü Ela nos distingue dos calvinistas que creem que Jesus morreu unicamente pelos eleitos e que não há provisão para os outros. Nossa doutrina é que Ele morreu por todos.

Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira 25/03/15



[1] Picirilli, Robert E. Estudo da Doutrina Batista Livre, Lição 5 – O que cremos sobre a Obra Redentora de Cristo, p. 2.
[2] Picirilli, Robert E. Estudo da Doutrina Batista Livre, Lição 5 – O que cremos sobre a Obra Redentora de Cristo, p. 2-4. Neste ponto o estudo segue a Lição 5, Ponto I – A Natureza da Expiação, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas.
[3] Picirilli, Robert E. Estudo da Doutrina Batista Livre, Lição 5 – O que cremos sobre a Obra Redentora de Cristo, p. 5-7. Neste ponto o estudo segue o Ponto II – A Extensão da Expiação, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas.
[4] Picirilli, Robert E. Estudo da Doutrina Batista Livre, Lição 5 – O que cremos sobre a Obra Redentora de Cristo, p. 7-10. Neste ponto o estudo segue o Ponto III – A Exaltação e Obra de Mediação de Cristo, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas.
[5] Picirilli, Robert E. Estudo da Doutrina Batista Livre, Lição 5 – O que cremos sobre a Obra Redentora de Cristo, p. 10. Neste ponto o estudo segue a conclusão de Picirilli, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas.