terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Estudo Bíblico em João 13 - (1) O estilo de vida marcado pelo amor doador

Estudos Bíblicos em João 13
João 13.1-5
O estilo de vida marcado pelo amor doador

Introdução

Para muitos cristãos o Evangelho de João é o livro mais precioso do Novo Testamento. Como literatura, ele é a biografia mais fascinante de Jesus. Teologicamente, o texto mais profundo acerca da divindade de Jesus.

Para efeitos didáticos pode ser divido em três partes: 1ª) Parte – O Ministério Público de Jesus, seus discursos e seus milagres – João 1-12; 2ª) Parte – O Ministério Particular de Jesus, suas instruções aos discípulos mais íntimos – João 13-17 – os quais estava preparando para serem seus apóstolos, oferecendo um conjunto de prioridades pelas quais deveriam pautar suas vidas sob a orientação do Espírito Santo; e 3ª) Parte – A Paixão de Jesus, o Filho de Deus, sua missão redentora é vindicada por sua morte expiatória e sua ressurreição – João 18-21.

Meu objetivo é estudar o capítulo de 13 com os irmãos. Esse capítulo faz parte dos capítulos (13-17) que os comentaristas chamam de a Sementeira das Epístolas do Novo Testamento, pelo fato de que, praticamente, todas as doutrinas desenvolvidas nelas estão originalmente presentes nos ensinos de Jesus nesses cinco capítulos.

Como o ensino de Jesus não era apenas teórico, mas prático, também, houve espaço para que os discípulos fizessem perguntas. Eles fizeram sete perguntas a Jesus:

1)   João 13.6 – Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, e este lhe disse: Senhor, tu me lavas os pés a mim?
2)   João 13.25 – Então, aquele discípulo, reclinando-se sobre o peito de Jesus, perguntou-lhe: Senhor, quem é?
3)   João 13.36 – Perguntou-lhe Simão Pedro: Senhor, para onde vais?
4)   João 13.37 – Replicou Pedro: Senhor, por que não posso seguir-te agora?
5)   João 14.5 – Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?
6)   João 14.22 – Disse-lhe Judas, não o Iscariotes: Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao mundo?
7)   João 16.17, 18 – Então, alguns dos seus discípulos disseram uns aos outros: Que vem a ser isto que nos diz: Um pouco, e não mais me vereis, e outra vez um pouco, e ver-me-eis; e: Vou para o Pai? Diziam, pois: Que vem a ser esse –  um pouco? Não compreendemos o que quer dizer.

O discipulado, como vemos aqui, “não acontece pelo viéis do discurso, mas do diálogo, pela conversação”.[1] Jesus, na formação dos seus discípulos, aproveitou todas as oportunidades que surgiram no cotidiano deles e daí, do ensino da vida diária, extraiu o conteúdo para a formação adequada, apresentando-os “com uma argumentação simples, direta e não abstrata”[2].

Em João 13, vemos Jesus em quatro relacionamentos: 1) com seu Pai celestial – vv.1-5; 2) com Simão Pedro – vv.6-11; 3) com todos os discípulos – vv.12-17; e 4) com Judas Iscariotes – vv.18-35). Em parte dessa, podemos descobrir uma mensagem especial, uma verdade espiritual para nos ajudar em nossa vida cristã.[3]

Em João 13.1-5, quando Jesus começa a lavar os pés dos 12 discípulos, ele ensina que a melhor maneira de sermos parecidos com Ele é servindo como Ele serviu, isto é, assumindo o Seu estilo de vida que foi marcado pelo amor doador.

“John Stott, refletindo sobre o discípulo radical afirma que a semelhança com Cristo é o propósito de Deus para o seu povo. O propósito eterno (Rm 8.29), o propósito histórico (2Co 3.18) e o propósito escatológico de Deus (1Jo 3.2) é nos transformar à semelhança de Jesus”[4].

Nos vv.1-3, João enfatiza o que Jesus sabia e estava sentindo naquele momento, enquanto nos vv.4, 5, ele enfatiza o que Jesus fez. Diante disso, surgem três perguntas: Em seu estilo de vida marcado pelo amor doador: 1ª) O que Jesus sabia naquele momento? 2ª) O que Jesus sentiu naquele momento? 3º) O que Jesus fez naquele momento?

Em seu estilo de vida marcado pelo amor doador:

I. O que Jesus sabia naquele momento? (v.1-3)

1. Ele sabia que era chegada a sua hora de morrer – v.1a. (Jo 12.23; 17.1) Jesus sabia que "era chegada a sua hora". Mais do que qualquer evangelista, João ressaltou como Jesus viveu dentro de um "cronograma divino" e fez a vontade do Pai. Observe o desenvolvimento desse tema:[5]

ð 2.4b – Ainda não é chegada a minha hora.
ð 7.30b – ...porque ainda não era chegada a sua hora.
ð 8.20b – ...porque não era ainda chegada a sua hora.
ð 12.23 – É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado.
ð 13.1b – ... sabendo Jesus que era chegada a sua hora...
ð 17.1a – Pai, é chegada a hora...

Qual era a "hora" determinada por Deus? Era a hora em que Cristo seria glorificado por meio de sua morte, ressurreição e ascensão.[6]

2. Ele sabia que Judas iria traí-lo – v.2. (v.11, 27)

3. Ele sabia da sua exaltação – v.3. A exaltação aqui compreendia toda a autoridade no céu e na terra e a consciência da sua origem e do seu destino eterno. (Mt 28.18)

É impressionante como o Evangelho de João revela a humildade de Jesus, mesmo quando exalta sua divindade – cf. Jo 5.19, 30; 6.38; 7.16; 8.50; 14.24). E sua expressão suprema de humildade foi a morte na cruz.[7]

4. Ele sabia da discussão dos discípulos sobre quem deles seria o maior – Lc 22.24.
“O poder é algo sedutor. Principalmente o poder sobre seres humanos. A sede pelo poder desperta e alimenta nos homens os sentimentos mais primitivos. O poder pode destruir ou criar. Dependendo do caráter do indivíduo, haverá diferentes formas ou apresentações do poder. Se tivermos uma pessoa de bom caráter, o poder será exercido em favor dos outros. Se tivermos uma pessoa de má índole, o poder será expresso de uma forma manipuladora e maléfica”.[8]

II. O que Jesus sentiu naquele momento? (v.1b)
“... tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.”

1. Amor pelos seus que estavam no mundo. Temos aqui dois aspectos importantes do amor de Jesus:

a.    Primeiro aspecto – o amor salvador pela humanidade – João 3.16; Tt 2.11-14.

b.   Segundo aspecto – o amor cuidadoso pelos seus filhos – Hb 12.1-13.
c.       Jesus, em sua oração em João 17, mostra esses dois aspectos do amor de Deus – Jo 17.6-19; 20-21.

2. A expressão “amou-os até o fim” tem dois significados:

a.    1º) indica intensidade – amor ao máximo, completo, pleno, absoluto, perfeito, sem reservas.

b.   2º) indica temporalidade – amou até ao fim da sua vida humana perfeita.

“A mola mestra da vida de Jesus foi o amor. Tudo que Jesus fez foi por amor.
Jesus amou aos doze, de forma inabalável, até a sua consumação na cruz,
onde Ele ama ao extremo”.[9]

III. O que Jesus fez naquele momento? (v.4, 5)

O que Jesus sabia e sentiu naquele momento, determinou a sua atitude. Olhando esses versículos entendemos que “a verdadeira história da Paixão já começou na última ceia de Jesus com seus discípulos. O lava-pés torna-se símbolo de toda a ação de Jesus em sua Paixão. Jesus demonstra que o verdadeiro amor não vive de palavras, mas atitude, e sua voz pode ser uma lágrima ou um brilho no olhar”.[10]

A atitude de Jesus ensina três lições: de um estilo de vida marcado pelo amor doador:

1. Primeira Lição: O amor doador é ação – só Jesus tomou a iniciativa de lavar os pés – v.4, 5a. (Mc 10.43-45)

2. Segunda Lição: O amor doador é humilde – “o amor de Jesus torna-se visível em sua ternura e ações de humildade”[11]. (v.4, 5 – Conf.: Fp 2.5-8)

3. Terceira Lição: O amor doador é altruísta – v.4, 5. Qual a recompensa de Jesus por lavar os pés dos seus discípulos? (Rm 5.8)

Concluindo

O discípulo de Jesus, que se torna discipulador, “precisa cultivar um amor doador, sendo altruísta, um amor que não procura seus interesses. Jesus amou os seus discípulos o tempo todo, embora soubesse que um deles era o traidor, outro o negaria e todos o abandonariam na cruz. O amor sempre esteve presente nos seus relacionamentos, palavras e atitudes, suportando, tolerando, perdoando e purificando”[12].

Antes de deixá-los, Jesus expressou o seu amor por eles de forma extraordinária e assim revelou para todas as gerações de cristãos que o fundamento de toda a vida de um discípulo dele, bem como o seu serviço no reino de Deus é o amor genuíno.
Para aplicação:

Três lições, de um estilo de vida marcado pelo amor doador:

1. Primeira Lição: O amor doador é ação.
Então, vamos agir ao invés de ficar esperando outros agirem!

2. Segunda Lição: O amor doador é humilde.
Então, vamos agir sem desejar aplausos!

3. Terceira Lição: O amor doador é altruísta – v.4, 5.
Então, vamos agir sem esperar retorno!

Pr. Walter Almeida Jr.
IBLA – Jd. das Palmeiras
Dezembro de 2016




[1] Lima, Josadak. O Padrão do Mestre, AD Santos, 2012, p. 2.
[2] Ibid., p. 3.
[3] Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo – Novo Testamento 1 – João, Ed. Geográfica, 2007, p. 443.
[4] Casimiro, Arival Dias, Estudos Expositivos em João – Capítulo 12 a 21, 2011, p. 12.
[5] Wiersbe, p. 443.
[6] Wiersbe, p. 443.
[7] Wiersbe, p. 444.
[8] Josadak, p. 8.
[9] Ibid., p. 5.
[10] Ibid., p. 6.
[11] Ibid., p. 7.
[12] Ibid., p. 5.

domingo, 14 de agosto de 2016

Estudos no livro do Profeta Oseias (6) - Sem arrependimento e confissão, não há perdão.

Oseias 6-7

Em nosso estudo anterior vimos:

O capítulo 5 com o tema: Uma dura mensagem de Deus – juízo, disciplina e restauração. Abordamos o assunto em dois pontos: 1º) O juízo de Deus contra a apostasia e imoralidade do seu povo – vv.1-7; e 2º) A disciplina radical de Deus com o propósito de restaurar o seu povo – vv.8-15.

Terminamos com a seguinte afirmação de Hernandes: Deus disciplina aqueles a quem ama. O propósito divino não é a destruição do seu povo, e sim a sua restauração. A disciplina é amarga, mas traz cura. Ela é dolorosa, mas restaura.

No capítulo 5, Oseias profetizou sobre “o irremediável juízo de Deus aos impenitentes reinos de Israel e Judá, dizendo que seria para eles como traça que ataca por dentro e como leão que ataca por fora (cf. 5.12-15). Diante do castigo iminente, o povo esboça uma reação de volta para Deus, sinalizando uma conversão ao Senhor”.[1] Porém, o texto “mostrará que a conversão de Israel foi superficial. Na verdade, não houve tristeza pelo pecado, e sim pesar pelas consequências do pecado. Israel queria livrar-se do castigo, mas não estava disposto a desvencilhar-se dos seus erros”.[2]

Hoje, vamos estudar os capítulos 6 e 7 com o tema: Sem arrependimento e confissão, não há perdão. Trataremos o assunto em dois pontos: 1º) O engano do falso arrependimento – 6.1-11; e 2º) O estilo de vida hipócrita e o pecado descrito em metáforas – 7.1-16.

I. O engano do falso arrependimento – 6.1-11

Oseias contrasta as palavras de Israel e seu arrependimento verbal com as ações que praticavam. Era o que o povo fazia, e não o que dizia, que demonstrava a atitude do coração.[3] Mas, Deus já esperava esse subterfugio hipócrita e desmascarou não apenas sua falsidade, mas também a maneira pecaminosa como trataram o Senhor.[4]

Todo o arrependimento forçado é notoriamente superficial e logo abandonado quando as coisas melhoram um pouco. A história mostra que o excelente ideal dos vv.1-3 não se cumpriu. Israel desviou-se demais e tornou-se incapaz de ser remido.[5] Ao ler essas palavras, tem-se a impressão de que a nação está sinceramente arrependida e buscando ao Senhor, mas ao ver o que Deus diz, percebe-se como a confissão do povo era, na verdade, superficial.[6]
O que Deus esperava era uma genuína conversão, manifestada pelo arrependimento (até que eles admitam sua culpa – 5.15a) e pela fé (eles buscarão a minha face – 5.15b). O arrependimento e a fé são os dois elementos da conversão. O arrependimento é o reconhecimento da culpa, enquanto a fé é a volta para Deus para depositar nele inteira confiança (6.1).[7]

Hernandes fala dos sinais e perigos dessa falsa conversão de Israel:[8]

1. Arrependimento superficial – vv.1-3. Por que o arrependimento de Israel foi superficial? 1º) Porque queria livrar-se das consequências do pecado, e não do pecado (v.1); 2º) Porque queria respostas imediatas sem um aprofundamento da sua experiência com Deus (v.2); e 3º) Porque a busca pelo conhecimento de Deus visava mais as bênçãos de Deus do que o Deus das bênçãos (v.3).

2. Amor Inconstante – v.4, 5. Seu amor por Deus era epidérmico, vacilante, instável e passageiro. Não havia sinceridade em conhecer ao Senhor nem constância em amá-lo. Algumas verdades devem ser aqui destacadas: 1ª) Deus não se impressiona com palavras bonitas, ele vê o coração – v.4; 2ª) A palavra de Deus, que deveria salvá­-los, é enviada para castigá-los – v.5; e 3ª) Aqueles que rejeitam a misericórdia terão de enfrentar o juízo – v.5b.

3. Culto fingido – v.6. O falso arrependimento de Israel e sua conversão superficial consistiam numa manifestação religiosa, com abundantes sacrifícios, mas desacompanhada de uma vida santa. Não havia conexão entre o culto e a vida. O povo de Israel queria substituir piedade por religiosidade. Queria substituir quebrantamento por desempenho; amor verdadeiro por pomposos rituais. Algumas verdades podem ser aqui observadas: 1ª) O culto que agrada a Deus manifesta-se numa relação correta com o próximo – v.6a; e 2ª) O culto que agrada a Deus manifesta-se numa relação correta com Deus – v.6b.

4. Aliança quebrada – v.7. Israel viola sua aliança com Deus e se comporta aleivosamente contra o Senhor. Destacamos aqui duas verdades: 1ª) Uma infidelidade clamorosa – v.7a; e 2ª) Um comportamento traidor – v.7b.

5. Violência desumana – vv.8, 9. O povo não se voltou para Deus de verdade, mas se voltou para a violência com toda força. Destacamos aqui dois pontos: 1º) Os lugares sagrados que deveriam pro­teger da violência promovem a violência – v.8; e 2º) Os ministros sagrados que deveriam proteger o povo exploram e matam o povo – v.9.

6. Imoralidade contagiosa – vv.10, 11. A idolatria levou o povo à imoralidade. Essa imoralidade contaminou Israel e atingiu Judá, que também num breve espaço de tempo sofreria amargas consequências. Chamamos a atenção para dois pontos: 1º) O pecado do povo de Deus é mais grave do que o pecado dos ímpios – v.10; e 2º) O pecado do povo de Deus é mais contagioso que o pecado dos ímpios – v.11.

II. O estilo de vida hipócrita e o pecado descrito em metáforas – 7.1-16

Os sacerdo­tes, os reis, os príncipes e todo o povo capitularam à iniquidade e à devassi­dão. Em vez de voltar-se para o Senhor, aprofundavam-se ainda mais no pecado. Em vez de buscar socorro no Altíssimo, voltavam-se para as superpotências es­trangeiras para fazer alianças insensatas. Anestesiados por seus pecados, pensan­do tolamente que Deus não via as suas mazelas, Israel alimentou a soberba no coração.[9] Numa série de símiles e metáforas vividas, Oseias revela o verdadeiro caráter do povo de Deus.[10]

Antes de usar as metáforas para revelar o pecado, Oseias faz três observações: 1ª) O povo tem um relacionamento errado com Deus – v.1a; 2º) O povo tem um relacionamento errado com os homens – v.1b; e 3º) O povo perdeu o temor e o pudor – vv.2-4a.

O profeta Oseias usa quatro símiles para descrever o amadurecimento de Israel para o juízo.[11]

1. Um forno aceso – vv.4-7. Os sacerdotes e os reis perderam completamente o refe­rencial da santidade e da decência. As mazelas da nação começaram nos templos religiosos e nos palácios. Oseias descreve com cores vivas a inclinação desses líderes para o pecado. Todo o quadro de Oseias 7.3-7 coloca a perfídia sacerdotal contra a credulidade real.

Temos aqui cinco pontos para a reflexão: 1º) Uma paixão ardente pela sensualidade – v.3; 2º) Um descontrole total pela bebedeira – v.5; 3º) Uma maquinação constante para o mal – v.6; 4º) Uma conspiração contínua para matar – v.7; e 5º) Uma apostasia generalizada – v.7b.

A apostasia que começara nos templos e passara pelo palácio estava agora em todas as famílias. Nenhum dos líderes sacerdotais clamou a Deus em busca de alguma solução real. Todos os demais recursos foram tentados: invasão militar (5.8-12), intriga interna­cional (5.13), arrependimento falso (6.1-3) e conspiração assassina (6.7-9; 7.3-7). A que ponto chega um povo quando seus líderes religiosos confiam em uma série de homens perversos e incompetentes para proporcionar salvação e depois os matam quando falham? O maior pecado deles é que queriam seguir o próprio caminho sem Deus.

2. Um pão que não foi virado – vv.8-10. Oseias descreve o amadurecimento de Israel para o juízo e usa mais uma figura doméstica, comparando agora Efraim a um pão encruado, ou seja, um pão que não foi virado. O que essa figura sugere? Quatro pontos para reflexão: 1º) Um povo que é influenciado em vez de influenciar – v.8; 2º) Um povo ignorante que trabalha, mas não desfruta os frutos do seu labor – v.9a; 3º) Um povo que envelhece, mas não ama­durece – v.9b; e 4º) Um povo que se volta, mas para a direção errada – v.10.

O pecado de Israel o levou à soberba, e a soberba é a sala de espera do fracasso. A soberba precede a ruína. A soberba é o corredor da queda. Mesmo no aperto, Israel preferiu buscar o falso refúgio das alianças políticas a voltar-se para o Senhor, seu Deus (vv.7, 9, 10, 13-15). Mesmo diante das nuvens escuras se formando no horizonte, anunciando a iminente chegada do cativeiro, Israel preferiu alimentar-se da soberba a se humilhar sob a mão divina.

3. Uma pomba enganada – vv.11-15. Oseias deixa a figura doméstica para usar uma figura campestre. Depois de comparar Israel a um forno aceso e a um pão encruado, agora o compara a uma pomba enganada. A pomba é uma ave inocente e volúvel. Ela não tem noção de perigo.

Para entendermos essa figura, destacamos aqui cinco fatos acerca de Israel: 1º) Um povo que corre para o refúgio errado em vez de buscar a Deus – v.11; 2º) Um povo que recebe castigo em vez de bênção – v.12; 3º) Um povo que recebe destruição em vez de redenção – v.13; 4º) Um povo que corre atrás de coisas, mas não anseia por Deus – v.14; 5º) Um povo que responde ao cuidado divino com ingratidão, e não com obediência – v.15.

Como um Pai, Deus adestrou, ensinou e fortaleceu Israel, mas em vez de demonstrar gratidão diante de tão acendrado amor e tão generoso cuidado, Israel maquinou contra Deus para trocá-lo por outros deuses.

4. Um arco enganoso – v.16. Oseias conclui com uma figura de guerra. Essa é a mais forte das figuras, porque o arco era uma arma de guerra. A situação agora era uma questão de vida ou morte. Um arco enganoso não podia atingir o povo. Um arco enganoso não podia ser arma de ataque nem de defesa. Um guerreiro com um arco enganoso estaria completamente vulnerável, à mercê de seus inimigos.

Dois fatos acerca de Israel para nossa reflexão: 1º) Porque o povo não se voltou para Deus, tornou-se vulnerável nas mãos de seus inimigos – v.16a; e 2º) Porque os príncipes não se arrependeram de seus pecados, foram mortos em seus pecados – v.16b.

Por causa da queda dos príncipes, os israelitas foram escarnecidos na terra do Egito. Foram ridicularizados porque se vangloriaram de serem fortes e caíram diante da Assíria. A presunção de Israel desembocou na sua humilhação!

Concluindo

Ao misturar-se com os povos vizinhos, Israel perdeu a própria identidade. Muitas igrejas hoje são tentadas a imitar o mundo com o propósito de atrair o mundo. Isso é um ledo engano. A igreja é sal e luz. Ela é totalmente distinta do mundo e só assim pode influenciá-lo. O nosso relacionamento com o Senhor deve ser completo e não apenas parcial. A obra da graça divina deve permear todo o nosso ser, de modo que nossa mente, coração e forças sejam dedicados a ele. A transigência com o mundo leva a uma conduta desequilibrada e a um caráter imaturo. Podemos ter muita doutrina e poucos atos, muito credo e pouca conduta, muita crença e pouco comportamento, muitos princípios e pouca prática, muita ortodoxia e pouca ortopraxia.[12]

Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira – 13/08/16



[1] Lopes, Hernandes Dias. Oséias – O amor de Deus em ação, Editora Hagnos, p. 115.
[2] Lopes, p. 115.
[3] Lawrence, Richards. Comentário Bíblico do Professor, Editora Vida, 2004, p. 523.
[4] Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento V. 4 – Oséias, Ed. Geográfica, p. 399.
[5] Champlin, R. N. O Antigo Testamento Interpretado, Volume 5 – Oseias, p. 3459.
[6] Wiersbe, p. 399.
[7] Lopes, p. 116.
[8] Lopes, p. 116-125. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[9] Lopes, p. 131.
[10] Wiersbe, p. 399.
[11] Lopes, p.134-144. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[12] Lopes, p. 143.

domingo, 7 de agosto de 2016

Estudos no livro do Profeta Oseias (5) - Uma dura mensagem de Deus – juízo, disciplina e restauração.

Oseias 5.1-15

Em nosso estudo anterior vimos:

Que os capítulos 4 a 14 contém as profecias de Oseias. Suas mensagens à geração de sua época se originaram em sua própria dolorosa experiência familiar. Elas fluem juntamente e uma divisão definida, em seções lógicas, não é fácil de traçar.

Estudamos o capítulo 4 com o tema: Depravação Total. Abordamos o assunto em três pontos: 1º) Degradação moral – vv.1-3; 2º) Apostasia religiosa – vv.4-17; e 3º) Corrupção política – vv.18, 19.

Terminamos com a resposta de Deus a atitude do seu povo no v.6, onde Ele falou duas coisas:  1ª) ... porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim – v.6b. Ele tiraria a primazia que eles tinham diante dos outros povos, que era o seu ministério sacerdotal; e 2ª) ... e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos – v.6c. Ele esqueceria seus filhos, ou seja, que o povo como tal deixaria de usufruir da presença imediata do Senhor.

O capítulo 5 do livro de Oseias é uma mensagem dura aos sacerdotes, ao povo e à casa do rei. A consciência de Israel se entorpeceu, sua visão se escureceu, seu testemunho acabou, e seu concerto com Deus se rompeu.[1]

Wiersbe diz que a passagem é um resumo final das sentenças que Deus, o Juiz, aplicou a todos os acusados. Condenou os líderes por enredarem pessoas inocentes e explorá-las. Não havia justiça na terra. Estavam afundando cada vez mais em pecado e não tinham o poder de se arrepender e de voltar para Deus, pois seus pecados os paralisavam.[2]

A causa disso era sua falta de conhecimento do Senhor (v.4; cf. 6.3) e sua arrogância, que só os fazia tropeçar e cair (v.5; cf. Pv 16.18). Mesmo que chegassem até o Senhor com rebanhos inteiros para sacrificar, Deus não iria ao encontro deles, pois havia se afastado de seu povo. Rejeitou seus filhos ilegítimos, e suas festas mensais logo se tornariam funerais.[3]

Hoje, vamos estudar o capítulo 5 com o tema: Uma dura mensagem de Deus – juízo, disciplina e restauração. Trataremos o assunto em dois pontos: 1º) O juízo de Deus contra a apostasia e imoralidade do seu povo – vv.1-7; e 2º) A disciplina radical de Deus com o propósito de restaurar o seu povo – vv.8-15.

I. O juízo de Deus contra a apostasia e imoralidade do seu povo – vv.1-7

O juízo de Deus é anunciado aos sacerdotes, aos príncipes e ao povo, ou seja, o juízo é anunciado à liderança religiosa, política e ao povo que os seguia (v.1). Portanto, este é um solene, geral e urgente chamado de Deus aos líderes e ao povo.[4]

1º) O juízo de Deus para a liderança religiosa – v.1a. Os sacerdotes corromperam seu ofício sagrado. A função deles era ensinar ao povo a verdade de Deus, ou seja, todos os estatutos que o Senhor lhes havia falado por intermédio de Moisés (cf. Lv 10.11). Os sacerdotes eram mensageiros do Senhor dos Exércitos, que deviam guardar o conhecimento para instruir o povo, mas esses sacerdotes desviaram-se do caminho e fizeram tropeçar o povo (cf. Ml 2.7, 8).

2º) O juízo de Deus para a liderança política – v.1c. Os reis precisavam governar promovendo a verdade e a justiça, mas eles patrocinaram tanto a heresia quanto a violência. Naquela época a realeza atuava como patrocinadora dos santuários e protetora do sacerdócio (cf. Am 7.13). Porém, em vez de proteger o povo, os governantes oprimiam-no e em vez de governar para o povo, governavam em benefício próprio. Tornaram­-se agentes do erro religioso, da decadência moral e da injustiça social.

3º) O juízo de Deus para o povo – v.1b. Embora a liderança religiosa e política da nação capitaneasse essa corrida para longe de Deus, o povo tornou-se culpado por seguir essa liderança apóstata. O povo seguiu seus maus exemplos (v.2). Voluntariamente se corrompeu, entregando-se às práticas de idolatria e imoralidade.

Hernandes destaca sete pontos importantes para reflexão nos vv.1-7:

1º) Quando a liderança se afasta de Deus, torna-se um perigo para os seus liderados, em vez de bênção – v.1; 2º) Quando a liderança abandona a ver­dade, ela se corrompe moralmente – v.2; 3º) Quando a liderança entra pelo caminho da apostasia, ela perde o conhecimento de Deus – vv.3, 4; 4º) Quando a liderança perde o conhecimento de Deus, ela se torna prisioneira dos maus hábitos – v.4; 5º) Quando o povo despreza o conhecimento de Deus, orgulha-se do pecado em vez de chorar por ele – v.5; 6º) Quando o povo abandona a verdade de Deus, ele substitui a piedade pela religiosidade – v.6; 7º) Quando o povo se afasta de Deus, ele é destruído pelo próprio sincretismo religioso – v.7.

II. A disciplina radical de Deus com o propósito de restaurar o seu povo – vv.8-15

Wiersbe diz que estava chegando o dia do juízo, quando as cidades de Israel seriam conquistadas pelo exército invasor dos assírios e os cidadãos seriam levados para o cativeiro (v.9). A decomposição interior de Israel era como a destruição oculta e lenta causada pela traça (v.12), mas a vinda dos assírios era como o ataque súbito e evidente de um leão (v.14). Os dois eram inevitáveis e ambos trariam ruina.[5]

Israel e Judá eram nações fracas e doentes (cf. Is 1.5, 6; Jr 30.12, 13), mas em vez de se voltarem para o Senhor em busca da cura, as duas pediram socorro ao rei da Assíria (v.13). Precisavam de oração e de verdadeiro arrependimento, mas em vez disso, confiavam na política e em tratados inúteis. Ao Senhor só restava afastar-se e esperar que o buscassem em verdade e humildade.[6]

Os juízos que cairão sobre Israel e Judá não são acidentes da história; não procedem da agenda dos poderosos impérios. É o próprio Deus quem levanta a Assíria e a Babilônia para disciplinar o seu povo. É o próprio Deus quem entrega o seu povo a essas nações impetuosas. Deus é o agente tanto da disciplina quanto da restauração.[7]

Hernandes destaca seis pontos importantes para reflexão nos vv.8-15:

1º) A disciplina de Deus será imediata e irremediável – v.8; 2º) A disciplina de Deus trará profunda desolação para aqueles que viveram deliberadamente no pecado – vv.9, 11; 3º) A disciplina de Deus é inevitável sobre aqueles que praticam a desonestidade – v.10; 4º) A disciplina de Deus atinge o seu povo tanto interna quanto externamente – vv.12, 14; 5º) Aqueles que não se submetem à disciplina de Deus acabam buscando ajuda naqueles que vão oprimi-los – v.13; 6º) A disciplina de Deus tem como propósito a restauração, e não a destruição do seu povo – v.15.

Concluindo

Deus disciplina aqueles a quem ama. O propósito divino não é a destruição do seu povo, e sim a sua restauração. A disciplina é amarga, mas traz cura. Ela é dolorosa, mas restaura. David Hubbard ainda acrescenta: O juízo, por mais severo que seja, não pretende aniquilar os dois reinos, mas conduzi-los ao arrependimento, conforme indica com clareza a expressão até que, do v.15.[8]


Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira – 06/08/16



[1] Lopes, Hernandes Dias. Oséias – O amor de Deus em ação, Editora Hagnos, p. 99, 100.
[2] Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento V. 4 – Proféticos – Oséias, Ed. Geográfica, p. 398.
[3] Wiersbe, p. 398.
[4] Lopes, p. 100-107. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[5] Wiersbe, p. 398, 399.
[6] Wiersbe, p. 399.
[7] Lopes, p. 107-113. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[8] Lopes, p. 113.