domingo, 16 de agosto de 2015

Estudos Bíblicos na Carta aos Hebreus (3) - A humanidade perfeita de Jesus Cristo

Hebreus 2.5-18

Em nosso estudo anterior:

ð Vimos que Jesus é melhor e superior aos anjos pelas seguintes razões: 1) Os anjos são apenas anjos – Jesus Cristo é o Filho de Deus – v.5; 2) Os anjos são apenas adoradores – Jesus Cristo é o adorado – v.6; 3) Os anjos são apenas criaturas – Jesus Cristo é o Criador – vv.7-12; 4) Os anjos são apenas servos – Jesus Cristo é Rei – vv.13, 14.

ð Vimos, também, a exortação do autor para: (1) apegarmo-nos ao conteúdo da Palavra – v.1; (2) apegarmo-nos a autoridade da Palavra – vv.2, 3; e (3) apegarmo-nos ao poder da Palavra – vv.3, 4.

Hoje, vamos estudar Hb 2.5-18 com o tema: A humanidade perfeita de Jesus Cristo.

Stuart Olyott falando sobre esse texto diz: “Que passagem tremenda! Ela mostra que o Senhor Jesus Cristo tornou-se Filho do Homem para que pudéssemos ser filhos de Deus. Ele veio à terra para que pudéssemos ser participantes de sua justiça. Tomou a nossa natureza para que pudéssemos ter a sua. Tornou-se homem a fim de restaurar-nos tudo o que havíamos perdido na queda de Adão.”[1]

Na mentalidade judaica, influenciada pelo gnosticismo, quando Jesus se tornou homem, tornou-se menor que os anjos e não poderia ser perfeito como Deus nem como homem. Sabendo disso, o escritor, passa a demonstrar que Jesus Cristo é perfeito como Deus, pelo fato de ser Deus, e perfeito como homem.

Assim ele faz duas argumentações teológicas e práticas: 1ª) nos vv.5-13 ele mostra que a superioridade de Jesus Cristo não é cancelada por ele ter vindo entre nós como homem; e 2ª) nos vv.14-18 mostra que a superioridade de Jesus Cristo não é cancelada por ele ter sofrido por nós como homem.[2]

Nosso foco, hoje, é sobre a humanidade de Jesus Cristo. Por isso, quero trabalhar o texto respondendo uma pergunta que, creio, é muito importante e deveria estar na mente dos irmãos a quem a carta aos hebreus foi escrita e na nossa também: Por que Jesus Cristo precisou se tornar homem?

Vamos responder em quatro pontos: 1º) Para cumprir o mandato que Deus entregou a Adão – vv.5-8; 2º) Para ser o autor da salvação – vv.10-13; 3º) Para destruir o poder do Diabo a da morte – vv.14, 15; e 4º) Para socorrer os filhos de Deus – vv.16-18.[3]

I. Para cumprir o mandato que Deus entregou a Adão – vv.5-8

A argumentação começa com a citação do Salmo 8 deixando claro que o homem foi criado por Deus com o mandato de dominar a terra (Gn 1.26-28). Mas por conta do pecado de Adão, toda a raça humana se tornou pecadora e o homem perdeu a sua capacidade de domínio e possessão, e tornou-se um escravo do pecado (Gn 3.17-19).

Mas, Jesus, ao assumir a natureza humana, cumpriu o ideal do homem perfeito estabelecido por Deus – v.9. Aqui podemos aprender quatro lições da humanidade de Jesus: 1ª) O período de sua humanidade ou encarnação foi limitado ao prazo suficiente para a realização da sua obra – v.9a; 2ª) A intenção da sua humanidade foi morrer e salvar a humanidade – v.9b; 3ª) Por que se humanizou todas as coisas, nos céus e na terra, estão sob a sua autoridade – vv.8, 9a (Mt 28.18; Ef 1.22; At 2.36; Fp 2.9-11); 4ª) A graça de Deus é a causa da sua humanidade – v.9c (2Co 8.9; Ef 2.5-8).

A causa da redenção era o amor infinito de Deus para conosco,
pelo qual ele não poupou seu próprio Filho.
Arival Dias Casimiro

II. Para ser o autor da salvação – vv.10-13

“Convinha de forma soberana a Deus, como aquele que criou todas as coisas para os seus próprios propósitos, conduzir muitos filhos à gloria”[4], isto é, salvar todos aqueles alcançados por sua graça, mediante a fé – ... trazendo muitos filhos à glória... (v.10a; Ef 2.8).

Aqui no v.10 Jesus é apresentado como o Príncipe (autor na ARA) da salvação deles. A palavra usada aqui para príncipe ou autor significa pioneiro, originador, fundador (Hb 5.9; 12.2; At 3.15; 5.31). Jesus realizou algo singular a favor da humanidade (v.9) e de maneira justa é chamado de autor da salvação eterna (5.9). Para o autor, “Jesus é em alguns aspectos o líder qua agiu como alguém que desbravou a trilha, abrindo assim o caminho para que outros o seguissem”[5] (Cf. 6.20; 12.1-3). Assim, ele não somente abriu o caminho, mas lidera os salvos por meio do seu exemplo (Hb 12.2). Jesus é o alicerce sobre a qual a salvação é garantida.

A obra de Jesus realizada para a salvação é descrita de duas maneiras: 1ª) v.10b – consagração (aperfeiçoasse na ARA) – isto é, “os sofrimentos de Jesus o qualificaram para ser a causa da salvação eterna”[6] (5.9; 10.14). “Não há aspecto algum em que ele fosse moralmente imperfeito, mas pelo seu sofrimento e tentação, sua morte e exaltação celestial, foi qualificado ou tornado completamente adequado como o salvador do seu povo”[7]; 2ª) v.11 – santificação – assim, como o Salvador Perfeito, Jesus, santifica um povo para Deus (10.10, 14, 29; 13.12). Ele é quem os separa para a salvação. A igreja é a comunidade dos santificados (separados) em Cristo, que são chamados para serem santos (1Co 1.2).

Hebreus usa três citações do Antigo Testamento para provar isso: 1ª) Salmo 22 – um salmo messiânico onde está claro que o Messias vê a todos do povo de Deus como sendo irmãos; 2ª) Isaías 8.17 – vê o Messias (Cristo) vindouro como colocando sua confiança em Deus, provando assim tanto a sua humanidade quanto a sua identificação com seus irmãos; e 3ª) Isaías 8.18 – uma citação muito adequada para descrever o que o Senhor Jesus Cristo diz a respeito de seu povo no céu.[8]

Aqui os crentes aperfeiçoados e santificados são identificados de três maneiras: 1ª) como irmãos – v.11; 2ª) como adoradores – v.12; e 3ª) como filhos – v.13.

III. Para destruir o poder do Diabo a da morte – vv.14, 15

Aqui temos definido o supremo propósito de Jesus Cristo assumir a forma humana - ... para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo – v.14.

O autor afirma que o propósito da humanidade perfeita de Jesus foi libertar o seu povo dos seus inimigos – a morte e o diabo. Em outras palavras, no Evangelho está escrito: E dará à luz um filho e chamarás o seu nome Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. (Mt 1.21). João, em sua primeira carta, afirma: Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo. (1Jo 3.8)

Portanto, Jesus, por sua humanidade perfeita, trouxe libertação completa para todos os que creem – v.15 (cf. Ef 1.3; Cl 1.13; Ef 2.1-4; Jo 8.32, 36).

Temos três lições importantes aqui: 1ª) A identificação perfeita de Jesus Cristo com a humanidade (Fp 2.5-11); 2ª) A escravidão em que vive a humanidade perdida – do diabo e do pavor da morte; e 3ª) A libertação completa realizada por meio do sacrifício de Jesus destruiu o poder do Diabo que detinha o poder da morte (cf. Rm 5.12; Cl 2.15; 1Co 15.54).

IV. Para socorrer os seres humanos – vv.16-18

Finalizando sua argumentação, o autor, afirma, categoricamente, que Jesus veio para salvar os seres humanos, pois ele assumiu a natureza humana para, por ela, salvá-la – v.16 (cf. Jo 1.10-14; Rm 8.1-4). Os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que vivem espiritualmente em Cristo (cf. Rm 4.16, 17; Gl 3.18, 19).

Stuart Olyott parafraseando o v.16 esclarece essa verdade: Para obter tal vitória, Jesus não se tornou anjo e, sim, descendente de Abração – judeu. Foi assim que ele realizou a obra. O ponto evidente é que ele não socorre a anjos, mas aos seres humanos.[9] João Calvino disse sobre isso: “Ele nos preferiu aos anjos, não devido a nossa excelência, mas a nossa miséria”.[10]

Temos aqui, nos vv.17, 18, três lições de Jesus como o sumo sacerdote:

1ª) Seu caráter – Ele é misericordioso e fiel – “Ao participar da natureza humana, Cristo demonstrou sua misericórdia para com a humanidade e sua fidelidade a Deus para satisfazer a exigência divina por causa do pecado e obter assim, o perdão total para o seu povo” (Cf. 1Jo 2.2; 4.10)[11]. Jesus é fiel ao cumprir as suas obrigações sacerdotais e é confiável naquilo que diz e promete – Hb 10.23.

2ª) Suas funções – sacrificar e interceder – Como sumo sacerdote que faz expiação por seu povo, Jesus fez expiação por nós sacrificando-se e derramando o seu próprio sangue. Assim, os nossos pecados foram imputados a Jesus e ele morreu em nosso lugar (Is 53.6, 12; 2Co 5.21). Como sumo sacerdote que intercede pelo seu povo, Jesus é o nosso intercessor junto ao Pai – Rm 8.34.

3ª) Sua empatia e disposição – Na sua humanidade, Jesus conheceu o sofrimento humano e a tentação, mas não foi abatido nem pelo sofrimento nem derrotado pela tentação – ... ele nunca cedeu a elas nem pecou. (4.15 BV)

Concluindo

A humanidade de Jesus é uma das verdades centrais da nossa fé e do cristianismo. Sem ela, a expiação de Cristo seria ineficaz em todos os seus aspectos. O sacerdócio de Jesus seria uma farsa e a sua obra de intercessão uma mentira. Jesus Cristo homem é o fundamento da obra de mediação, 1Tm 2.5 diz: Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. E o apostolo João declara que aqueles que negam a humanidade de Jesus são enganadores e anticristos (1Jo 4.2; 2Jo v.7).[12]

Quero concluir com a leitura de Hebreus 4.14-16:

Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão. Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno.


Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira 15/08/2015



[1] Olyott, Stuart. A Carta aos Hebreus bem explicadinha, Editora Cultura Cristã, 2012, p. 25.
[2] Ibid., p. 26.
[3] Casimiro, Arival Dias. Revista Exposição Bíblica – Estudos Expositivos na Carta aos Hebreus, Z3 Editora, 2013, 4ª Lição, p. 16-20. (O estudo segue a Lição 4 – Jesus Cristo é o Homem Perfeito, adaptados a nossa realidade local e com cortes e acréscimos que julguei necessário, nas páginas já citadas).
[4] Carson, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova, Vida Nova, SP, 2009, p. 1992.
[5] Ibid., p. 1992.
[6] Ryrie, Charles C. Bíblia de Estudo Anotada Expandida, Mundo Cristão e SBB, SP, 2007, p. 1200.
[7] Carson, p. 1992.
[8] Olyott, p. 28.
[9] Olyott, p. 29.
[10] Casimiro, p. 19.
[11] MacArthur, John. Bíblia de Estudo MacArthur, SBB, 2010, p. 1691.
[12] Casimiro, p. 20.

sábado, 8 de agosto de 2015

Estudos Bíblicos na Carta aos Hebreus (2) - Jesus Cristo é superior aos Anjos

Hebreus 1.5-2.4

Em nosso estudo de introdução à Carta aos Hebreus vimos:

ð Que a Carta aos Hebreus foi escrita com o propósito de encorajar os cristãos perseguidos por causa da sua fé no início do cristianismo.
ð Que os destinatários originais eram judeus convertidos que estavam sofrendo agressões físicas e o roubo de seus bens materiais (Hb 10.32-34).
ð Que o autor de Hebreus exorta aos cristãos a permanecerem na fé cristã, sendo fiéis ao ensino do Evangelho (Hb 13.22), pois as consequências da apostasia são irreversíveis e horríveis (Hb 6.4-8; 10.31).
ð Que o estudo da Carta aos Hebreus é relevante, para nós hoje, pelo menos por três razões: Por sua relevância teológica, por sua relevância pastoral e por sua relevância apologética.
ð Que o tema da carta é “A superioridade de Cristo”, e em seu esboço, a carta, mostra como esse “tema é desenvolvido ao provar que Jesus Cristo é superior tanto em sua pessoa quanto em seu sacerdócio”.

Estudamos, também, os vv.1-4 do capítulo 1, com o seguinte tema: Jesus Cristo é a Revelação Superior.

Definimos revelação como o ato de Deus comunicar a sua existência e a sua vontade aos homens. E que Deus se revela de quatro maneiras: através da criação, na consciência dos homens, pela Bíblia e por intermédio de Jesus.

Hoje, vamos estudar Hb 1.5-2.4 com o tema: Jesus é superior aos anjos.

Uma coisa que observamos na carta aos Hebreus é o equilíbrio entre ensino e exortação. Do capítulo 1.1 ao 10.18 os textos são principalmente ensinamentos. Do 10.19 até o final do livro o texto é principalmente de exortação.[1]

Vendo a carta por esse ângulo do equilíbrio entre o ensino e a exortação, vamos estudar o texto, de hoje, vendo (1) seu ensino sobre a superioridade de Jesus em relação aos anjos e (2) a admoestação que isso nos traz.

I. Ensino – Jesus é melhor e superior aos anjos – 1.5-14

A principal palavra bíblica, em hebraico e, também, em grego, para anjo significa mensageiro, e ocorre cerca de 285 vezes no texto sagrado. O ensino sobre a existência dos anjos está em, pelo menos, 34 livros da Bíblia.

Os anjos foram criados por Deus antes da fundação do mundo e num estado de santidade. Eles são seres espirituais que não se reproduzem segundo a sua espécie, não morrem, são completamente distintos dos seres humanos, têm grande poder e são em número incontável – Cf. Sl 148.2, 5; Cl 1.16; Jó 38.6, 7; Jd 6; Hb 1.14; Mc 12.25; Lc 20.36; Sl 8.4, 5; 2Pe 2.11; Hb 12.22; Dn 7.10; Ap 5.11.

Anjos possuem personalidade, isto é, são seres pessoais. Eles possuem intelecto (1Pe 1.12), emoções (Lc2.13) e vontade (Jd 6). Tanto no Antigo como no Novo Testamento, foi possível interagir com eles – 2Sm 14.20; Ap 22.9. São “criaturas morais, alguns sendo caracterizados como santos (Mt 25.31; Mc 8.38; Lc 1.26; At 10.22; Ap 14.10), enquanto outros, os que descaíram, são descritos como seres que mentem e pecam (Jo 8.44; 1Jo 3.8-10)”.[2]

A Bíblia faz menção de anjos bons e anjos maus, também chamados de anjos eleitos e de anjos decaídos (1Tm 5.21; 2Pe 2.4; Jd 6), embora ressalte que todos os anjos foram originalmente criados bons e santos (Gn 1.31), tendo livre-arbítrio.[3]

O povo judeu em sua religião dava muita importância aos anjos, pelo fato de que a Lei foi entregue a Moisés por esses seres espirituais – cf. Dt 33.2; At 7.53; Gl 3.19. Alguns, por isso, chagaram ao absurdo de praticarem culto aos anjos – cf. Cl 2.18.

Portanto, foi necessário que o escritor demonstrasse que Cristo, o centro do Evangelho, é maior que os anjos. Se não fosse assim, ele não seria capaz de persuadi-los a permanecerem fiéis a Jesus em vez de voltar ao judaísmo.

O argumento do escritor teve grande força para os seus leitores originais, porque, ele, citou sete versículos das suas Escrituras, o Antigo Testamento, sendo um deles em 2Samuel e os outros nos Salmos. Usando esses textos, ele, destaca quatro pontos, todos combinados para destacar seu ponto central que Jesus Cristo é melhor que os anjos, sendo em muito superior a eles.[4]

1. Os anjos são apenas anjos – Jesus Cristo é o Filho de Deus – v.5

As citações do Antigo Testamento desse argumento são 2Sm 7.14 e Sl 2.7, textos que  atestam a identidade de Jesus como o Filho de Deus desde a eternidade. Importante observar que o Salmo é citado na primeira parte do v.5 e 2Sm na segunda parte, e ambos fazem referência ao relacionamento entre a primeira e a segunda pessoa da Trindade. Isso nunca é feito em relação aos anjos.

Apesar de os anjos serem chamados coletivamente de filhos de Deus, somente Jesus é o Filho exclusivo Dele – Jó 1.6; Hb 1.5. Assim como os seres humanos, os anjos são chamados filhos de Deus por criação, pois em algum momento da criação eles tiveram inicio (Gn 1.1), e embora estejam exaltados na presença de Deus, eles não são filhos nem herdeiros de Deus (Rm 8.17).[5]

2. Os anjos são apenas adoradores – Jesus Cristo é o adorado – v.6.

O v.6 apresenta Cristo como o primogênito. Aquele que é o herdeiro designado de um Deus que não pode morrer! Por isso, nesse contexto, o termo se refere à eterna divindade de Cristo como o Filho de Deus.[6]

A citação do AT é do Salmo 97.7, referente ao Hino de Moisés em Dt 32 (v.43). O termo deuses no Salmo e nações em Deuteronômio se refere aos anjos e a todas as criaturas naturais ou sobrenaturais como os deuses pagão, produzidos pela mente humana pecadora. (Sl 96.5)

Os anjos são adoradores do primogênito de Deus – Rm 8.29; Cl 1.15, 18. Eles estão ao redor do trono, mas não estão assentados no trono[7] – Ap 5.11-13. Em Isaías 6, o profeta os viu fazendo exatamente isso.[8] (cf. Jo 12.41)

3. Os anjos são apenas criaturas – Jesus Cristo é o Criador – vv.7-12.

O v.7 cita o Salmo 104.4 onde há dois conceitos, ambos demonstrando que os anjos são seres inferiores e subordinados a Deus.

Os vv.8, 9 citam o Salmo 45.6, 7, um salmo messiânico com duas ênfases sobre a pessoa de Cristo: 1ª) Ele é o Rei divino que reinará eternamente com excelência e estabilidade; e 2ª) Ele é o Messias, o ungido de Deus, para trazer salvação, cura, consolo,  e libertação aos pecadores (cf. Is 61.1-3; Lc 4.18, 19).

Os vv.10-12 citam o Salmo 102.25-27, onde “Cristo é tratado pelo nome divino de Senhor e visto como o Criador, aquele que permanece imutável em meio a todas as coisas que mudam. Esses versículos abrangem toda a história, mostrando que Cristo existia antes da criação (e é, portanto, desde a eternidade), realizou toda a criação, permanecerá quando toda a criação findar e continuará a existir para sempre.”[9] A comparação feita aqui é entre o Criador, Jesus, e a criação, os anjos. Não dá para comparar!?

4. Os anjos são apenas servos – Jesus Cristo é Rei – vv.13, 14.

O v.13 cita o Salmo 110.1, outro salmo messiânico, que apresenta Cristo assentado à direita de Deus, enquanto aguarda o triunfo final sobre seus inimigos. Jesus Cristo está à direita de Deus reinando soberanamente, todas as coisas estão sujeitas a Ele, pois é Senhor! (cf. At 2.36; Ef 1.21; Cl 2.10; 1Pe 3.22).

O v.14 é claro sobre a função dos anjos: ... enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação? Antes de servirem os que herdarão a salvação, eles servem a Jesus. Eles anunciaram a sua concepção, o seu nascimento, a sua ressurreição, a sua ascensão e a sua segunda vinda – cf. Mt 1.20, 21; Lc 2.8-20; Mt 28.5-7; At 1.11. Os anjos, também, o serviram durante o seu ministério terreno e executarão os seus propósitos nos fins dos tempos – cf. Mt 4.11; Lc 22.43; Mt 13.41; 24.30, 31. Eles o teriam tirado da cruz se fossem ordenados por Ele – Mt 26.53.

Portanto, observando as sete citações selecionadas do Antigo Testamento usadas pelo escritor de Hebreus, nota-se uma progressão. “Elas tratam do eterno relacionamento de Cristo com o Pai, sua vinda ao mundo, sua unção por Deus e seu reinado. Nós o vemos criando e consumando o mundo, assentado e reinando para sempre sobre seus inimigos. Sete nos fala de perfeição. Acabamos de ler um atestado de realeza. Que são os anjos em relação a Ele?”[10]

II. Exortação – 2.1-4 – convém-nos atentar com mais diligência

Como já vimos, o ensino e a exortação fazem parte da estrutura da carta aos Hebreus. Por isso, em meio ao ensino bíblico e teológico da carta, há cinco exortações práticas e diretas: 1ª) Não nos desviemos da Palavra – 2.1-4; 2ª) Não endureçamos o coração à Palavra – 3.7-4.13; 3ª) Não sejamos morosos em ouvir a Palavra – 5.11-6.20; 4ª) Não sejamos obstinados à Palavra – 10.26-39; e 5ª) Não recusemos a Palavra – 10.25-29.

Nessa primeira admoestação da carta, somos exortados:

1. A apegarmo-nos ao conteúdo da Palavra – v.1.

A expressão portanto liga a exortação com aquilo que foi dito anteriormente no primeiro capítulo – ... convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido... (v.1a). E o que eles tinham ouvido era o puro e simples Evangelho de Jesus Cristo. Deus falou, de maneira final e definitiva, por meio do seu Filho! A consequência do desapego à Palavra de Deus é o desvio da fé – ... para que em tempo algum nos desviemos delas. (v.1b) Um crente desatento pode naufragar ou se destruir espiritualmente. (cf. 1Tm 1.19)

2. A apegarmo-nos a autoridade da Palavra – v.2, 3.

a.    v.2 – Três coisas a observar: 1ª) A palavra fala pelos anjos – refere-se a Lei de Deus dada por mãos dos anjos – Dt 5.22; At 7.35-53; Gl 3.19; 2ª) Essa Lei permaneceu firme, isto é, valida ou com autoridade para baixar penalidade caso fosse quebrada ou ignorada; 3ª) Toda transgressão à essa Lei recebeu a justa punição. Portanto, como escaparemos nós se negligenciarmos o Evangelho dado pelas mãos do Filho de Deus?

b.   v.3a – Quatro lições na pergunta: Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação? 1ª) Só há uma salvação e ela é de Deus – Sl 3.8; Jn 2.9; 2Tm 1.9; At 4.2; 16.31; 2ª) A salvação é grande em todos os sentidos, por isso a expressão tão grande salvação; 3ª) Essa tão grande salvação pode ser negligenciada – a expressão se não atentarmos significa negligenciar, desconsiderar, desprezar, desvalorizar e não importar-se com (cf. Mt 22.1; 1Tm 4.14; Hb 8.9). Outra forma de negligenciar o evangelho é não crer no seu conteúdo (cf. Is 5.24); 4ª) A punição é certa para o negligente. Qual a resposta à pergunta: Não escaparemos! Se a transgressão da Lei do Antigo Testamento gerou juízo imediato de Deus, imaginem o severo julgamento de Deus sobre aqueles que desprezarem o evangelho da graça[11] (cf. Mt 10.14, 15; Lc 12.47).

3. A apegarmo-nos ao poder da Palavra – v.3, 4.

Três lições da grandiosa salvação que é a manifestação do poder de Deus, por meio da pregação da Palavra: 1ª) Ela é poderosa em sua origem – v.3b – ... começando a ser anunciada pelo Senhor... (cf. Mc 1.14, 15; Jo 3.32); 2ª) Ela é poderosa em sua transmissão e recepção – v.3c, 4a – ... confirmada pelos que a ouviram; Testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas... (cf. At 4.29-31; Rm 10.17); 3ª) Ela é poderosa em sua distribuição – v.4b – ... e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade? É o Espírito Santo que de forma diversa e soberana presenteia o homem com a salvação.[12] O termo distribuir do grego merismoi, significa atribuir, conceder ou conferir (cf. Rm 12.3; 1Co 7.17)

Concluindo – Uma pequena reflexão final nas palavras de Stuart Olyott:

“É a própria grandeza do Evangelho que tornar a apostasia um perigo. Dar as costas a qualquer outro sistema de crença é simplesmente afastar-se de uma ideia humana. Mas com o evangelho não é assim. Não se trata apenas de uma ideia entre muitas. Deus falou! Sua palavra final à humanidade se encerra em seu Filho. Veja que é o Filho. Não há ninguém maior que ele.

Dar as costas ao evangelho é desprezar a maior pessoa do universo – o seu Criador, Juiz, aquele que pisará sobre todos os seus inimigos, o único em quem há salvação, porque, em si mesmo, ele fez a purificação de nossos pecados.

Neste ponto da carta, cada um de nós precisa fazer uma pausa para considerar como é a nossa relação com Cristo. Estou de fato ligado a ele? Se estiver, minha ligação com ele é mais forte ou mais fraca do que foi no passado?”[13]


Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira – 09/08/15




[1] Olyott, Stuart. A Carta aos Hebreus bem explicadinha, Editora Cultura Cristã, 2012, p. 12.
[2] Erickson, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática, Vida Nova, 2008, p. 195.
[3] Duarte, Pr. Mateus. Apostila de Angelologia da FEST, Uberaba, MG, p. 26.
[4] Olyott, p. 20.
[5] Casimiro, Arival Dias. Revista Exposição Bíblica – Estudos Expositivos na Carta aos Hebreus, Z3 Editora, 2013, 3ª Lição, p. 11
[6] Olyott, p. 20.
[7] Casimiro, p. 12.
[8] Olyott, p. 20.
[9] Ibid., p.21.
[10] Olyott, p. 22.
[11] Casimiro, p. 14, 15.
[12] Ibid., p. 15.
[13] Olyott, p. 23, 24.

domingo, 2 de agosto de 2015

Estudos Bíblicos na Carta aos Hebreus (1) - Introdução ao Estudo da Carta aos Hebreus e Introdução da Carta: Jesus Cristo é a Revelação Superior

Hebreus 1.1-4

A Carta aos Hebreus foi escrita com o propósito de encorajar os cristãos perseguidos por causa da sua fé no início do cristianismo. Esses destinatários originais eram judeus convertidos que estavam sofrendo agressões físicas e o roubo de seus bens materiais (Hb 10.32-34). Alguns deles, por conta disso, não estavam suportando e já começavam a negligenciar a sua salvação, deixando de crescer espiritualmente, se endurecendo pelo engano do pecado e deixando de congregar-se (Hb 2.1; 3.13; 5.11, 12; 10.25).

O autor de Hebreus exorta aos cristãos a permanecerem na fé cristã, sendo fiéis ao ensino do Evangelho (Hb 13.22), pois as consequências da apostasia são irreversíveis e horríveis (Hb 6.4-8; 10.31).

O estudo da Carta aos Hebreus é relevante, para nós hoje, pelo menos por três razões: 1ª) Por sua relevância teológica – “ela ensina a teologia da pessoa e da obra de Jesus Cristo, como cumprimento do ensino teológico do Antigo Testamento”[1]. “Há 29 citações diretas do AT, além de 53 alusões claras e várias outras passagens”[2]. Ela exorta por meio do ensino bíblico e teológico. Nela Jesus é o Profeta, o Sacerdote e o Rei; 2ª) Por sua relevância pastoral – “ela começa como um tratado, procede como um sermão e termina como uma carta”[3] pastoral. O autor a chama de palavra de exortação (13.22); 3ª) Por sua relevância apologética – a carta defende que Jesus Cristo é superior a tudo e a todos.

Hebreus foi escrita, ao que tudo indica, por evidências internas e externas, no final da década de 60 d.C. Nela não há indicação de autoria e muitas opiniões se tem dado a respeito de quem seria seu autor. Os nomes mais indicados são: Paulo, Apolo, Lucas, Barnabé, Àquila e Priscila, Clemente de Roma e Silas. No seu último capítulo, o das saudações finais, a carta dá três informações importantes sobre sua autoria: 1ª) O autor da carta é um pastor que envia uma exortação escrita para o seu rebanho – v.22; 2ª) O autor conhecia Timóteo e mantinha relacionamento fraternal com ele – v.23; e 3ª) O autor escreveu de Roma ou a seus leitores que residiam em Roma – v.24.

O tema da carta é “A superioridade de Cristo”. Em seu esboço, a carta, mostra como esse “tema é desenvolvido ao provar que Jesus Cristo é superior tanto em sua pessoa quanto em seu sacerdócio”[4].

Os versículos de abertura apresentam os assuntos centrais que serão tratados nesta carta. O autor fala de revelação: Deus falou... (1.1); fala de uma pessoa: Deus falou por meio de seu filho (1.1, 2); fala de uma obra: Deus o constituiu herdeiro (1.3).[5]

Um esboço simples e prático é o usado por Charles C. Ryrie na Bíblia Anotada Expandida: 1) A superioridade da Pessoa de Cristo – 1.1-4.16; 2) A superioridade do sacerdócio de Cristo – 5.1-10.39; 3) A superioridade do poder de Cristo – 11.1-13.25.

Hoje, vamos estudar os vv.1-4 do capítulo 1, com o seguinte tema: Jesus Cristo é a Revelação Superior.

“Revelação é o ato de Deus comunicar a sua existência e a sua vontade aos homens. A Teologia Sistemática ensina que Deus se revela de quatro maneiras”[6]: 1ª) Deus se revela através da criação – Sl 19.1-6; Rm 1.19-21; 2ª) Deus se revela na consciência dos homens – Rm 2.14, 15; 3ª) Deus se revela pela Bíblia – 2Tm 3.16; Jo 5.39; 4ª) Deus se revela por intermédio de Jesus – Jo 1.18.

Nas três primeiras formas em que Deus se revela ao homem, ele dá o conhecimento de sua existência, mas, somente por intermédio de Jesus Cristo, ele se dá a conhecer pessoalmente e concede a vida eterna aos homens que nele creem.

Uma coisa que não devemos esquecer é que a revelação divina é progressiva, começa no Antigo Testamento e termina no Novo Testamento. Por isso o autor começa falando do passado até chegar ao presente.

I. No v.1 – seis lições importantes sobre a revelação divina no passado:

1. Quem falou? – v.1a – Deus. Assim o conhecimento que temos de Deus não é por nossa busca pessoal, mas por sua revelação.

2. Quando ele falou? – v.1b – antigamente – Refere-se a todo o tempo de revelação feita antes de Jesus.

3. Quantas vezes ele falou – v.1c – muitas vezes. Literalmente em muitas partes ou porções.

4. Como ele falou – v.1d – de muitas maneiras. Significa usando diversos métodos.

5. Para quem ele falou – v.1e – aos pais. A ênfase aqui é aos primeiros destinatários, ou seja, aos nossos ancestrais começando por Adão.

6. Por quem ele falou – v.1f – pelos profetas. Isso mostra que Deus fez uso do instrumento humano para se comunicar com o ser humano. De Gênesis a Malaquias essa comunicação foi escrita como lei, história, salmos, provérbios e profecias. Os escritores da Escritura receberam a revelação de Deus.

II. No v.1 – três destaques importantes sobre a revelação divina por meio de Jesus:

1. Quando ele falou? – v.1 – nestes últimos dias. Esse é o período que começou com a primeira vinda de Jesus e terminará com a sua segunda vinda.

2. A quem ele falou? – v.1 – a nós falou-nos. O alvo dessa revelação são todas as gerações desde a primeira vinda de Cristo até a sua segunda vinda. Nós somos esse alvo.

3. Como ele nos falou? – v.1 – pelo Filho. Jesus é superior a todos os profetas que existiram antes dele. Ele é o Filho de Deus que nos trouxe a revelação definitiva e completa.

III. Nos vv.2-4 – a superioridade da revelação de Jesus Cristo

O autor de Hebreus demonstra quanto à nova revelação está acima da velha, afirmando sete coisas pelas quais o Filho de Deus se mostra superior àqueles por quem Deus falara no passado.

1. v.2a – Jesus é o herdeiro de todas as coisas – Sl 2.8; Gl 4.7; Rm 11.36; Cl 1.16; Mt 28.18; Fp 2.6-9.

2. v.2b – Jesus é o criador de tudo – Jo 1.2, 3.

3. v.3a – Jesus é o resplendor da glória de Deus – Jo 1.14.

4. v.3b – Jesus é a expressão exata da divindade – Jo 1.1; Cl 1.15.

5. v.3c – Jesus é o sustentador de todas as coisas – Cl 1.17.

6. v.3d – Jesus é quem nos purifica de todo o pecado – At 2.38.

7. v.3e – Jesus está assentado à direita de Deus – 1Pe 1.22; Rm 8.34; Hb 4.16.

Concluindo

O autor termina sua argumentação afirmando que Jesus recebeu um nome superior ao dos anjos – v.4. Que nome é esse? Creio que é Senhor (Fp 2.9-11).

Para sermos encorajados a não desistirmos da fé, como os primários leitores da Carta as Hebreus, “precisamos olhar para a superioridade de Jesus. Ele é o Filho de Deus, o profeta, o herdeiro, o criador, o resplendor, o sustentador, o salvador e o Senhor. Ele é incomparável, insuperável e insubstituível”[7].

Pr. Walter Almeida Jr.
IBL Limeira – 01/08/15




[1] Casimiro, Arival Dias. Revista Exposição Bíblica – Estudos Expositivos na Carta aos Hebreus, Z3 Editora, 2013, 1ª Lição, p. 4.
[2] Ryrie, Charles. A Bíblia Anotada e Expandida, Mundo Cristão e SBB, 2007, p. 1196.
[3] Casimiro, p. 4.
[4] Ryrie, p. 1196.
[5] Olyott, Stuart. A carta aos Hebreus bem explicadinha, Cultura Cristã, SP, 2012, p. 11.
[6] Casimiro, p. 7.
[7] Casimiro, p. 10.