segunda-feira, 16 de março de 2015

Estudos Bíblicos da Fé Batista Livre (3) - O que cremos sobre a Criação e a Humanidade

Salmo 24.1, 2; Atos 4.24; 17.24; 1Coríntios 10.26

Em nosso estudo anterior sobre o que cremos sobre Deus Pai, vimos:

ü  Que Deus é conhecível, mas incompreensível exaustivamente; que Ele possui atributos comunicáveis e incomunicáveis e o Seu relacionamento com a humanidade.

Terminamos com as palavras do Artigos de Fé sobre Deus:[1]

Há um só Deus vivo e verdadeiro, sendo revelado na natureza como o Criador, Preservador e Governador Justo do universo; e nas Escrituras como Pai, Filho, e Espírito Santo, ainda como um só Deus, infinitamente sábio e bondoso, a quem todas as criaturas inteligentes devem supremamente amar, adorar, e obedecer.

Assim como Picirilli, em nosso estudo de hoje, seguiremos a ordem do Manual de Fé – Seção I – Criação: do Mundo, dos Anjos e do Homem; Seção II – Estado Primitivo do Homem e sua Queda.[2]

Nosso tema é O que cremos sobre a Criação e a Humanidade. Veremos esse assunto em três pontos: 1º) Cremos que Deus criou o mundo e tudo o que nela há; 2º) Cremos que Deus criou os seres angelicais; 3º) Cremos que Deus criou o homem.

I. Cremos que Deus criou o mundo e tudo o que nele há – Gn 1.1; Hb 11.3.

Em Gn 1 temos o relato da criação em seis dias, dividido em duas partes: 1ª) Gn 1.1-10 – Deus cria as estruturas fundamentais do nosso mundo – a) o tempo – vv.3-5; b) o espaço – vv.6-10. O espaço é delimitado verticalmente – vv.6-8, e horizontalmente – vv.9-10; 2ª) Gn 1.11-28 – Deus cria dentro do mundo já estruturado, os seres vivos e as condições para sua sobrevivência – a) a criação da natureza (plantas) – vv.11-13; b) a criação do sol e da lua como marcadores do dia e da noite – vv.14-19; c) a criação dos animais – vv.20-25; d) a criação dos seres humanos – vv.26-28. Dentro de seu plano criativo, Deus acrescenta, ainda, providências quanto à reserva alimentar do planeta – vv.29-30, e um parecer final registrando a satisfação do Criador com a sua criação – v.31.[3]

Deus criou o mundo, e tudo quanto nele há, para seu próprio agrado e glória, e para usufruto de suas criaturas.[4] (Cf. Ap 4.11; Is 43.7; 1Tm 6.17)

1. [5]A primeira parte do primeiro parágrafo afirma o fato da criação. A palavra mundo se refere ao universo físico ou material. Apesar da declaração ser suficientemente clara, há alguns pontos importantes a salientar, especialmente quando se tem em vista como as pessoas na cultura atual pensam sobre o universo físico.

a.    O universo material não é eterno. Veio a existir em algum momento no tempo e a atividade criadora de Deus foi responsável por trazê-lo à existência.

b.   O universo material não tem a capacidade de autocriação. O poder para trazê-lo à existência e sustentá-lo não está contido dentro do mundo. Este poder vem de fora e se encontra na vontade de Deus. (Cf. Cl 1.16, 17; Hb 1.2, 3)

c.    A doutrina cristã afirma que Deus criou ex nihilo. Isto significa criação “do nada”. Em outras palavras, Deus não usou algo que já existisse quando falou e trouxe à existência o universo físico, como nos é revelado em Gênesis 1. Antes da atividade criativa de Deus a única coisa que existia era Ele mesmo. Toda a matéria é dependente de Deus para a sua existência.

d.   O universo material não é tão antigo quanto a teoria da evolução gostaria que acreditássemos. Podemos afirmar isto com confiança porque os cálculos dos cientistas seculares baseiam-se em pressuposições de que todas as forças que podemos observar atualmente na natureza foram sempre as mesmas. Porém, se Deus criou qualquer coisa que não existia antes, como a Bíblia nos afirma, então esta força criativa não pode ser levada em consideração nos cálculos da ciência.

Nota: Os Batistas Livres não são evolucionistas. O mundo não se desenvolveu de matéria sem vida para formas simples de vida até chegar às formas mais complexas por acaso ou por mecanismos cegos de causa e efeito. Ele foi criado por atos de Deus, como descritos em Gênesis 1 e 2.

2. A segunda parte do primeiro parágrafo indica o propósito da criação.

a.    Deus criou o universo físico para Seu próprio prazer e glória.

b.   Deus criou o universo físico para o prazer e dominação do homem. O ponto de vista da narração da criação em Gênesis 1 é um tanto antropocêntrica – isto é, centrada no homem. Isto é especialmente verdadeiro, por exemplo, dos versículos 14-19 quando o propósito do sol, lua e das estrelas é explicado em termos das experiências humanas de dia, noite e estações.


II. Cremos que Deus criou os seres angelicais

Os anjos foram criados por Deus, a fim de glorificá-lo e obedecerem aos seus mandamentos. Aqueles que conservaram seu estado original, Ele emprega para ministrar bênçãos aos herdeiros da salvação e para executar os seus juízos sobre o mundo.[6]

A Bíblia é a fonte que nos dá conhecimento correto sobre a doutrina dos anjos. Nela temos o suficiente para sabermos quem os criou e qual a sua função. Para Erickson, “um motivo da dificuldade do assunto é que, apesar de serem abundantes na Bíblia as referências aos anjos, eles não são discutidos. Quando mencionados, é sempre para nos fornecer informações complementares acerca de Deus, do que ele faz e de como o faz”.[7]

A principal palavra bíblica, em hebraico e, também, em grego, para anjo significa mensageiro, e ocorre cerca de 285 vezes no texto sagrado. O ensino sobre a existência dos anjos está em, pelo menos, 34 livros da Bíblia.

Os anjos foram criados por Deus antes da fundação do mundo e num estado de santidade. Eles são seres espirituais que não se reproduzem segundo a sua espécie, não morrem, são completamente distintos dos seres humanos, têm grande poder e são em número incontável – Cf. Sl 148.2, 5; Cl 1.16; Jó 38.6, 7; Jd 6; Hb 1.14; Mc 12.25; Lc 20.36; Sl 8.4, 5; 2Pe 2.11; Hb 12.22; Dn 7.10; Ap 5.11.

Anjos possuem personalidade, isto é, são seres pessoais. Eles possuem intelecto (1Pe 1.12), emoções (Lc2.13) e vontade (Jd 6). Tanto no Antigo como no Novo Testamento, foi possível interagir com eles – 2Sm 14.20; Ap 22.9. São “criaturas morais, alguns sendo caracterizados como santos (Mt 25.31; Mc 8.38; Lc 1.26; At 10.22; Ap 14.10), enquanto outros, os que descaíram, são descritos como seres que mentem e pecam (Jo 8.44; 1Jo 3.8-10)”.[8]

A Bíblia faz menção de anjos bons e anjos maus, também chamados de anjos eleitos e de anjos decaídos (1Tm 5.21; 2Pe 2.4; Jd 6), embora ressalte que todos os anjos foram originalmente criados bons e santos (Gn 1.31), tendo livre-arbítrio.[9]

Em Colossenses 1.16, temos a menção de uma ordem hierárquica, entre os anjos, de modo decrescente: tronos, dominações, principados e potestades. Já em Efésios 1.21, a mesma graduação é mencionada em ordem crescente: principados, poderes, potestades e domínios. Essa graduação de autoridade entre os anjos corresponde às suas diferentes funções no céu, junto ao trono de Deus, mas, também no seu serviço na administração divina em relação ao universo e a favor daqueles que hão de herdar salvação. (Cf. Hb 1.14)

Vou apenas citar alguns desses tipos ou classes de anjos: 1) Serafins – São mencionados na Bíblia apenas em Isaías 6.1-3, onde aparecem ao redor do trono de Deus, prontos para cumprirem as suas ordens; 2) Querubins – São mencionados diversas vezes na Bíblia. São os que guardam a entrada do jardim do Éden e tem a função de revelar o poder, a majestade e a glória de Deus – Gn 3.24; Hb 9.5; Ez 10.20; Ap 4.6-9; Sl 99.1; 80.1; Is 37.16; Ez 1-10); 3) Arcanjos – São anjos revestidos por Deus de autoridade sobre outros anjos – Sl 148.2; Js 5.14; Is 55.4. Dois deles tem os seus nomes revelados na Bíblia: Miguel – Dn 10.13-21; 12.1; 9.2; Ap 12.9-7; e Gabriel (por analogia) – Dn 8.16; 9.21-27; Lc 1.11, 13, 19; 26-35. 4) Anjos ou Anjos Comuns – são chamados de o exército celestial – 2Cr 18.18; Jó 25.3; 2Rs 6.17; Hb 1.14; 12.22.

Numerosos anjos participaram da rebelião de Satanás contra Deus (Ez 28.12-17; Jd 6; Ap 12.9; Mt 4.10) e abandonaram o seu estado original de graça, como servos de Deus, e assim perderam o direito à sua posição celestial.[10] Esses anjos maus ou decaídos são os chamados demônios que a Bíblia menciona – Mt 25.41; 2Pe 2.4; Jd 6; At 23.8, 9. Eles têm a mesma natureza de Satanás, são imundos, violentos, mentirosos e estão em absoluta oposição a Deus e à sua obra – Mt 12.24; Mc 5.9; 9.2-5; 1Rs 22.21, 22; Ef 6.12.

III. Cremos que Deus criou o homem[11]

Várias verdades importantes são citadas na declaração sucinta do Manual. Suas implicações precisam de explicação:

1. O homem como criatura de Deus – O fato dos seres humanos serem criados por Deus significa que não são produto da evolução natural. Isto fica claro quando lemos o relato de Adão e Eva no seu sentido óbvio. Não aceitamos o relato como mito. Porém, chegamos a esta conclusão baseado em mais do que somente a leitura de Gênesis.

a.    A Bíblia toda pressupõe a criação direta do homem por Deus, como também, consequentemente, a sua responsabilidade perante Ele.

b.   O relato de Gênesis está repleto de indícios contrários à explicação dada pela evolução para a existência da humanidade, incluindo: 1) Adão foi formado do pó da terra, não de formas inferiores de vida; 2) O homem foi feito à imagem de Deus – único relato disto entre todas as criaturas; 3) Quando se procurou uma ajudadora idônea para Adão, nenhuma foi encontrada dentro do mundo animal; e 4) A criação de Eva foi feita a partir da costela de Adão, e isto não se encaixa com a perspectiva evolucionista.

Isto já é o suficiente para indicar que a posição da Bíblia não tolera uma origem puramente evolucionista para o ser humano. Isto também vale para a “evolução teísta”.

2. O homem feito à imagem e semelhança de Deus – Esta é uma parte importante do relato bíblico enfatizado em Gênesis 1.26-27. Há duas questões importantes aqui:

a.    O que significa isto? Apesar da Bíblia não explicar como o homem é “semelhante” a Deus, a figura que ela nos dá do ser humano parece indicar pelo menos cinco elementos que estão envolvidos na imagem de Deus. 1) O homem é um ser pessoal: possui vontade própria, pensamento e sentimentos. Isto inclui sua autoconsciência de sua identidade pessoal; 2) O homem é um ser espiritual: é mais do que meramente um ser físico, como veremos mais adiante. Temos uma natureza superior capaz de se relacionar com Deus; 3) O homem é um ser moral: tem um sentido de certo e errado e responsabilidade para agir de acordo com o que é certo, o que se encontra na lei de Deus; 4) O homem é um ser racional: tem a capacidade de pensar e raciocinar; e 5) O homem é livre e tem capacidade de autodeterminação: na sua constituição tem a capacidade de fazer escolhas que determinam suas ações e pelas quais será responsável.

b.   A imagem de Deus foi destruída pela queda do homem? A resposta curta é “não”. Os seres humanos estão corrompidos. A imagem de Deus foi desfigurada, não destruída. O homem caído ainda tem as características que acabei de descrever, apesar de haver limitações à nossa liberdade e capacidade para sermos humanos completos, como Deus tinha nos projetado para ser na criação. Aqui temos um problema de depravação que será discutido mais adiante.

3. O homem com corpo e alma – O Manual menciona “um corpo material e de uma alma pensante e racional”. Teólogos cristãos muitas vezes divergem quanto à dicotomia e a tricotomia. Aqueles que defendem a dicotomia creem que o homem é um ser composto por duas partes: corpo e alma (ou espírito). Aqueles que defendem a tricotomia creem que o homem é composto por três partes: corpo, alma e espírito. Os batistas livres não têm uma posição oficial quanto a esta questão. O Manual provavelmente não foi concebido para expressar qualquer um destes pontos de vista.

O que o Manual pretende é nos fazer entender que o homem é tanto físico quanto espiritual. O homem é mais do que a matéria, mais do que apenas uma máquina e mais do que células cerebrais reagindo aos estímulos físicos. Sim, o homem tem um corpo material e também existe uma vida animada. Porém o homem também possui uma natureza espiritual que pode ter um relacionamento dinâmico, pessoal e comunicativo com Deus.

4. O homem existe para glorificar a Deus – Este é o propósito para a existência do homem como também o é para toda a criação. O Catecismo de Westminster expressa isto dizendo que o principal objetivo do homem é glorificar a Deus.

5. O ser humano como macho e fêmea – O apêndice ao capítulo 4, que foi acrescentado em 2008 devido às ideias atuais sobre este assunto, indica a posição Batista Livre quanto ao casamento e a sexualidade. Como em todos os assuntos, a verdade se encontra nas Escrituras e não nas areias movediças da opinião cultural. A declaração é clara o bastante, não necessitando de explicação mais detalhada. Os batistas livres entendem que a Bíblia ensina que a união sexual é reservada para o casamento e que o casamento foi ordenado por Deus para ser a união entre um homem e uma mulher por toda a vida.

Apêndice ao capítulo 4, seção 1.[12]

Tanto as Escrituras quanto a natureza projetada por Deus afirmam uma união de aliança por toda a vida entre um homem, criado por Deus como macho, e uma mulher, sendo fêmea criada por Deus, em um relacionamento de uma só carne. Esta união de uma só carne é emblemática da união de Cristo e Sua igreja. É o contexto lindo e único do plano divino para o relacionamento conjugal do homem e da mulher como portadores da imagem de Deus, bem como o alicerce ordenado por Deus para a família como unidade básica da sociedade humana. Violações desta união de uma só carne, sejam hetero ou homossexual, pré ou extraconjugal, são uma contravenção do plano divino para a família e para a concepção e criação de filhos, trazendo desespero espiritual, culpa e morte aos indivíduos e as culturas.

Concluindo

Quero concluir com a leitura e um breve comentário sobre o texto do Capitulo IV, Sessão II do Manual:

Estado Primitivo do Homem e Sua Queda[13]

Nossos primeiros pais, em seu estado original, eram retos. Preferiam e desejavam naturalmente obedecer ao seu Criador e não tinham preferência nem desejo de transgredir sua vontade[14], até que foram influenciados e inclinados pelo tentador a desobedecerem aos mandamentos de Deus. Antes disso, a única tendência da natureza deles era praticar a retidão. A posteridade de Adão entrou no mundo num estado diferente, em consequência da primeira transgressão. Os homens não possuem aquela retidão e pureza possuídas por Adão antes da queda; não desejam obedecer a Deus, propendem para o mal[15]. Segue-se daí que ninguém, em virtude de qualquer bondade natural ou mera obra própria, poderá tornar-se filho de Deus[16]; mas, para serem salvos, todos dependem da redenção efetuada mediante o sangue de Cristo, quando criados de novo para a obediência, através da operação do Espírito[17]; estas bênçãos são livremente providas para todo o descendente de Adão.

Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira – 15/03/15



[1] Manual de Fé e Prática dos Batistas Livres do Brasil, 4ª Edição, 2014, 3ª Parte – Artigos de Fé, p. 29.
[2] Manual de Fé e Prática dos Batistas Livres do Brasil, 4ª Edição, 2014, 2ª Parte – A Fé dos Batistas Livres, p. 12, 13.
[3] Jr., Walter Almeida. Estudo Bíblico: Panorama do Antigo Testamento – Gênesis 1-11 (Primórdios), 2014, p. 3.
[4] Manual (2ª Parte), p. 12.
[5] Picirilli, Robert E. Estudo da Doutrina Batista Livre, Lição 3 – O que cremos sobre a Criação e a Humanidade, p. 2, 3. Neste ponto o estudo segue a Lição 3, Ponto I – Deus como criador de tudo que existe além de si mesmo, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas.
[6] Manual (2ª Parte), p. 12.
[7] Erickson, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática, Vida Nova, 2008, p. 194.
[8] Ibid., p. 195.
[9] Duarte, Pr. Mateus. Apostila de Angelologia da FEST, Uberaba, MG, p. 26.
[10] Duarte, p. 26.
[11] Picirilli, Robert E. Estudo da Doutrina Batista Livre, Lição 3 – O que cremos sobre a Criação e a Humanidade, p. 5-10. Neste ponto o estudo segue a Lição 3, Ponto I e II – Deus como criador de tudo que existe além de si mesmo e O homem nos estados original e caído, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas.
[12] Aprovado em assembleia pela Associação Nacional das Igrejas Batistas Livres dos Estados Unidos em julho de 2008.
[13] Manual (2ª Parte), p. 12.
[14] Eclesiastes 7.29; Efésios 4.24; colossenses 3.10.
[15] Salmos 51.5; Romanos 8.7; Efésios 2.3; Salmos 58.3.
[16] João 6.44; 1 Coríntios 2.14.
[17] João 3.3, 5; 1.13; Hebreus 12.14; Colossenses 1.14; Tito 3.5.

Estudos Bíblicos da Fé Batista Livre (2) - O que cremos sobre Deus Pai

Romanos 11.33-36

No primeiro estudo da Fé Batista Livre – O que cremos sobre a Bíblia Sagrada, vimos:

ü  1º) Que a Bíblia é a revelação de Deus à humanidade;
ü  2º) Que a Bíblia é totalmente inspirada por Deus; e
ü  3º) Que a Bíblia é a única fonte de autoridade para governar a vida cristã.

Terminamos com a seguinte afirmação de Picirilli:
Os cristãos são, portanto, obrigados diante de Deus a viver sob o governo da Sua Palavra. A Bíblia é a fonte de autoridade para os nossos objetivos como também para os nossos métodos, para o exercício do nosso amor e da nossa disciplina, para tanto a nossa doutrina quanto a nossa conduta.

Nosso estudo de hoje é sobre Deus Pai, com o tema: O que cremos sobre Deus Pai. Veremos esse assunto em três pontos: 1º) Cremos que Ele é conhecível, mas incompreensível exaustivamente; 2º) Cremos que Ele possui atributos comunicáveis e incomunicáveis; 3º) Cremos no Seu relacionamento com a humanidade.

I. Cremos que Ele é conhecível, mas incompreensível exaustivamente

Picirilli é categórico em afirmar que podemos realmente conhecer a Deus. Mas, esse conhecimento de Deus, que temos, está limitado às informações corretas sobre as coisas que Ele escolheu revelar a nós em Sua Palavra.[1]

Sendo a Bíblia a revelação escrita e proposicional de Deus, ela precisa ser examinada para que possamos ter uma compreensão correta daquilo que Deus revelou de si mesmo. (Cf. Jo 5.39; 1Tm 4.13; 1Co 2.9, 10) Embora haja um limite, pois as coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre... (Dt 29.29), o profeta Oséias insiste para que conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR. (Os 6.3a)

Quando conhecemos o que é verdadeiro, estamos aptos para detectar o que é fraudulento.  Por isso, o saudável para a fé cristã é dedicar-se a conhecer o Deus vivo e verdadeiro. Portanto, para facilitar nossa compreensão de Deus, em conformidade com o que ele mesmo revelou, veremos algumas descrições:

1. Deus é um ser único – A primeira coisa que um cristão precisa saber sobre Deus é que ele é único. Não há mais de um Deus. Só existe um único Deus vivo e verdadeiro! (Cf. Dt 6.4; Dt 32.39; 1Rs 8.60; 1Co 8.5, 6; Gl 3.20; 1Tm 2.5) Assim, de acordo com os textos citados, o ensino de que Deus é único, está presente tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento.

Embora a Bíblia revele a existência de três pessoas divinas – Pai, Filho e Espírito Santo, ela revela também que há um só Deus. Ele é infinito e eterno, e subsiste em três pessoas de uma só natureza. O ensino sobre a Trindade não é irracional, mas está além de nossa capacidade de compreensão (é suprarracional), é um mistério da fé.

Quando a Bíblia fala de outros deuses, ela deixa claro que esses não são deuses de fato, mas criados pela imaginação humana, desvirtuada pelo pecado. Esses deuses criados pela mente pecaminosa do homem são chamados ídolos e descritos nas Escrituras como obras das mãos de homens – Salmo 96.5; Salmo 115.4-8.

A Bíblia fala ainda deles como: Nulidade – Jr 2.5; Detestáveis e abomináveis – Ez 7.20; Contamináveis de idolatria – Ez 20.31; Inúteis – Hc 2.18, 19; Nada é, sem valor algum – 1Co 8.4, 10.19. O que está por traz dos ídolos, não é somente a mente humana, mas, também, uma operação demoníaca – 1Co 10.20.

2. Deus é um ser espiritual – Significa que Ele é espírito imaterial (não é composto de matéria ou elementos físicos), incorpóreo (não possui “corpo”) e invisível (não pode ser visto por olhos humanos).[2] (Cf. Jo 4.24; Jo 1.18; 1Tm 1.17; 6.15, 16)

Mas, há na Bíblia passagens que dão a entender que Deus possui aspectos físicos, como mãos e pés, e casos em que Ele aparece em forma física no Antigo Testamento. Entende-se isso de dois modos: 1º) como antropomorfismos, isto é, tentativas de expressar a verdade acerca de Deus por meio de analogias humanas; e 2º) como teofanias ou manifestações temporárias de Deus[3] – são apenas aparições, não a essência de Deus.

3. Deus é um ser pessoal – Significa que “Ele é um ser individual, com autoconsciência e vontade, capaz de sentir, escolher e ter um relacionamento recíproco com outros seres pessoais e sociais”.[4] Isso indica que Deus é uma personalidade e a Bíblia mostra isso de várias maneiras. Vou citar apenas duas: 1ª) Deus tem nome – Pelo seu nome Ele deveria ser conhecido, invoca e respeitado – Êx 3.14; 4.26; 20.7; Sl 20.7, 9; 2ª) Deus se relaciona – A Bíblia descreve um Deus que conhece e tem um relacionamento de comunhão com pessoas humanas – Gn 3.8-11; 18.17-33.

4. Deus é um ser infinito – Significa que Ele “é ilimitado e ilimitável quanto ao tempo, espaço, conhecimento e poder”[5]. Ele não faz parte da criação, mas é o Criador. Ele nunca é limitado na Sua vontade ou ações por algo exterior a Si mesmo, portanto, é Soberano.[6]

A infinitude de Deus, também, fala de dois outros aspectos do seu ser: 1º) Sua transcendência – que é o fato de que Ele é totalmente distinto e independente da sua criação. A Bíblia ensina claramente que, antes que o universo fosse criado, Deus já existia – Sl 90.2. Deus não somente existia antes que houvesse o mundo e o universo, mas ele mesmo foi o Criador e é o sustentador – Gn 1.1; Hb 1.3. Deus está infinitamente acima dos seres criados, racionais e irracionais, e também de toda natureza – Is 55.8, 9; e 2º) Da sua imanência – que é a capacidade que Deus, mesmo sendo infinito e eterno, tem de se relacionar conosco, seres finitos e imperfeitos. A Bíblia é bastante clara ao mostra que Deus está próximo de nós e se interessa profundamente por nós – Jr 23.24; Is 55.6. A Escritura apresenta um Deus que se importa conosco, cuida de nós por meio de sua providência e se encarnou, fazendo-se um de nós, igual em tudo, exceto no pecado – Hb 4.15; 1Pe 2.22-24. O caráter imanente de Deus é expresso no Novo Testamento de uma forma linda no nome Emanuel: Deus conosco – Mt 1.21.

Apesar de Deus revelar tudo isso na Escritura, e um pouco mais, a sua grandeza é demais para nós, a ponto do salmista declarar: Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir. (Salmo 139.6) Por isso precisamos crer nele, pois sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam. (Hebreus 11.6)

A incompreensibilidade de Deus, também, esta revelada na Bíblia em textos, tais como: Romanos 11.33, 34; Jó 36.26; Isaías 40.28.

II. Cremos que Ele possui atributos comunicáveis e incomunicáveis[7]

Apesar de ser possível fazer uma distinção entre a natureza e os atributos de Deus para efeitos de estudo, eles não podem realmente ser separados. Seus atributos são simplesmente um aspecto de Sua essência. Deus não tem “partes”. Estudamos os Seus atributos separadamente por conta de nossa incapacidade de compreensão. Sua essência e seus atributos são idênticos.

Existem várias maneiras de classificar os atributos de Deus. Todos são métodos humanos e um pode ser tão bom quanto o outro. Vou fazer uma lista de quatorze na ordem de minha preferência, mas outros podem ter listas maiores ou menores e com nomes que podem variar um pouco dos meus.

1. Atributos incomunicáveis de Deus – São aqueles que revelam características que somente Deus possui e, portanto, apontam para o Seu caráter Absoluto e Supremo sobre todas as coisas. Recebem esse nome porque são virtudes que não são comunicadas ou transmitidas por Deus à natureza humana. Picirilli os chama de atributos amorais, aqueles que não se referem diretamente ao relacionamento com Suas criaturas. Eles mostram algo que não vivenciamos e nem somos, pois fazem parte da natureza divina.

a. Aqueles cuja nomenclatura mostram algo que não vivenciamos:

ð Auto existência – Deus não veio a existir por outro ser. Ele nem é a causa de Si mesmo, pois existe necessariamente. Ele simplesmente existe!

ð Singularidade – Deus não é plural ou muitos. Ele é numericamente um e único.

ð Simplicidade – Deus não é composto por partes, nem é complexo ou divisível.

ð Imutabilidade – Deus não muda: é imutável em Sua essência, atributos, propósito e consciência.

b. Aqueles cuja nomenclatura mostra algo que não somos: (Estes explicam a infinidade de Deus, o fato de não estar sujeito aos limites que nós vivenciamos)

ð Eternidade – Deus não é limitado pelo tempo. Ele existe eternamente, como podemos perceber pela necessidade de Sua existência.

ð Onipresença – Deus não é limitado pelo espaço. Ele transcende as limitações espaciais e está presente em todos os lugares da natureza ao mesmo tempo.

ð Onipotência – Deus não é limitado em Seu desejo de fazer o que deseja de acordo com a Sua natureza. Ele possui todo o poder.

ð Onisciência – Deus não é limitado em Seu conhecimento. Ele tem conhecimento perfeito de tudo: passado, presente e futuro. Ele conhece até mesmo os fatos contingentes, mas o seu conhecimento dos acontecimentos não são a causa deles. Ele conhece tudo intuitiva e imediatamente.

ð Soberania – Deus não é limitado no uso da Sua vontade. Seus atos não são condicionados por qualquer coisa ou qualquer pessoa fora de Si mesmo. Todas as Suas ações são totalmente livres; Ele presta contas somente a Si mesmo. Mesmo o mau moral está sujeito ao Seu governo e, portanto, Ele o permite, não sendo ele a sua causa.

2. Atributos comunicáveis de Deus – São assim chamados porque ao criar o ser humano à sua imagem e semelhança, aprouve a Deus comunicar-lhes ou transmitir-lhes esses atributos, embora em medida infinitamente menor. Picirilli os chama de atributos morais, porque estes refletem principalmente o relacionamento de Deus com as suas criaturas. Quando uma pessoa se converte, observamos a reciprocidade entre os atributos comunicáveis de Deus e os atributos correspondentes no ser humano – Cf. 1João 4.19.

ð Sabedoria – Deus é perfeitamente capaz de discernir os melhores fins e de escolher os melhores meios para alcançar estes fins.

ð Santidade – Deus possui majestade suprema e transcendência absoluta. Isto inclui Sua pureza absoluta, separação do mau e ira santa contra o pecado.

ð Justiça – Deus recompensa o bem com perfeição e pune o mau. Em ambos os casos ele é perfeitamente justo.

ð Verdade (o que inclui Sua fidelidade) – Deus conhece toda a verdade e sempre fala e age em verdade. Portanto, Ele sempre cumpre Sua palavra.

ð Bondade – Deus é absolutamente bom e isto inclui uma variedade de palavras como: amor, graça, misericórdia, longanimidade, paciência e benevolência.

Os atributos incomunicáveis de Deus apontam para sua transcendência e nos convidam à reverência, admiração e ao louvor ao nosso Deus Criador e Sustentador! Os atributos comunicáveis de Deus nos convidam à comunhão com Ele que é a fonte de tudo o que é bom, justo e santo em todo o universo!

III. Cremos no Seu relacionamento com a sua criação

O relacionamento de Deus com a sua criação envolve o seu governo e a sua providência como criador e sustentador soberano de todas as coisas.

Como Criador significa que Ele trouxe à existência todo o universo pela Sua palavra falada (Cf. Gn 1.3, 6, 9, 11, 14, 20, 24). Como Preservador significa que Ele sustenta a existência da natureza pela Sua vontade (Cf. Hb. 1.3). Como Governador significa que Ele governa e controla tudo para a realização da Sua vontade ou do Seu propósito (mesmo o mau que Ele permite que exista).[8]

Veja comigo o que diz o Manual de Fé dos Batistas Livres:[9]

1.    Deus exerce cuidados e superintendência providenciais sobre todas as Suas criaturas e governa o mundo em sabedoria e misericórdia, consoante o testemunho de Sua Palavra.

2.    Deus dotou o homem com a faculdade do livre arbítrio e o governa mediante leis e motivos morais: essa faculdade do livre arbítrio é a medida exata da responsabilidade humana.

3.    Todos os acontecimentos são pré-conhecidos por Deus, de eternidade a eternidade: mas o conhecimento antecipado não é a causa deles. Deus também não decreta todos os eventos que Ele sabe de antemão que acontecerão.

1. [10]A Providência de Deus – significa a atividade de Deus em cuidar de e prover pela natureza. Um dicionário o define como: “o cuidado ou a direção benévola de Deus”. Isto significa o Seu cuidado pelo mundo físico, plantas, animais e seres humanos.
Aspectos da providência de Deus incluem: 1º) O sustento ou a preservação de todas as coisas criadas – Deus mantém o universo funcionando. Nada existe ou age sem a atividade sustentadora de Deus; 2º) O controle providencial ou governo de Deus – Tudo o que acontece no universo está sob o controle de Deus. Ele age de forma bem sucedida para os fins que Ele ordenou. Sua vontade final para todas as coisas nunca é frustrada.

Deus é criador e preservador de tudo. Tudo que existe, existe por Sua vontade, seja pela Sua direção ativa ou pela Sua permissão deliberada. Isto inclui tudo o que acontece. Nada acontece fora do Seu plano ou fora da Sua preservação e sustento de todas as coisas. Nada está fora do Seu controle. Nenhuma força existe, a não ser as que são subordinadas a Ele e governadas por Ele para o propósito último de realizar a Sua vontade. (Cf. Jó 42.2; Rm 10.36; Mt 10.29)

2. Liberdade e responsabilidade humana – A Liberdade humana faz parte da dotação de Deus ao homem. Quando Deus providencialmente sustenta e governa o homem, Ele o faz de maneira tal que respeita a capacidade humana de livre escolha.

Por enquanto, é suficiente dizer que um aspecto muito importante do propósito de Deus para o universo é que os seres humanos sejam livres para decidir se desejam servi-lo ou viver em desobediência a Ele. Existem pelo menos duas implicações disto: 1ª) Como soberano, Deus criou o homem para ter a capacidade do livre arbítrio, Sua soberania não é impugnada pelo exercício desta liberdade; e 2ª) Quer a pessoa decida pela salvação ou rejeite-a, como ela é oferecida em Cristo, esta pessoa está em certo sentido realizando a vontade última de Deus de que ela tenha a liberdade de tomar esta decisão.

Portanto, pela nossa perspectiva, um Deus que pode governar um universo onde existem seres que livremente tomam decisões morais e, mesmo assim, ainda realiza a Sua vontade, é um Deus maior do que o Deus que mantém o controle através de robôs que não podem fazer nada mais do que lhe obedecer. O livre arbítrio humano é a medida exata de sua responsabilidade.

3. Presciência de Deus e liberdade humana – Deus conhece tudo, inclusive todos os acontecimentos futuros; mesmo as decisões livres dos homens quando poderiam decidir por mais de uma opção. Ele conhece de antemão até os atos pecaminosos do homem.

É isto que o Manual quer dizer quando afirma: “Todos os acontecimentos são pré-conhecidos por Deus, de eternidade a eternidade”, isto é, Deus conhece todas as coisas que ocorrerão, tanto as boas quanto as más. Mas, o Manual faz uma importante observação aqui: “mas o conhecimento antecipado não é a causa deles”.

O que desejamos mostrar é que o conhecimento não é causativo. Da mesma forma que o meu conhecimento de um acontecimento passado não tem nenhum efeito causativo nele, o conhecimento de Deus de um acontecimento futuro também não tem efeito causativo.

Deus é tão grandioso que pode governar o universo onde realmente há contingências, onde realmente há liberdade, onde as pessoas realmente podem decidir por duas alternativas. Ele pode ainda assegurar que tudo neste universo funcione infalivelmente para a realização final de tudo a que Ele se propôs.

Resumindo: Deus é o governador soberano e absoluto do universo, tendo criado e agora sustentando e governando-o com sucesso para a realização de Sua vontade. É da Sua vontade que os seres humanos sejam livres e morais e Ele assim os imbuiu. Todo o seu governo, no que diz respeito aos seres humanos, funciona de tal forma que Ele é totalmente bem sucedido em realizar os Seus propósitos como também respeita perfeitamente a liberdade e a responsabilidade do homem.

(Cf. Salmo 139.1-18; Hb 4.13; Jó 42.2)

Concluindo

Quero concluir nosso estudo, de hoje, com as palavras do Artigos de Fé sobre Deus:[11]

Há um só Deus vivo e verdadeiro, sendo revelado na natureza como o Criador, Preservador e Governador Justo do universo; e nas Escrituras como Pai, Filho, e Espírito Santo, ainda como um só Deus, infinitamente sábio e bondoso, a quem todas as criaturas inteligentes devem supremamente amar, adorar, e obedecer.

Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira – 08/03/15



[1] Picirilli, Robert E. Estudo da Doutrina Batista Livre, Lição 2 – O que cremos sobre Deus, p. 1.
[2] Picirilli, p. 2.
[3] Erickson, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática, Vida Nova, 2008, p. 108.
[4] Ibid., p. 109.
[5] Ibid., p. 111.
[6] Picirilli, p. 2, 3.
[7] Picirilli, p. 3-5. (Neste ponto o estudo segue a Lição 2, Ponto II. Os Atributos de Deus, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas)
[8] Picirilli, p. 5.
[9] Manual de Fé e Prática dos Batistas Livres do Brasil, 4ª Edição, 2014, 2ª Parte – A Fé dos Batistas Livres do Brasil, p. 11.
[10] Picirilli, p. 5-11. (Neste ponto o estudo segue a Lição 2, Ponto III. Governo e Providência de Deus, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas)
[11] Manual, p. 29.