domingo, 19 de janeiro de 2014

Introdução ao Estudo dos Dez Mandamentos

Êxodo 20.1-21
A Lei de Deus no Pentateuco é composta da Lei Moral (Êx 20.1-17; Dt 5), da Lei Cerimonial (Êx 20.22-26; Levíticos) e da Lei Civil (Êx 21.1-23.9). Não são três Leis, mas uma Lei em três partes. É também chamada de Lei de Moisés, Lei de Deus, Decálogo, a Lei e os Dez Mandamentos. “Para o nosso estudo focaremos apenas na Lei Moral, pois entendemos a luz das Escrituras, que as Leis cerimonias se cumpriram em Cristo e que as Leis civis tinha sua aplicabilidade destinada somente à nação teocrática de Israel”[1].

Os Dez Mandamentos registrados em Êxodo 20.1-17, “revelam um padrão divino de perfeição espiritual e moral”[2]. A Confissão de Fé de Westminster, Capítulo XIX, Seção V, afirma: A lei moral obriga para sempre a todos a prestar-lhe obediência, tanto as pessoas justificadas como as outras, e isto não somente quanto à matéria nela contida, mas também pelo respeito à autoridade de Deus, o Criador, que a deu. Cristo, no Evangelho, não desfaz de modo algum esta obrigação, antes a confirma.

Segundo Gaspar de Sousa, “é um axioma, isto é, uma premissa considerada necessariamente evidente e verdadeira, que toda a moralidade é fundamentada na religião, principalmente cristã. A moral é fundamentada num sistema teológico, pois deriva de um Legislador Absoluto. Não sendo assim, tem-se a relativização da moral, fazendo com que certo e errado sejam conceitos particulares, pessoais ou de uma cultura em particular. Isto implica que a moral é necessária, pois senão se instalará a desordem”[3].

Antes de começarmos nosso estudo de cada mandamento do Decálogo, “precisamos entender como o cristão deve se relacionar com a Lei e em que contexto os dez mandamentos foram dados”[4].

Assim, ao estudarmos os Dez Mandamentos, precisamos também, compreender os seus propósitos para ter uma vida cristã equilibrada, pois dois erros sempre ameaçaram a relação do cristão com a lei: o legalismo e o antinomismo. No primeiro, há um apego a lei em detrimento da graça. Esse erro permeou a “teologia” dos fariseus, os quais eram apegados às minúcias das regras, acrescidas das tradições. Jesus condenou veementemente esse comportamento (Mt 23). O segundo erro, o antinomismo, consiste em viver como se não devêssemos obedecer a nenhuma lei. Tanto Pedro quanto Judas combateram o antinomismo dos seus dias através das suas epístolas (Jd 4-19; 2Pe 2).[5]

Nós, cristãos de linha reformada, entendemos que a Lei é corretamente compreendida quando identificamos corretamente os seus propósitos, que podem ser classificados em três: apontar para Cristo, refrear o mal e ser instrumento de santificação.[6]

1º) Apontar para CristoA lei tem como principal função apontar para Cristo. Ela exerce essa função ao apresentar para nós princípios morais perfeitos que o homem, enquanto pecador, não consegue cumprir na sua totalidade, conduzindo necessariamente a olharmos para Cristo como o cumpridor destes preceitos. Nesse sentido, Cristo é o fim da Lei, pois ele cumpriu toda a Lei tornando-nos aptos a entrar no céu mediante os méritos conquistado por Ele – Gl 3.24, 25; Rm 3.19, 20; 10.4.

2º) Refrear o malEste segundo uso da Lei, também chamado de “uso de contenção”, consiste na atuação da Lei refreando o pecado no mundo e promovendo a justiça. A Lei atua inspirando a formação de leis gerais que valorizam a vida e puna o mal, além de influenciar internamente cada ser humano, através da consciência (Rm 2.15), levando-o a valorizar o que é certo e repudiar o erro. É importante ressaltar que a graça geral de Deus age no mundo inclusive sobre o ímpio preservando este mundo, tornando um lugar habitável.

3º) Ser instrumento de santificação – O terceiro uso da Lei consiste em ser um instrumento de santificação, pois uma vez que ela revela qual é a vontade de Deus para o homem, nada melhor que, uma vez salvos, retornemos o nosso olhar para a Lei Moral com intuito de compreender como Deus deseja que o seu povo viva. É importante frisar que somos salvos pela graça e não pelo cumprimento da Lei – Ef 2.8-10; Rm 6.1, 2; Ef 5.8; 1Jo 3.4-6.[7]

Martinho Lutero dizia que “qualquer pessoa que conhece os Dez Mandamentos conhece perfeitamente as Escrituras”. Por eles aprendemos quem é Deus, o que ele exige de nós e, também, quem somos.[8]

Os Dez Mandamentos foram dados por Deus ao povo de Israel em um momento crucial da história da nação. Após mais de 400 anos vivendo como escravos no Egito, o povo de Israel foi libertado por Deus através de uma série de intervenções sobrenaturais – as dez pragas sobre o Egito e a abertura do Mar Vermelho. Este fato é tão importante que Deus fez questão de ressaltar antes de promulgar os dez mandamentos, a fim de ressaltar a autoridade de quem dava as leis – Êx 20.1.

Com isso em mente, podemos fazer algumas considerações introdutórias aos Dez Mandamentos no texto de Êxodo 20.1-17:

1. Que Deus é pessoal e libertadorv.2 – A passagem apresenta um Deus pessoal e libertador. O Deus que nos livra deseja interagir conosco de tal modo que o consideremos como nosso. Os Mandamentos têm a ver com liberdade, felicidade e amor. A motivação divina por detrás de cada mandamento é o amor.[9]

2. Sobre amor, dever, liberdade e proibições – Nos Dez Mandamentos há deveres para com Deus (vv.3-11) e para com os homens (vv.12-17). Isso nos ensina que não podemos ser livres sem assumir responsabilidades e que não há contradição entre amor e dever, pelo contrario, deveres são assumidos por quem ama. Liberdade é a capacidade de dizer não ao mal e de obedecer de coração ao Deus que nos ama. Sendo assim, não nos envergonhamos de falar que não fazemos certas coisas porque o Senhor não permite. Ao dizermos não àquilo que é errado, dizemos sim a Deus.[10] (Jo 8.34; Sl 1.1)

3. Sobre verdade absoluta e vida organizada – Os Mandamentos demonstram que há coisas que agradam a Deus e nos fazem livres e outras que o desagradam e nos tornam cada vez mais escravizados. Isso indica que existe o certo e o errado, o verdadeiro e o falso. E, o modo com o os Dez Mandamentos são estruturados nos ajudam a organizar nossa vida em torno daquilo que é verdadeiramente importante: Deus é o próximo. A felicidade consiste em alinhar-se à verdade tal qual é descrita por Deus.[11] (Sl 19.9; Mt 22.34-40; Mc 12.28-31)

4. Sobre pilares permanentes – Por expressarem a moralidade de Deus, os Mandamentos têm valor permanente. Eles são pilares existências válidos para os crentes de todos os tempos.[12] (Mt 5.18)

Concluindo – Vimos hoje que:

ð O cristão precisa se relacionar de modo correto com a Lei de Deus, sem cair nos extremos do legalismo ou do antinomismo;

ð O cristão precisa entender quais as funções da Lei, que consiste em apontar para Cristo, refrear o mal no mundo e ser instrumento de santificação;

ð O cristão observa a Lei não para ser salvo, mas porque ele já foi salvo e, portanto, é dever dele buscar conhecer cada vez mais como viver de modo a agradar a Deus;

ð Os Dez Mandamentos tem deveres para com Deus e para com os homens;

ð A felicidade consiste em alinhar-se à verdade tal qual é descrita por Deus; e

ð Os Dez Mandamentos são pilares existenciais, válidos para nós hoje.

Será que em nossa profissão de fé diante da Igreja e em nosso testemunho de vida diariamente estamos resolvidos a seguir os preceitos da Lei de Deus, deixando de fazer o que Ele nos proíbe em sua Palavra, e fazendo toda a sua vontade auxiliados por sua graça?
Pr. Walter Almeida Jr.
CBL Limeira – 19/01/14




[1] Dias, Thiago de S. Uma análise introdutória dos dez mandamentos como referencias de santidade, p. 1.
[2] Nascimento, Misael Batista do. Os primeiros passos do discípulo, Editora Cultura Cristã, 2011, p. 9.
[3] http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=208.
[4] Dias, p. 1.
[5] Ibid., p. 2.
[6] Ibid., p. 2.
[7] Ibid., p. 3.
[8] Nascimento, p. 9.
[9] Ibid., p. 10.
[10] Ibid., p. 10.
[11] Ibid., p. 10.
[12] Ibid., p. 11.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Fortalecimento da Fé Cristã (2)

1Pedro 1.12-21

Em nosso estudo anterior, nós vimos:

ð Quem foi o autor da 2Pe – Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo – v.1;

ð Que Pedro escreveu essa Segunda Carta para “fortalecer a fé e a esperança cristã, e combater o falso ensino e as atitudes destrutivas decorrentes desse ensino destrutivo”.

ð Expomos o prefácio e a saudação da carta, nos vv.1, 2, de onde aprendemos as seguintes lições: 1) Reconhecer quem éramos sem Cristo e quem somos com Cristo! 2) Ter comunhão com todos os que professam a nossa mesma fé!; e 3) Viver pela graça e pela paz do Senhor no pleno conhecimento de Deus e Salvador Jesus Cristo!

ð E, dos vv.3-11, estudamos o seguinte tema: Fortalecimento da Fé Cristã (1)1º) Pelo conhecimento completovv.3, 4; 2º) Pelas sete virtudes que procedem da févv.5-9; 3º) Pela confirmação da vocação e eleiçãovv.10, 11.

Hoje, vamos estudar os vv.12-21, ainda com o tema Fortalecendo a Fé Cristã (2): 1º) Pela verdade presentevv.12-15; e 2º) Pela superioridade e suficiência das Escriturasvv.16-21.

I. Pela verdade presente – vv.12-15

Pedro quer incutir na mente e no coração dos irmãos que o progresso do crescimento espiritual ou o fortalecimento da vida cristã, se fundamenta na Palavra de Deus. E, aqui, ele revela sua tríplice motivação para fazer com que os crentes entendam isso:

1. v.12 – Prontidão em lembrar os crentes acerca da Palavra de Deus.

2. v.13, 14 – Consideração justa para manter os crentes acordados espiritualmente pela Palavra de Deus.

3. v.15 – Esforço e diligência em conservar a Palavra de Deus na memória dos crentes, mesmo depois de sua partida.

II. Pela superioridade e suficiência das Escrituras – vv.16-21

Antes de falar sobre as Escrituras, Pedro, conta um testemunho pessoal. Uma experiência que teve quando Jesus foi transfigurado no monte – Mt 17.1-8; Mc 9.2-8; Lc 9.28-36. Creio que a intenção de Pedro ao contar esse testemunho era contrastar o seu ensino com o dos falsos profetas e falsos mestres de sua época.
Observamos que a origem do ensino de Pedro é a revelação do próprio Deus, ele diz: nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade, pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo. (vv.16b, 18) Mas, a dos falsos profetas e falsos mestres eram fábulas engenhosamente fabricadas. (v.16a)

De acordo com 2Pe 3.1-7, os falsos mestres zombavam do ensino bíblico acerca da segunda vinda de Jesus.

Com essa defesa da verdade, Pedro, fala que os crentes devem obedecer a Palavra de Deus por três motivos:

1. v.19 – A Palavra de Deus brilha e resplandece nas trevas. É pelo conteúdo da Bíblia que vamos sendo iluminados e transformados à semelhança de Jesus – 1Jo 3.1, 2.

2. v.20, 21a – A Palavra de Deus não é de origem humana. Ela é superior a qualquer escrito ou ensino humano – 1Ts 2.13.

3. v.21b – A Palavra de Deus foi inspirada por Ele mesmo – 2Tm 3.16. David S. Clark disse: Inspiração é a influencia divina exercida sobre os escritores da Bíblia, a fim de  preservá-los de erros em seu ensino.

Concluindo

Pedro nos ensina aqui que, o fortalecimento da fé cristã vem diretamente pela Palavra de Deus, pelo que ela é e pelo que ela faz. (Conf. Hebreus 4.12)


Pr. Walter Almeida Jr.

Limeira (SP), 04/01/14

O Fortalecimento da Fé Cristã (1)

1Pedro 1.1-11

Simão, que foi alcançado para o Senhor Jesus pelo seu irmão André, a quem o próprio Jesus deu o nome de Pedro ou Cefas – João 1.40-42; Mateus 16.18.

Esse Pedro, através de Silvano (em latim) ou Silas (em grego), escreveu sua primeira carta, Primeira Pedro, para “... resumidamente, exortando e testificando, de novo, que esta é a genuína graça de Deus; nela estai firmes.” (1Pedro 5.12)

Pedro foi o discípulo de Jesus que proferiu frases, durante e após o ministério terreno de Jesus, que deram origem a declarações de fé cristãs, como:

ü  Mateus 16.16 – Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.

ü  João 6.68, 69 – Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus.

ü  Atos 2.38, 39 – Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar.

ü  Atos 3.19-21 – Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade.

ü  Atos 10.34-43 – Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável. Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos. Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judéia, tendo começado desde a Galiléia, depois do batismo que João pregou, como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele; e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro. A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto, não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos; e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos. Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados.

Pedro escreveu também essa Segunda Carta para “fortalecer a fé e a esperança cristã, e combater o falso ensino e as atitudes destrutivas decorrentes desse ensino destrutivo”. Em 2 Pedro 3.1, 2 ele diz: “Amados, esta é, agora, a segunda epístola que vos escrevo; em ambas, procuro despertar com lembranças a vossa mente esclarecida, para que vos recordeis das palavras que, anteriormente, foram ditas pelos santos profetas, bem como do mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos vossos apóstolos

Nos vv.1, 2 temos o prefácio e a saudação de Pedro, onde aprendemos as seguintes lições e aplicações práticas: 1) Reconhecer quem éramos sem Cristo e quem somos com Cristo! 2) Ter comunhão com todos os que professam a nossa mesma fé!; e 3) Viver pela graça e pela paz do Senhor no pleno conhecimento de Deus e Salvador Jesus Cristo!

Hoje, vamos expor ou estudar 2 Pedro 1.3-11 com o seguinte tema: Fortalecimento da Fé Cristã (1)1º) Pelo conhecimento completovv.3, 4; 2º) Pelas sete virtudes que procedem da févv.5-9; 3º) Pela confirmação da vocação e eleiçãovv.10, 11.

I. Pelo conhecimento completo – vv.3, 4

Pedro, inspirado pelo Espírito Santo, espera nesta carta fortalecer a fé cristã de todos os que obtiveram fé igualmente preciosa (1.1), pelo pleno conhecimento (1.2) ou conhecimento completo (1.3b) da nossa salvação em Jesus Cristo. O cristão recebe força para viver a vida cristã pelo conhecimento completo do que Deus fez, faz e fará por ele:

1. Foi pelo divino poder que o crente recebeu a vida eterna e é pelo mesmo poder que ele pratica a piedade, isto é, vive como herdeiro da vida eterna aqui no mundo – João 1.12; Romanos 1.16; 1 Timóteo 3.16; 4.8; 6.3; Tito 1.1; 2.12; 2Pedro 3.11.

2. Pelo divino poder, também, o crente se torna participante da glória e virtude de Deus. Paulo diz isso mesmo em 1Tessalonicenses 2.12 - exortamos, consolamos e admoestamos, para viverdes por modo digno de Deus, que vos chama para o seu reino e glória.

3. Pelo divino poder o crente recebe de Deus a doação das suas preciosas e mui grandes promessas. Em Jesus, Paulo diz que temos o sim em todas as promessas de Deus – 2Coríntios 1.20 – “Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio.

4. Pelo divino poder nos tornamos coparticipantes da natureza divina – Romanos 8.9, 17; Gálatas 2.20; 3.29.

5. Pelo divino poder recebemos o livramento da corrupção das paixões que há no mundo – Gálatas 1.14; 5.24; 2Timóteo 4.8; Romanos 13.14; Efésios 4.22; Tito 2.12.

II. Pelas sete virtudes que procedem da fé – vv.5-9

Pedro, após afirmar que o pleno conhecimento de Deus em Jesus Cristo sobre a nossa salvação plena deve fortalecer nossa fé, mostra, agora, que essa fé fortalecida deve gerar disposição para o desenvolvimento de um caráter cristão maduro. Nessa compreensão o apóstolo diz: ... por isso mesmo, vós,... (v.5a) – referindo-se ao ato divino de livra-nos da corrupção das paixões que há no mundo (v.4b),  ... reunindo toda a vossa diligência... (v.5b) significando que o cristão deve ser cuidadoso e prudente no desenvolvimento de virtudes cristãs que procedem de sua fé. Paulo disse aos Romanos: No zelo, não sejais remissos; sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor – Romanos 12.11.

Associai significa adicionar ao que a pessoa já tem. No entendimento de Pedro, o crente já tem a fé para associar virtudes. Assim ele concorda com Judas (v.3): Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.

A essa fé que recebemos de uma vez por todas é que Pedro diz: associai. Tendo a sua fé como alicerce, o crente deve acrescentar as sete virtudes ou qualidades, uma sobre a outra, em um escala ascendente, até que o amor coroe o todo. A ideia é a da construção de um edifício de vários andares, tendo a fé como alicerce e o amor como telhado. Green, teólogo americano, desenvolveu o que ele chama de “a escada da fé”, tendo a fé como o degrau inicial e o amor como o último degrau.

Para Pedro, essas sete virtudes fortalecem a fé cristã porque procedem da fé. A fé é a porta de entrada para a vida cristã, pois sem fé é impossível agradar a Deus – Hebreus 11.6; 2Pedro 1.1; Romanos 10.17; Efésios 2.8. A Bíblia fala sobre três tipos de Fé: 1º) Fé salvadora – Romanos 3.25-28; 5.1, 2; 2º) Fé dom do Espírito Santo – 1 Coríntios 12.9; 3º) Fé como confissão de fé ou declaração doutrinária (conjunto de doutrinas da fé) – Romanos 1.17; Efésios 4.13; 6.16; Filipenses 1.27; 1Tessalonicenses 3.2; 1Timóteo 4.1, 6.  Por isso, a fé é o alicerce sobre o qual tudo mais é erguido ou acrescentado para fortalecimento e crescimento do cristão.

1. v.5b ... associai com a vossa fé a virtude... – virtude significa excelência moral ou vigor na vida cristã, que deve nos mover em direção a uma vida reta diante de Deus. A fé coloca-nos em comunhão com Deus e a virtude impulsiona-nos a viver esse relacionamento abençoado com Deus. (Filipenses 1.9; 1Pedro 1.22)

2. v.5c - ... com a virtude, o conhecimento... – conhecimento ou ciência que significa a compreensão ou sabedoria prática a fim de que a virtude não seja direcionada na direção errada. (1Coríntios 2.6, 7; Efésios 1.7, 8; Colossenses 1.9, 28; 3.16; 4.5; Tiago 3.17)

3. v.6a – ... com o conhecimento, o domínio próprio... – domínio próprio é a tradução do termo grego egkrateia que significa o poder de um individuo conter-se ou a capacidade efetiva de controlar seu corpo e sua mente. É ele que permite ao crente conhecer os seus limites e a viver de modo sábio, abstendo-se daquilo que é nocivo à vida. Domínio próprio que também aparece no texto do NT como temperança faz parte do fruto do Espírito descrito por Paulo em Gálatas 5.23.

4. v.6b – ... com o domínio próprio, a perseverança... – perseverança que literalmente significa a capacidade para permanecer debaixo de um grande peso, é a palavra neotestamentária básica para paciência. Perseverança, como usada aqui, é a disposição mental que não é abalada pela dificuldade e pela aflição, é o que não nos permite desistir diante das lutas. (Romanos 2.7; Efésios 6.18)

5. v.6c – ... com a perseverança, a piedade... – piedade aqui, diferente do que se pensa hoje em dia, mas, significa o compromisso cristão levado a sério e traz na sua etimologia a ideia de reverência e de uma consciência prática da presença de Deus em todos os aspectos da vida. (2Pedro 1.3; 1Timóteo 4.8; 5.4; Tito 1.1; Hebreus 12.28)

6. v.7a – ... com a piedade, a fraternidade... – fraternidade do grego philadelphia significa o afeto familiar entre os crentes como irmãos e irmãs na família de Deus. Esse termo vem da raiz phileo que significa calorosa afeição pessoal por outrem. Indica, aqui, que o caráter cristão não deve ser visto como uma conquista individual, pelo contrario, devemos nos unir aos demais na comunidade cristã a serviço do reino de Deus. (Romanos 12.10; 1 Tessalonicenses 4.9; Hebreus 13.1; 1Pedro 1.22; 3.8)

7. v.7b – ... com a fraternidade, o amor. – amor do termo grego agapao significa dar supremo valor a algo.  Palavra da mesma raiz do termo grego ágape que significa amor de Deus é a principal característica da vida cristã e o ápice do crescimento e fortalecimento da fé cristã. Esse tipo de amor, na verdade, já foi derramado no coração do crente pelo Espírito Santo – “... o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado.” Romanos 5.5

Pedro crê, e deixa claro, que se estas sete virtudes estiverem sendo uma prática crescente na vida do crente,... existindo em vós e em vós aumentando... (v.8a), isso fará com que o crente dê fruto e fruto com abundância (João 15.5),... com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. (v.8b)

Aqui também é retratado o triste estado do crente que não tem na sua vida a manifestação das virtudes da fé que fortalecem sua vida cristã – Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes é cego, vendo só o que está perto, esquecido da purificação dos seus pecados de outrora. (v.9) (Hebreus 3.12-14; 10.19-25; 10.32-39)

II. Pela confirmação da vocação e eleição – vv.10, 11

1. v.10aPor isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior,... – aqui, Pedro, exorta os irmãos a que sejam zelosos no cuidado da vida cristã e que isso demonstre a validade de sua experiência de salvação em Jesus Cristo. É justamente o que Hebreus 2.1-4 diz com muita clareza.

2. v.10b... confirmar a vossa vocação e eleição... – Pedro, assim como Paulo, sabia que aquele que começou boa obra (salvação pela vocação e eleição divina) iria terminar. Em Filipenses 1.6 está escrito: Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. Mas, aqui, Pedro está estimulando os crentes a confirmarem essa verdade. Ele está aconselhando os irmãos a buscarem diligentemente, cada vez mais, a convicção da vida eterna. Ler Hebreus 6.9-12.

3. v.10c... porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. – Se o crente viver de acordo com a vocação a que foi chamado, pode ter certeza que não vacilará em sua fé – Romanos 11.29; 1Coríntios 7.20; Efésios 4.1; 2Tessalonicenses 1.11; Hebreus 3.1.

4. v.11Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O apóstolo Pedro garante que se um cristão for firme em suas convicções e elas forem confirmadas pela vocação e eleição de Deus, esse tal crente desfrutará da entrada triunfal dos salvos no céu, que aqui ele chama de reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo! (Filipenses 3.20)

Conclusão

Pedro tinha convicção de que a fé dos crentes seria fortalecida se eles: 1º) Tivessem o conhecimento completo do que Deus fez, faz e fará por ele; 2º) Associassem à fé salvadora as sete virtudes que procedem dessa fé; e 3º) Confirmassem a sua vocação e eleição através de um modo cristão digno de viver.

Que Deus nos abençoe na compreensão da sua Palavra na Segunda Carta de Pedro!

Pr. Walter Almeida Jr.

Limeira (SP), 29/12/13

domingo, 8 de dezembro de 2013

Os relacionamentos do cristão: com Deus e com o próximo (1)

Mateus 5-7 (5.1, 2)

Em nosso estudo anterior, vimos que:

ð O Sermão do Monte é um autêntico pronunciamento de Jesus. Seu conteúdo é relevante para o mundo moderno e seus padrões foram estabelecidos para serem cumpridos pelos cidadãos do Reino, aqueles que passaram pelo novo nascimento e fazem parte da família de Deus.[1]

ð Que o valor e a autoridade do Sermão do Monte está no Mestre que o proferiu. Ele é mais importante que o seu próprio ensino e que precisamos tomar consciência disso e aceitar e praticar os Seus ensinos.

ð Que na sua introdução em Mateus 5.1, 2, temos a identidade e a personalidade do Mestre Jesus, a identificação de seus ouvintes primários e a sua pedagogia.

Terminamos com a seguinte afirmação: “Façamos do padrão de Jesus o nosso padrão de vida. Falemos a Palavra com autoridade. Tenhamos um caráter integro: Amemos mesmo quando não esperamos receber amor, façamos o bem sem esperar recompensas. Tenhamos como objetivo supremo da nossa vida fazer a vontade do Pai, obedecer à Sua Palavra, obedecer aos Seus ensinamentos”.[2]

Hoje, vamos estudar Mateus 5.3-12. O texto fala das bem-aventuranças. A palavra bem-aventurados aparece nove vezes nesse texto e chamou muita a atenção dos ouvintes primários e a nossa também. Isso por uma razão especial:

ð O significado do termo grego usado makarios, é maior do que o português em uma só palavra possa expressar. O termo descreve aquela alegria ou felicidade interior, independentemente das coisas externas da vida. É do tipo abundante, igual à vida que Jesus dá aquele que o recebe como Senhor e Salvador de sua vida. É um tipo de alegria/felicidade teimosa, aparentemente arrogante, não científica, baseada na fé a não na instabilidade das circunstâncias de tempo e lugar, comprometida mais com a saúde da alma do que com o bem estar físico. Esta alegria/felicidade é resistente e durável e um exemplo bíblico dela, pode ser visto na oração do profeta Habacuque 3.17-19: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente”.

Há quatro verdades que a Bíblia ensina sobre as bem-aventuranças:

ð PrimeiraBem-aventurança é algo que somente Deus pode dar – Sl 144.15;

ð SegundaBem-aventurança é um estado que Deus deseja que seu povo desfrute – Gn 1.27, 28; Nm 6.24-26;

ð TerceiraBem-aventurança não depende das circunstancias da vida – Fp 4.10, 11; 2Co 7.4; 12.10;

ð QuartaBem-aventurança está relacionada à obediência a Palavra de Deus – Lc 11.27, 28; Sl 1.1.

Observando o texto, é interessante notar que a primeira bem-aventurança e a última fazem a mesma promessa – “porque deles é o reino dos céus” – Mt 5.3, 10. Sobre esse reino prometido por Jesus, temos quatro fatos a considerar:

ð PrimeiroEle é um reino eterno;

ð Segundo Ele é um reino espiritual;

ð TerceiroEle é um reino contemporâneo;

ð QuartoEle é um reino dinâmico.

Pois bem, vamos agora considerar as bem-aventuranças em dois pontos: 1º) As primeiras quatro, tratam do relacionamento do cristão com Deus; e 2º) As últimas quatro, do relacionamento do cristão com o seu próximo.

I. O relacionamento do cristão com Deus – 5.3-6

Um relacionamento saudável com Deus está indispensavelmente ligado ao reconhecimento e a convicção de pecado, a confissão e a contrição por causa deles, o autocontrole pelo perdão e a presença de Deus e um viver agradável a Ele pela pratica da sua justiça.

1. v.3Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus...

A palavra pobre ou humilde descreve uma pessoa que não tem absolutamente nada. O termo grego fala de alguém desprovido de qualquer riqueza material. Mas, Jesus falou pobres de espirito, isto é, alguém que é absolutamente dependente da graça de Deus.

Essa bem-aventurança ensina duas verdades:

a. Primeira verdade – o reconhecimento e convicção da natureza pecaminosa humana. A profunda humildade de reconhecer que afastado da graça de Deus não há esperança, e de viver na inteira dependência divina. O verdadeiro crente tem a necessidade de reconhecer sua pobreza espiritual diariamente.

b. Segunda verdade – o reino dos céus pertence a aqueles que são pobres de espírito. Se não houver da parte do cristão o reconhecimento da sua pobreza espiritual, nem ao menos ele poderá ser chamado de cristão, como não haverá o recebimento do reino dos céus.

2. v.4Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados...

A palavra chorar usada aqui, na língua grega, é muito forte e tem o peso do lamento pela perda de um parente querido. Ao usar essa palavra, o evangelista, queria que entendêssemos que o choro a que Jesus se referia tinha dois sentidos:

a. Primeiro sentido – o que deve nos levar as lagrimas é o arrependimento pelos nossos próprios pecados – 2Co 7.10. Esse choro de arrependimento leva naturalmente a confissão – 1Jo 1.9-2.2.

b. Segundo sentido – é que deve haver por parte do cristão uma tristeza profunda por causa dos pecados dos outros, isto é, dos seus irmãos, da Igreja e da sua nação – Lc 19.41.

Aqueles cristãos que choram assim pelos seus pecados e os confessam a Deus, recebem a recompensa da consolação, isto é, o perdão!

Há uma ligação entre as duas primeiras bem-aventuranças. Observe: Ser pobre de espírito é sentir a convicção de pecado ou de pecados e chorar é arrepender-se dos seus pecados e confessa-los a Deus.

3. v.5Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra...

A palavra manso, aqui usada, é a tradução de um termo grego que descreve um animal que foi domesticado e treinado a obedecer ao comando do seu mestre. Assim, entendemos que é o oposto de estar fora de controle. Então, alguém manso é uma pessoa que demonstra autocontrole. O adjetivo grego praüs também significa gentil, humilde, aten­cioso, cortês e, portanto, o que exerce autocontrole, sem o qual estas qualidades seriam impossíveis.

Creio que a mansidão é fruto do refrigério que o cristão recebe pelo perdão dos seus pecados, da presença do Espírito Santo na sua vida e do aprendizado diário com Jesus – Atos 3.19; Gl 5.22; Mt 11.29.

4. v.6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos...

Comida e água são necessidades básicas, e aqui, Jesus, está dizendo que um cristão precisa de justiça da mesma forma que precisa de comida e água. Isto quer dizer que a vida espiritual depende de justiça assim como nossa vida física depende de comida e água.

Os termos gregos traduzidos por fome e sede, falam de um desejo muito forte, uma intensa busca, uma força apaixonada que vem de dentro da pessoa, uma ambição espiritual. Não há nada de errado com a ambição e a paixão, um impulso resoluto ou um grande desejo quando este sentimento se concentra na coisa certa. E a coisa certa aqui é a justiça de Deus.

A justiça na Bíblia é tem pelos menos três aspectos: aspecto legal, aspecto moral e aspecto social.

ð Aspecto Legal – é o que entendemos por justificação, isto é, o que nos dá um relacionamento correto com Deus – Rm 5.1.

ð Aspecto Moral – é a justiça interior de coração, mente e motivação que é fruto da justificação realizada por Deus no pecador – Rm 1.17; 6.19; Fp 1.11; 2Tm 2.22.

ð Aspecto Social – é a justiça que busca a libertação dos oprimidos e a promoção dos direitos humanos – Cl 4.1; Rm 5.20; Tg 2.1-13; Mas aqui precisamos de equilíbrio, pois Jesus disse: “Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes”. (Mc 14.7) A questão da justiça social começa com a busca dos valores do reino de Deus – “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. (Mt 6.33).

Lutero disse: É preciso ter uma fome e sede de justiça que jamais possam ser reprimidas, ou sustadas, ou saciadas, que não procurem nada e não se importem com nada a não ser com a realização e a manutenção do que é justo, desprezando tudo o que possa impedir a sua consecução. Se você não puder tornar o mundo completamente piedoso, então faça o que você puder.

Pr. Walter Almeida Jr.
Limeira, 08/12/13



[1] Stott, John R. W. Contracultura Cristã, A mensagem do Sermão do Monte, ABU Editora, 1981, p. 11.
[2] Oliveira, Profa. Odila Braga de. O Sermão do Monte, Lição 1, Editora Cristã Evangélica, p.7-9.