domingo, 17 de julho de 2016

Estudos no livro do Profeta Oseias (3) - O juízo divino, a preparação para a restauração e a restauração amorosa

Oseias 2.2-3.5

Em nosso estudo anterior vimos:

ð A primeira parte do primeiro ponto do livro: Fidelidade e Infidelidade –  Oseias e Gômer – 1.4-3.5, com o tema: A proclamação do juízo divino e a promessa de restauração. Abordamos o assunto em dois pontos: 1º) A proclamação do juízo divino1.4-9; e 2º) A promessa de restauração1.10-2.1.

ð Terminamos afirmando que a estrutura do livro nos ajuda a alcançar pelo menos três coisas: 1ª) Mostra que o plano de Deus é unificado – Ele não é um oportunista que fica observando o que vai acontecer; 2ª) Mostra o movimento da ação do início ao fim, em ordem cronológica, da harmonia à desarmonia e a volta da harmonia entre o Senhor e Israel (2.7b); e 3ª) Mostra como os eventos em torno do casamento de Oseias estão ligados à sua mensagem sobre Deus e seu povo.

Hoje, vamos ver a segunda parte do primeiro ponto livro com o seguinte tema: O juízo divino, a preparação para a restauração e a restauração amorosa2.2-3.5. Trataremos o assunto em três pontos: 1º) O juízo divino2.2-13; 2º) A preparação para a restauração2.14-23; e 3º) A restauração amorosa3.1-5.

O texto começa com repreensão e termina com restauração. O Deus da disciplina é também o Deus da restauração. Podemos sintetizar esse parágrafo com dois termos: vale de Acor e porta da esperança. Deus rejeita Israel: é este o vale de Acor. Deus reivindica Israel: esta é a porta da espe­rança.[1]

I. O juízo divino – 2.2-13

Oseias se distingue como o profeta do amor, mas ao contrário de alguns mestres de hoje, não minimiza a santidade de Deus. A Bíblia diz que "Deus e amor" (1Jo 4.8, 16), mas também nos lembra de que "Deus e luz, e nao há nele treva nenhuma" (1Jo 1.5). O amor de Deus e um amor santo e nao um sentimento piegas que mima o pecador e que é conivente com o pecado. O profeta concentra-se em três pecados específicos: a idolatria (adultério espiritual), a ingratidão e a hipocrisia[2] pelos quais veio o juízo divino sobre Israel.

1. Idolatria – infidelidade e engano – vv.2-5

a. Infidelidade – vv.2-5a – Deus fala aos filhos e lhes diz para repreender sua mãe por sua infidelidade.[3] A relação de Deus com Israel era como uma aliança conjugal. Israel havia se casado com o Senhor no Sinai. Israel prometeu a Deus fidelidade. Porém, logo se desviou da aliança e começou a flertar com outros deuses. Não tardou para que Israel abandonasse a Deus, seu marido, para prostituir-se com outros deuses. A idolatria é infidelidade a Deus. E rompimento da aliança. E quebra dos votos de fidelidade. A idolatria é uma torpeza.[4]

A adoração pagã envolvia ritos sensuais de fertilidade, e para isso havia prostitutos cultuais de ambos os sexos. A idolatria era sinônimo de prostituição tanto no sentido literal quanto no simbólico. A infidelidade ao Senhor e um pecado grave, assim como a infidelidade dentro do casamento.[5]

Assim como Israel foi tentado a abandonar Deus e a buscar os ídolos, a Igreja e tentada pela mentalidade do mundo que odeia Deus e que nao quer nada com ele. Devemos ter cuidado para nao amar o mundo (1Jo 2.15-17), para nao ser amigos do mundo (Tg 4.4), para nao ser maculados pelo mundo (Tg 1.27) e para nao nos conformar com o mundo (Rm 12.2). Cada cristão e cada igreja local devem permanecer fieis a Jesus Cristo, o Noivo, até que ele volte para buscar sua noiva para as bodas celestes. (cf. 2Co 11.1-4; Ef 5.22-33; Ap 19.6-9).[6]

b. Engano – v.5b[7]Aqueles que se entregam à idolatria, Deus os entrega ao engano de seus corações. Eles ouvem a resposta de seus ídolos mortos (4.12b) para a sua própria destruição. Israel correu atrás dos ídolos, seus amantes, e atribuiu a eles as dádivas que vinham das mãos de Deus.

Portanto, Israel declara o propósito de buscar seus amantes (ídolos): obter pão e água (o alimento necessário), lã e linho (o vestuário), óleo e bebidas (o deleite); esquecendo-se de que todas essas coisas eram de Deus e vinham de Deus.

Esse baalismo praticado pelos israelitas desprezava a religião espiritual que o Senhor dos céus e da terra, o Redentor de Israel, exigia do seu povo. Essa religiosidade focada no material, na prosperidade financeira mais do que nas coisas espirituais, está de volta em nossos dias com outras roupagens – teologia da prosperidade.

2. Ingratidão – vv.6-8

Deus tinha todo o direito de abandonar seu povo, mas, em vez disso, escolheu discipliná-lo.[8] Sua resposta à infidelidade de Israel não foi destruir a nação de imediato, mas dar início a um programa de reeducação espiritual.[9] Nesse processo, Israel, experimenta uma insatisfação crônica e um vazio frustrante nos seus amantes (ídolos), e toma a decisão de voltar-se para Deus. O Senhor, porém, destaca que a motivação da volta não é o verdadeiro arrependimento. Não é Deus que Israel busca nessa volta, mas as bênçãos de Deus. Eles querem coisas, não Deus. O povo de Israel está centrado em si mesmo, e não em Deus. O antropocentrismo, e não o teocentrismo, é o vetor dessa volta interesseira.[10]

É impressionante o número de vezes nas Escrituras que o povo de Deus e admoestado a ser grato. Há pelo menos quinze passagens em que somos ordenados a dar graças ao Senhor, e o Salmo 100.4 e Colossenses 3.15 nos exortam a gratidão. Tanto Jesus quanto Paulo serviram de exemplo ao dar graças ao Senhor por suas bênçãos. Um dos primeiros passos para a rebelião contra Deus e recusar-se a dar graças por suas misericórdias (cf. Rm 1.21). Deus não permitirá que desfrutemos suas dádivas e, ao mesmo tempo, ignoremos o Doador, pois essa e a essência da idolatria.[11]

O povo de Israel estava usando as riquezas pessoais na fabricação de ídolos e na manutenção da adoração a Baal. O pecado de ignorar o autor das bênçãos de Israel ficava mais sério ao desperdiçar os próprios recursos dados por Deus. No seu pecado contra o amor de Deus, Israel aumenta ainda mais sua ofensa, não apenas ignorando o verdadeiro doador, como também cumulando o usurpador com os bens do doador.[12]

Deus abençoou o seu povo mesmo quando esse povo atribuiu essas dádivas generosas aos ídolos. Deus supriu as suas necessidades e lhes deu em abundância mesmo quando Israel não reconheceu a Deus como seu provedor. Deus lhes deu bens provindos de outras terras, prata e ouro, mas eles usaram esses recursos para Baal, e não para Deus. Que grande perversidade é tomar as dádivas de Deus e usá-las para adorar falsos deuses! Mas, a ingratidão de Israel, contudo, não anulou a generosidade de Deus.[13]

3. Hipocrisia – vv.9-13

A hipocrisia e infidelidade de Israel lhe custou muito caro. Ao deixar seu legítimo Deus para ir atrás dos muitos ídolos, Israel entrou num caminho escorregadio de perdas irreme­diáveis.

Hernandes Dias Lopes, destaca, aqui, as trágicas consequências desse doloroso divórcio:[14]

1º) A privação material (2.9, 12). O profeta Oseias deixa claro que os bens que Israel egoisticamente pensava pertencer-lhe por direito (2.5) eram bens de Deus (2.9), e Deus, seu legítimo dono, os tomaria de volta.

Os deuses de Canaã eram em grande parte padroeiros da fertilidade. As pessoas sentiam-se tentadas a pedir a sua ajuda para obter os melhores resultados na lavoura, imaginando que Deus não teria muitas condições de tratar desse assunto.

2º) O vexame moral (2.10a). O agente dessa exposição vexatória de Israel é o próprio Deus. Ele mesmo mostrará aos ídolos pagãos a situação vergonhosa em que Israel se encontra. A degradação moral de Israel seria algo escandaloso, vergonhoso até mesmo entre os pagãos.

3º) A impotência assistencial (2.10b). Em vez de Israel voltar­-se para Deus, seu verdadeiro marido, corria para os ídolos, seus amantes, em busca de prosperidade e atrás de alianças políticas com o Egito e a Assíria para obter segurança. No entanto, nenhuma entidade religiosa nem qualquer potência militar poderiam livrar Israel das mãos de Deus. Sua situação era irremediável. Sua vulnerabilidade vinha do próprio Deus.

4º) A decadência espiritual (2.11). Deus enviaria o povo para o cativeiro, e lá suas celebrações festivas, distorcidas e cheias de sincretismo, cessariam por completo. Aqui são mencio­nados especificamente os sábados, as luas novas e as festas solenes, provavelmente as três festividades anuais que re­queriam a presença de todos os varões: a Páscoa, o Pentecostes e os Tabernáculos. Essas festas tinham perdido o seu significado para um povo idólatra, adúltero, apóstata. A alegria vinculada a elas seria perdida quando o povo fos­se para o cativeiro assírio. Essas festividades tinham sido corrompidas pela adoração a Baal (2.13) e não eram mais desejadas por Deus.

5º) o castigo proporcional (2.13). Quanto mais Israel se esquecia de Deus, tanto mais se entregava à volúpia de sua inflamada paixão pelos ídolos. Agora, Deus castigaria o seu povo pelos dias dos baalins. O sofrimento era inevitável. O pecado pode ser perdoado, mas as suas consequências não podem ser apagadas. Corretamente o profeta, numa linguagem inconfundível, sintetiza a maldição e a desgraça por causa da desobediência de Israel: tudo o que lhe restará serão a nudez, o deserto, a fome, a sede, a vergonha, a tristeza, a solidão e a ruína.

II. A preparação para a restauração – 2.14-23

Oseias foi um dos homens mais amorosos de todos os tempos, escreveu Kyle M. Yates. Seu amor era tão intenso que nem os comportamentos mais vis podiam arrefecê-lo [...] Gômer partiu o coração dele, mas possibilitou que o profeta desse ao mundo um retrato do coração do Deus amoroso.[15]

[16]A iniciativa da reconciliação é de Deus. E Deus quem corteja, conquista e atrai Israel para si. É como o início de um novo namoro, de um novo noivado e de um novo casamento. Cheio de ternura, Deus leva Israel para a solidão do deserto para falar-lhe ao coração. O próprio Deus, no seu eterno amor, quem vai acordar a nação entorpecida para reconhecer a tragédia da sua infidelidade.

Deus dá seis passos decisivos nessa reconquista: eu a atrairei, levarei e lhe falarei ao coração (v.14), eu lhe darei (v.15), da sua boca tirarei (v.16, 17), desposar-te-ei comigo (vv.18-20), eu atenderei (v.21, 22) e eu semearei e me compadecerei (v.23).

Na restauração do casamento de Oseias e Gômer, temos seis verdades sobre a restauração da aliança entre Deus e Israel, destacadas aqui: 1ª) Deus transforma desespero em espe­rança (v.15); 2ª) Deus transforma infidelidade em fide­lidade (v.16); 3ª) Deus transforma a linguagem obscena e liberta de memórias infiéis (v.17); 4ª) Deus transforma instabilidade em segurança (v.18); 5ª) Deus transforma separação amarga em casamento permanente (v.19, 20); 6ª) Em sexto lugar, Deus transforma maldição em bênção (v.21-23).

Portanto, agora tudo mudou: Deus muda a sorte dos filhos de Israel. Jezreel não será mais disperso, mas semeado na terra. Desfavorecida não será mais abandonada, mas alvo da graça. Não-Meu-Povo não será mais estranho, mas povo de Deus. A promessa é que Lo-Ruama, será Ruama e que Lo-Ami será Ami. Toda maldição será não apenas desviada, mas transformada em bênção. Deus não será trocado mais por outros deuses, mas será chamado: Meu Deus! Onde havia juízo, agora há misericórdia; onde havia maldição, agora há bênção.

III. A restauração amorosa – 3.1-5

[17]O amor de Deus transborda nessa passagem. Não é o amor de Oseias por Gômer que retrata o amor de Deus; é o amor de Deus por Israel que inspira o amor de Oseias por Gômer. Não é o amor do homem que exemplifica o amor de Deus; é o amor de Deus que se torna padrão para o amor do homem.

O amor é, sem dúvida, a palavra­-chave desse capítulo. O amor de Oseias por sua esposa o estimula a redimi-la, a purificá-la e a trazê-la de volta para a sua casa e o seu co­ração. Embora Oseias tivesse justificativas para se divorciar de Gômer (cf. Dt 24.1), a ordem do Senhor a ele mostra que a graça é maior que a lei.

O texto fala do passado (vv.1-3), do presente (v.4) e do futuro de Israel (v.5). No passado, Deus amou Israel, redimiu-o do Egito e fez uma aliança com ele (cf. Êx 4.22; Am 3.1, 2). Porém, Israel abandonou ao seu Deus e se envolveu com muitos deuses. Tornou-se uma nação infiel, adúltera e prostituta. Degradou-se, a ponto de tornar-se uma escrava. Deus, porém, não desistiu de amar a Israel. Seu amor o impeliu a comprá-lo de volta (cf. Zc 3.2). No presente, Israel está sem rei, sem príncipe e sem sacrifício, e isso desde o cativeiro assírio, babilônico e a dispersão romana. Desde que Israel escolheu a César como seu governo e rejeitou o Cristo de Deus é que vive privado desses privilégios. No futuro, os filhos de Israel tornarão para Deus, buscarão ao Senhor e se aproximarão dele e da sua bondade.

No v.1, Israel olhou para outros deuses, mas no v.5, a nação voltará para o verdadeiro Deus. A busca será ao seu Deus e a Davi, seu rei, na pessoa do seu filho mais importante, o Senhor Jesus Cristo. Quatro verdades fundamentais são apresentadas no capítulo 3: o amor perdoador, redentor, disciplinador e restaurador de Deus.

1. O amor de Deus é perdoador – v.1. Lições desse amor: 1ª) o amor de Deus é perseverante (3.1a); 2ª) o amor de Deus é incondicional (3.1b); 3ª) o amor de Deus é sacrificial (3.1c); 4ª) o amor de Deus é modelo (3.1d); 5ª) o amor de Deus é fiel (3.1e).

2. O amor de Deus é redentor – v.2. Lições desse amor: 1ª) o amor redentor valoriza o que o pecado degradou; 2ª) o amor redentor investe em quem o pecado desprezou; 3ª) o amor redentor anseia por comunhão e nao apenas por possessão.

3. O amor de Deus é disciplinador – vv.3, 4. Lições desse amor: 1ª) o amor disciplinador exige mudança de conduta (3.3a); 2ª) o amor disciplinador implica promessa de reconciliação (3.3b); 3ª) o amor disciplinador inclui a privação de privilégios (3.4a); 4ª) o amor disciplinador requer o abandono de toda prática de idolatria (3.4b).

4. O amor de Deus é restaurador – v.5. Lições desse amor: 1ª) o amor restaurador atrai os desviados (3.5a); 2ª) o amor restaurador preserva a aliança (3.5b); 3ª) o amor restaurador aponta para uma gloriosa consumação (3.5c).

Concluindo

[18]Os verbos-chave da profecia de Oseias são voltar, tornar e converter-se. Quando Israel se arrepender e tornar ao Senhor, então o Senhor tornara a abençoar Israel (cf. Os 2.7, 8). Deus tornou a seu lugar e deixou Israel sozinho (cf. Os 5.15), até que, angustiado, ele o busque (cf. Os 6.1).

Esta é a mensagem de Oseias: Povo de Israel, volte para o SENHOR, seu Deus! Você caiu porque pecou. Voltem para Deus e orem assim: “Perdoa todos os nossos pecados, ouve a nossa oração, e os nossos louvores serão o sacrifício que te ofereceremos. (Os 14.1, 2 NTLH).

Essa oração é apropriada para qualquer pecador, judeu ou gentio. Em resumo: Deus é cheio de graça, e seja qual for o nome que recebermos ao nascer, ele pode mudá-lo e nos dar um recomeço. Até mesmo o vale da dificuldade pode transformar-se numa porta de esperança.

Deus é santo e deve tratar do pecado. A essência da idolatria é desfrutar as dádivas, mas não honrar o Doador. Viver para o mundo é partir o coração de Deus e cometer adultério espiritual. Deus é amor e promete perdoar e restaurar todos os que se arrependerem e que voltarem para ele. Promete, ainda, abençoar todos os que confiarem nele.

Pr. Walter Almeida Jr.




[1] Lopes, Hernandes Dias. Oséias – O amor de Deus em ação, Editora Hagnos, p. 47.
[2] Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento V. 4 – Proféticos – Oséias, Ed. Geográfica, p. 393.
[3] Wiersbe, p. 393.
[4] Lopes, p. 50.
[5] Wiersbe, p. 393.
[6] Wiersbe, p. 393.
[7] Lopes, p. 50, 51. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[8] Wiersbe, p. 393.
[9] Carson, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova, Oseias, Editora Vida Nova, 2009, p. 1155.
[10] Lopes, p. 52.
[11] Wiersbe, p. 393, 394.
[12] Lopes, p. 52.
[13] Lopes, p. 52.
[14] Lopes, p. 53-55. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[15] Wiersbe, p. 394.
[16] Lopes, p. 56-61. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[17] Lopes, p. 63-75. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[18] Wiersbe, p. 395, 396. Esse ponto segue literalmente o comentário nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.

sábado, 9 de julho de 2016

Estudos no livro do Profeta Oseias (2) - A proclamação do juízo divino e a promessa de restauração

Oseias 1.4-2.1

Em nosso estudo de introdução vimos:

(1) Uma rápida introdução ao estudo dos Profetas Menores

ð Os profetas foram chamados por Deus para falar ao povo em tempos de crise. Sua função principal era chamar o povo de volta aos caminhos de Deus, à sua adoração e à moralidade. A função de enxergar o que iria acontecer no futuro servia duas funções: (1ª) alertar ao povo sobre as consequências de seu comportamento e (2ª) servir como autenticação de que o profeta falava realmente da parte de Deus.
ð Em nossa Bíblias os escritos dos profetas se dividem em dois grupos: 1) Profetas Maiores – que são cinco; e 2) Profetas Menores – que são doze.
ð Os livros proféticos devem ser estudados dentro de seu contexto histórico. O contexto maior das mensagens dos profetas é o dos três sucessivos impérios que dominaram o Oriente Próximo entre o oitavo e o quarto séculos antes de Cristo: o Império Assírio, o Babilônico e o Persa.
ð O período dos profetas termina na mesma época em que a civilização grega atinge seu ponto alto ou seus anos dourados, entre 500 e 400 a.C.. E depois disso, por uns 400 anos, até o nascimento de Jesus, não houve profetas em Israel.

(2) A introdução ao livro do profeta Oseias

ð Oseias é o primeiro dos últimos doze livros do Antigo Testamento e o mais extenso deles. Sua profecia é entregue no período de maior prosperidade financeira e também no tempo de maior decadência espiritual.
ð Oseias profetizou, possivelmente, durante uns quarenta anos, isto é, mais ou menos de 760 a 720 a.C., começando uns cinco anos antes do fim do reinado de Jeroboão II, rei de Judá (783 a 743 a.C.), e terminando uns cinco anos antes da conquista de Samaria, a capital do Reino do Norte, pelos assírios em 722 a.C.
ð Russell Norman Champlin diz que o tema do profeta é quádruplo: a idolatria de Israel, a sua iniquidade, o seu cativeiro e a sua restauração. Israel é retratado profeticamente como a esposa adúltera de lavé, que em breve seria colocada fora, mas que finalmente seria purificada e restaurada.[1]
ð A triste experiência conjugal do profeta o faz compreender e a proclamar, com vigor e eloquência, o amor de Deus para com o seu povo desobediente e rebelde (4-14).
ð As verdades mais importantes do livro são: 1ª) Deus sofre quando seu povo lhe é infiel; 2ª) Deus não pode tolerar o pecado; e 3ª) Deus nunca deixará de amar os seus e, consequentemente, quer que os que o abandonaram voltem para ele.[2]
ð E estudamos os primeiros três versículos com o tema: o profeta, a sua mensagem e a sua esposa.

Hoje vamos começar a estudar o primeiro ponto do livro: Fidelidade e Infidelidade –  Oseias e Gômer – 1.4-3.5. Começaremos pelo texto 1.4-2.1 com o tema: A proclamação do juízo divino e a promessa de restauração.

Já temos visto que o livro de Oseias fala de julgamento e esperança. Cada uma das três partes principais do livro começa com a ameaça de juízo divino sobre Israel (Os 1.2-2.13; 4.1-10.15; 12.1-13.16) e termina com a promessa de restauração divina (Os 2.14-3.5; 11.1-11; 14.1-9).[3]

I. A proclamação do juízo divino – 1.4-9

Se o casamento de Oseias com Gômer retratava o amor de Deus a um povo ingrato e infiel, os filhos de Oseias representavam o juízo de Deus a esse povo. O casal teve três filhos: Jezreel, Lo-Ruama e Lo-Ami. Esses são nomes carregados de simbolismo.[4] Assim como os dois filhos de Isaías (cf. Is 7.3; 8.3) e muitas outras pessoas na Bíblia, os três filhos de Gômer receberam nomes significativos escolhidos pelo Senhor.[5]

a. vv.4, 5 – O juízo divino a todo povo –  O nome do primogênito de Oseias era Jezreel e significa Deus semeia ou Deus dispersa, isto é, esse significado pode ser positivo ou negativo[6] (cf. 1.1; 2.22, 23). Era “o nome de um vale entre as montanhas de Samaria e da Galiléia, um famoso campo de batalha de Israel”[7]. Havia ali uma cidade da tribo de Issacar onde Jeú exterminou a família de Acabe (cf. 2Rs 9.10). Jezreel foi um campo de sangue, um lugar de chacina, “uma expressão que frequentemente significa matança ou homicídio”[8] onde Jeú executou o juízo de Deus sobre os membros da casa de Acabe. O problema de Jeú é que ele foi além do que Deus o mandou fazer (cf. 2Rs 9-10). Ele errou quanto à forma, quanto à motivação e quanto à essência. E agora chegara a hora de Deus castigar a casa de Jeú pelo sangue de Jezreel.[9]

Elias havia predito que a família do Acabe seria destruída devido a sua maldade (cf. 1Rs 21.20-22). Como Jeú foi muito longe ao cumprir a ordem de Deus (cf. 2Rs 10.1-11), pois seus motivos foram influenciados por interesse próprio, a sua dinastia também seria castigada no Jezreel, o mesmo lugar onde levou a cabo o massacre da família de Acabe. A promessa de Deus de pôr fim a Israel como reino independente se cumpriu vinte e cinco anos mais tarde, em 722 a.C., quando os assírios conquistaram o reino do Norte e levaram cativo o seu povo.[10]

Jezreel tinha um duplo significado: 1º) Os pecados cometidos no vale de Jezreel por Jeú seriam punidos e Israel experimentaria a derrota terrível. O sangue de Jezreel é uma referência à tentativa pouco sábia de Jeú de defender a causa do Senhor matando todos os adoradores de Baal (cf. 2Reis 10.1-11); e 2º) Depois que o povo de Israel fosse disperso por causa do pecado, Deus o plantaria ou semearia novamente em sua própria terra.[11]

Em juízo Deus disse: E naquele dia quebrarei o arco de Israel no vale de Jizreel (v.5). O arco aqui representa o poder militar ou bélico (cf. Gn 49.24) do Reino de Israel, que logo chegaria ao fim. Um arco quebrado era sinal de impotência.[12]

b. vv.6, 7 – O juízo divino será sem misericórdia –  O segundo filho de Oseias com Gômer foi uma menina a quem o Senhor deu o nome de Lo-Ruama que significa Desfavorecida ou Não-amada. A filha do casal recebeu esse nome destinado a dizer ao povo de Israel que não havia possibilidade de misericórdia. Como a "desfavorecida" ela simbolizava a situação angustiosa do Reino do Norte, que pecara contra Deus e estava amadurecida para o juízo.[13]

Deus havia amado seu povo e provado esse amor de várias maneiras, mas retiraria a demonstração desse amor e deixaria de ser misericordioso. A expressão do amor de Deus certamente e incondicional, mas só desfrutamos esse amor de acordo com nossa fé e obediência (cf. Dt 7.6-12; 2Co 6.14-7.1). Deus permitiria que os assírios tomassem o reino do Norte, mas protegeria o reino do Sul, Judá (cf. Is 36-37; 2Rs 19).[14]

A profecia de Oseias foi cumprida na destruição de Israel por Sargão II (2Rs 17). Ao mesmo tempo em que puniu a Israel, Deus prometeu compadecer-se do Reino do Sul e salvá-lo por intermédio de seu braço forte. Isso aconteceu na tentativa de invasão da Assíria em Jerusalém, no reinado de Ezequias. Deus dispersou o inimigo e livrou seu povo, mas Israel não teve o mesmo destino (cf. Is 37.1-38).[15]

c. vv. 8, 9 – O juízo divino mais devastador – a rejeição. O terceiro filho do casal recebeu o nome Lo-Ami e significa literalmente Não-meu-povo. Esse nome dado pelo Senhor significa a mais devastadora palavra de juízo, porque fala da rejeição de Deus a Israel. Israel deixaria de ser povo eleito de Deus.

Deus não apenas removeria sua misericórdia de seu povo, mas também renunciaria a aliança que havia feito com ele. Seria como um homem divorciando-se de sua esposa e dando as costas a ela ou como um pai rejeitando o próprio filho (cf. Êx 4.22; Os 11.1).[16]

Portanto, Israel não seria mais o povo de Deus, nem Deus seria mais o Deus de Israel. Era o fim da linha. Era a tragédia consumada. Israel podia ser nominalmente do Senhor, mas na realidade era filha do seu tempo e de seu mundo pagão. Da mesma forma, Deus podia ser nominalmente o seu Deus; mas, considerando que ele não aceita ser partilhado, a presença de outros deuses nega categoricamente esse relacionamento.[17]

No Sinai, Israel fizera a aliança de se constituir o povo do Senhor e Ele de ser o seu Deus (cf. Êx 19.1-7). Repetidas vezes Israel transgrediu a aliança e aqui Oséias profeticamente declara que seria rejeitada. Não seria uma rejeição permanente (cf. Os 2.3), mas resultaria no Exílio e na destruição do Reino do Norte como entidade política.[18]

II. A Promessa de Restauração – 1.10-2.1

De acordo com a promessa (cf. Gn 15.5, 6) o número dos filhos de Israel seria como a areia do mar. Oseias pronunciou o juízo sobre o Israel não arrependido, mas apresenta a promessa da redenção final. O povo, embora dizimado pelo inimigo, seria numericamente reavivado e seria novamente chamado de filhos do Deus.[19]

Portanto, de modo repentino, Oseias passa da tragédia para a promessa. No meio do julgamento, o Senhor se lembrou da misericórdia. Da escuridão do desespero brota a luz da esperança. Na ira, Deus se lembra da sua misericórdia e faz promessas de restauração ao seu povo. Os três oráculos desastrosos são totalmente alterados. O nome de cada filho é transformado, passando de sinal de juízo para sinal de graça.[20]

Aqui entra em cena a graça de Deus, pois um dia Deus mudara esses nomes. "Nao-Meu-Povo" se tornara "Meu Povo", "Desfavorecida" passara a ser "Favor". Esses novos nomes refletem uma nova relação entre Deus e a nação, pois todos serão "filhos do Deus vivo". Judá e Israel se unirão como uma só nação e se submeterão ao governante de Deus, reparando uma divisão que durou séculos. Em vez de ser um lugar de matança e de julgamento, "Jezreel" será um lugar de semeadura, em que Deus semeara seu povo com júbilo e em sua própria terra e os fara prosperar.[21] Portanto, os três filhos de Oseias com Gômer não apenas nos ensinam sobre o juízo divino, mas, também, nos ensinam sobre a graça de Deus.

Aqui, Oseias reúne palavras de muito conforto às suas sombrias predições. Nos vv. 1.10-2.1, o profeta promete cinco grandes bênçãos a Israel: 1) crescimento nacional (1.10a); 2) conversão nacional (1.10b); 3) reunião nacional (1.11a); 4) direção nacional (1.11b); e 5) restauração nacional (2.1).[22]

Hernandes Dias Lopes, destaca aqui quatro pontos importantes:[23]

1º) A restauração é iniciativa de Deus, e não do povo (1.10a). É Deus quem toma a iniciativa de restaurar o seu povo. E Deus quem muda a sua sorte.

2º) A restauração é maior do que a queda (v.10b). Em vez de Deus destruir seu povo, vai multiplicá-lo. Em vez de varrê-lo do mapa, vai ampliar seus horizontes. Em vez de limitá-lo, vai expandi-lo. Deus vai formar um novo Israel, procedente não apenas daqueles que têm o sangue de Abraão nas veias, mas a fé de Abraão no coração. Deus vai chamar de entre as nações um povo escolhido e peculiar.

3º) A restauração implica a reunião dos que foram separados (1.11). A divisão do reino nunca foi propósito de Deus. O rom­pimento com a dinastia davídica estava na contramão da vontade de Deus. A divisão provocada pelo homem seria reconciliada por Deus. Israel deveria novamente ser um só povo, um só reino. Essa reunificação seria obra divina, e não iniciativa humana.

Depois do cativeiro assírio e do cativeiro babilônico, não se fala mais em dois reinos. Aqueles que voltam do cativeiro formam o povo de Israel, embora nem todos tenham voltado desses exílios. Por conseguinte, essa profecia tem pleno cumprimento no futuro. De acordo com Romanos 11.25, 26, Deus ainda tem um plano de restauração espiritual para a nação de Israel. Embora Deus tenha um plano para a restauração espiritual do Israel étnico, duas vezes o Novo Testamento toma essa profecia e a confronta com uma multidão ainda maior, inclusive agora samaritanos e gentios, a quem Deus estava dizendo com motivos ainda melhores: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; E amada à que não era amada. (Rm 9.25; Os 2.23; cf. 1Pe 2.10; Rm 4.9-25; Gl 3.7, 8)

4º) A restauração implica o triunfo da misericórdia sobre a ira (1.11; 2.1). Jezreel não será mais lugar de massacre e juízo, mas de reunião e restauração. Deus reverte a situação. Cancela o juízo e concede misericórdia. Suspende o castigo e derrama graça.

David Hubbard coloca essa restauração prometida em quatro etapas: A primeira etapa é a volta do exílio (Os 11.10, 11). A volta foi vista como reunificação e restauração dos dois reinos. A segunda etapa acontece no nascimento de Jesus como o Messias, como cumprimento das promessas feitas a Abraão (Lc 1.55), a Davi (Lc 1.32, 33) e ao povo por intermédio dos profetas (Mt 1.23; 2.6). A terceira etapa é a formação da igreja (Rm 9.25, 26; 1Pe 2.10). A quarta etapa é a volta de Jesus Cristo, quando se dará a plena manifestação do amor soberano e do julgamento perfeito de Deus.

Wiersbe pergunta e responde: Quando se realizarão essas promessas da graça de Deus para os judeus? Quando reconhecerem seu Messias em sua volta, crerem nele e forem purificados (Zc 12.10-13.1). Então entrarão em seu reino, e as promessas dos profetas se cumprirão (Is 11-12; 32; 35; Jr 30-31; Ez 37; Am 9.11-15).

Concluindo

Oseias ainda tem muitos juízos a anunciar – 2.1-13 e a maior parte nos capítulos 4-14. Entretanto o livro é organizado de modo a fornecer um esboço de todo o plano de Deus nos capítulos 1-3 nos termos da metáfora marido-esposa, antes de continuar com profecias mais detalhadas.[24]

Essa estrutura ajuda a alcançar pelo menos três coisas: 1ª) Mostra que o plano de Deus é unificado – Ele não é um oportunista que fica observando o que vai acontecer; 2ª) Mostra o movimento da ação do início ao fim, em ordem cronológica, da harmonia à desarmonia e a volta da harmonia entre o Senhor e Israel (2.7b); e 3ª) Mostra como os eventos em torno do casamento de Oseias estão ligados à sua mensagem sobre Deus e seu povo.[25]

Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira - 10/07/16


[1] Lopes, Hernandes Dias. Oséias – O amor de Deus em ação, Editora Hagnos, p. 12.
[2] Bíblia de Estudo Scofield. Holy Bible, 2009, SP, p. 783.
[3] Lopes, p. 31.
[4] Lopes, p. 37.
[5] Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento V. 4 – Proféticos – Oséias, Ed. Geográfica, p. 392.
[6] Carson, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova, Oseias, Editora Vida Nova, 2009, p. 1153.
[7] Carson, p. 1153.
[8] Carson, p. 1153.
[9] Lopes, p. 38.
[10] Comentário da Bíblia Diario Vivir (ESP). Bible Software theWord, Oseias 1.4, 5.
[11] Moody, Comentário Bíblico. Oséias, p. 5.
[12] Moody, p. 5.
[13] Moody, p.5.
[14] Wiersbe, p. 392.
[15] Lopes, p. 40.
[16] Wiersbe, p. 392.
[17] Lopes, p. 41.
[18] Moody, p. 6.
[19] Moody, p. 6.
[20] Lopes, p. 42.
[21] Wiersbe, p. 392.
[22] Lopes, p. 42.
[23] Lopes, p. 42-45. Esse ponto segue literalmente o comentário do livro nas páginas já citadas, com cortes e acréscimos necessários ao ensino local.
[24] Carson, p. 1153.
[25] Carson, p. 1154.